Quando a Arquitetura vai Além da Arte e Vira um Negócio

andrea arquiteta
Andréa Esteves – Foto Rafael Cautella

Um dos principais objetivos da arquitetura é criar espaços com foco no ser humano. A arquitetura é uma área muito ampla e diversificada. A arquiteta Andréa Esteves optou pela arquitetura residencial e, principalmente, escolheu trabalhar com famílias. Além disso, proporcionar um espaço verde, mesmo que em um pequeno apartamento,é um dos seus diferenciais. Assim como Andréa disse: os profissionais colocam no projeto aquilo que faz parte da sua essência. Crescer em meio a muita área verde e em um ambiente acolhedor fez parte da sua trajetória e é isso o que ela leva para os seus clientes.

Seu lado artístico pode ter sido uma herança da família materna. “Tenho tios que eram músicos, aquarelistas,arquitetos”. O amor pelo desenho se manifestou ainda na infância e era renovado em todas as suas férias escolares,quando a mãe a presenteava com um caderno de desenho.“Quando acabavam as férias, eu já tinha preenchido ele inteirinho”. Andréa não era especialista em desenhos perfeitos e reais. “Nunca fui retratista, mas gostava de formas sinuosas, talvez isso me levou para o paisagismo”.

O desenho era algo tão marcante em sua vida, que cogitou cursar Moda ou Design de Interiores, em outras cidades.Porém, a proximidade com a família e as oportunidades que poderiam surgir em sua terra natal fizeram com que optasse por estudar Arquitetura, em Ribeirão Preto (SP). Seu primeiro estágio veio durante o primeiro semestre da faculdade, em uma loja de iluminação.Ela era estagiária de luminotécnica.Depois, estagiou em uma marcenaria,onde fazia projetos de mobiliários planejados,e, por fim, em uma loja de revestimento adquiriu experiência em
projetos de paginação de piso.

A disciplina de física, inimiga de Andréa nos tempos de escola, foi fundamental para o início de sua carreira. “Na faculdade,tive aula de física aplicada. Era muito diferente do que tinha aprendido,venci o trauma da época de escola, passei a gostar e tirei 10 em várias provas”. O professor de física (da faculdade) viu o potencial de Andréa e, seis meses antes dela se formar, fez a primeira proposta de trabalho. “Sei que você ainda não é arquiteta, mas estou comprando um apartamento e quero que faça todos os projetos: de gesso, marcenaria etc.”.

Na época, os pais de Andréa tinham uma loja de plantas em um shopping da cidade (o empreendedorismo está no DNA da família) e precisavam de um profissional que fizesse projetos de paisagismo. Foi aí que começou sua carreira como paisagista. Porém, a administração do local não permitiu a criação do escritório dentro da loja e ela teve que empreender e buscar seu próprio espaço para atender seus clientes. “No começo, as pessoas me procuravam como paisagista, mas, quando me apresentava como profissional da arquitetura, sempre tinham algo amais para fazer nas casas”.

Hoje, Andréa percebe o quanto ser autônoma foi bom para sua carreira e para a vida pessoal. “Por ter optado por construir uma família, a principal vantagem de trabalhar como autônomo é ter flexibilidade de horário”.A arquiteta organiza sua agenda semanal deixando sempre quatro períodos livres (durante o horário comercial)para projetar, estudar sobre gestão, ler um livro, socorrer algum imprevisto em uma obra ou alguma necessidade das filhas (Ísis, de 9 anos, e Betina, 6 anos). “Passei anos lutando com a agenda. Sempre trabalhei mais que oito horas por dia. Hoje, não deixo o horário de trabalho consumir o lazer com a família”. Diferentemente, de outras empresas e de outros setores da economia, a crise política financeira que o Brasil vive desde 2016 não afetou os seus negócios. “Nós mudamos toda a estrutura de trabalho do escritório antes de a crise chegar. E quando ela veio, nós estávamos andamos na contramão. Enquanto alguns escritórios estavam demitindo, foi o início da decolagem do nosso. Foi quando começou a andar definitivamente sozinho e ser mais lucrativo”.

Andréa e sua equipe perceberam um novo nicho mercado ao atenderem alguns clientes de paisagismo. “Existia uma fragilidade de comunicação entre os três pilares da arquitetura: design de interiores, execução e finalização das obras”. Obra é um processo demorado e que pode ser muito desgastante e cansativo. “Percebemos que não existia falha de projeto, mas sim falhas de acolhimento desse cliente, que se sentia mal assessorado. Então,começamos a dar suporte para todo esse processo, que vai desde a escolha do terreno até um pequeno detalhe no projeto de marcenaria”.

Nesse novo modelo de negócio, Andréa implantou um processo de desenvolvimento profissional para seus estagiários.“Aqui, o estagiário passa por várias etapas e,depois deformado, existe a possibilidade de se tornar um parceiro do escritório”. A experiência deu muito certo.Hoje, Andréa trabalha ao lado de três jovens arquitetas,que entraram como estagiárias e hoje são parceiras de negócios. Recentemente, enquanto entrevistava um profissional,Andréa percebeu que nunca escreveu um currículo,mas que sabia criar um portfólio.“Mesmo tendo conhecimento de gestão, a minha área mesmo é de criação”. Por isso, seu marido é o responsável por toda a parte administrativa e financeira do escritório.

A família sempre fez parte de sua essência, por isso, orgulhar-se de dizer que seus principais clientes são famílias,que hoje chegam até ela pela indicação de antigos clientes.Para Andréa, a arquitetura terá sempre um mercado promissor. “Cada vez mais, as pessoas têm buscado estarem bons espaços, independentemente, se são grandes ou pequenos. Para mim, o mais importante é o bem-estar dos meus clientes”. Ela defende que as pessoas devem se sentir bem onde moram, trabalham ou estudam e que os espaços precisam oferecer conforto, iluminação, ventilação e acústica adequada. Além disso, Andréa não abre mão de um espaço verde, nem mesmo em um pequeno apartamento.“Faz parte de mim aquilo que trago na memória. A minha infância foi com pé no chão e subindo em árvore,no viveiro do meu pai. Faz parte da minha essência e coloco isso em todos os meus projetos”.

Além de todo o conhecimento voltado ao desenho arquitetônico, Andréa finaliza sua entrevista ressaltando que os cursos de Arquitetura deveriam oferecer disciplinas de gestão e administração de empresas. “Somos formados para sermos artistas. Eu via a arquitetura apenas como arte”. Ela diz que quando mudou sua visão e entendeu seu papel como prestadora de serviço, tudo mudou.Hoje, Andréa compartilha com os jovens arquitetos, algo que gostaria de ter ouvido quando era recém-formada.“Vejam a arquitetura como um negócio e não só como prazer. Quanto antes perceber isso, o sucesso chegará mais rápido”.

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Por: Mariana Pacheco

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