Vamos falar sobre política e educação?

sandra molica professora

 

Professora de Ribeirão Preto esclarece o conceito de cidadania e como as atitudes cotidianas da população podem mudar os rumos de um país

Se não bastasse a crise política e financeira que o Brasil tem vivenciado nos últimos tempos, o país se vê diante de uma população polarizada e intole­rante quando o assunto é política e eleições. Muitas pessoas estão descrentes, preocupadas e receosas. Mas, como o ditado já dizia: “tudo na vida tem um lado bom”. E é esse lado bom que a professora e pesquisadora Sandra Molina, docente da Universidade de Ribeirão Preto, prefere enxergar. “As pessoas dizem que vivemos em um período triste, mas não o acho necessariamente ruim. Pela primeira vez, em décadas, estamos discutindo política no sentido: ‘o que vamos fazer?’ Parece que vivemos em meio a um caos, porém são as dores do parto da nossa cidadania. Se conseguirmos conduzir isso de forma ponde­rada, nós vamos sair muito melhor”.

Em agosto de 2018, a pesquisadora palestrou no TEDx Talks (eventos organizados para apresentar ideias que merecem ser compartilhadas), que aconteceu em Ribeirão Preto (SP). Sandra falou sobre o problema do amplo conceito da palavra cidadania. Para muitas pessoas, a cidada­nia está ancorada apenas na macropolítica, nas grandes ins­tituições, nas organizações não governamentais etc. Diante disso, ela propôs que as pessoas desenvolvessem novas prá­ticas para ter novos tempos. Ou seja, em vez de esperar as soluções da macropolítica para resolver um problema local, poderiam começar a se articular na micropolítica.

“Por que não podemos criar redes de interesse, de solidarie­dade e de comprometimento? Por exemplo, se tem um ter­reno baldio com mato alto na esquina da minha casa, preciso  esperar o governo? Ou posso unir a vizinhança e trans­formar aquele espaço em uma horta coletiva?”. Atitudes como essa tira a população de uma situação passiva, de sempre esperar que o governo faça tudo, e mostra como todo mundo pode contribuir para o bem comum. Sandra comenta que aprendeu isso estudando a história de escra­vos do século XIX, que conseguiam criar redes de solida­riedade para suportar a situação em que viviam.

A pesquisadora observa que o Brasil acostumou-se com a herança de um Estado patrimonialista e patriarcal e, pela primeira vez, as pessoas estão percebendo que precisam se envolver mais na política se quiser mudanças. “O brasi­leiro não sabe para onde ir, pois nós tivemos pouco tempo de democracia”. Ela acrescenta que antes de esperar algo dos futuros representantes, as pessoas devem ser coeren­tes com elas mesmas e refletirem “o que eu espero de mim nos próximos anos? Se quisermos uma sociedade melhor, a mudança tem que partir de nós. Não podemos dizer que o governo é corrupto, se sonegamos impostos, se paramos em vaga de idosos e assim por diante. Precisamos ter coerência. A ausên­cia de coerência é nosso principal problema”.

Sandra chama a atenção para outras questões que vêm junto ao atual pro­cesso de aprendizado político: o medo e a descrença nas instituições. As pessoas estão passando fome e estão desempregadas e isso faz com que queiram soluções rápidas, entretanto, o processo é lento. “Não tem como resolver 100 anos de desrespeito, de empobrecimento da população, de desmonte da escola e da cultura de um país em apenas quatro anos”.

Ela ainda menciona outro problema: tanto a população quanto a mídia estão focadas apenas nas figuras que representarão o Poder Executivo. “Mas, é o Legislativo que tem o total poder. O presidente não implanta nada sem o aval do Legislativo, que é onde existe nossa capacidade de mudança. Porém, somos manipulados por uma cortina de fumaça e fica­mos assistindo as brigas e acusações dos candidatos à presidência”.

Mas, o que se esperar das futuras lideranças políticas? Sandra responde: ponderação e equilíbrio. “Ninguém governa um país rachado e brigando”. Além disso, enquanto os candidatos estão focando na ideia de um país polarizado politicamente, estão tirando a atenção da população de assun­tos realmente importantes. “Quando focamos em discussões menores, dei­xamos de pensar em coisas como a reforma do Estado, a reforma tributária e os verdadeiros problemas do país”. Sandra ressalta que, hoje, 11% da população brasileira está abaixo da linha da pobreza absoluta e 33% vivem na pobreza. “Temos 44% da população em situação de vulnerabilidade”.

Ela comenta que, recentemente, estava explicando aos seus alunos que o fato de essas pessoas não terem acesso a um trabalho digno, ao consumo e à qualidade de vida interfere na vida de todos e é um problema de todos. “Significa que eles não têm acesso ao serviço de um dentista, de um fisio­terapeuta, de um médico. Falar de pobreza e de direitos humanos, hoje, não é falar apenas de fraternidade e compaixão é também falar de números da economia. As pessoas não se dão conta dessa situação”. Sandra insiste que é preciso trazer esses 44% da população de volta para a economia. “Aí, meus alunos me perguntam: ‘mas como fazemos isso?’ e eu respondo: vocês eu não sei, mas, eu estou fazendo minha parte, porque cada vez que eu entro em sala de aula e ouso falar disso no ambiente acadêmico, estou fazendo meu ato de cidadania”.

Gestão e qualificação técnica também fazem parte da lista do que se espe­rar dos futuros políticos, segundo a professora. “Não nos falta dinheiro, falta boa gestão, fiscalização e transparência”. Ela defende que as futuras lideranças precisam entender de políticas públicas, ter qualificação técnica e assessores qualificados. “Não consigo ser médico sem estudar. A política funciona do mesmo jeito”. E insiste que os políticos também precisam entender que não é mais possível fazer política como se fazia há 100 anos. “As coisas mudaram! Só os gestores que tiverem antenados com o que se diz nas ruas entenderão isso. Por outro lado, as ruas só poderão cobrar os gestores se fiscalizarem. E para fiscalizar tenho que ter autoridade moral para fazer melhor ou igual. Como posso cobrar seriedade e competência se eu não sou sério e competente?”.

“As pessoas dizem que vivemos em um período triste, mas não o acho necessariamente ruim. Pela primeira vez, em décadas, estamos discutindo política no sentido: ‘o que vamos fazer?’”
Educação no Brasil

Em um país onde 52% dos adultos (entre 25 e 64 anos) não possuem um diploma do ensino médio (segundo dados divulgados em setembro de 2018, pela Organiza­ção para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico­-OCDE) sinaliza que algo está errado na área da educa­ção. “A nossa única alternativa é investir em educação. Enquanto ela for visto como gasto e não como investi­mento, nós teremos problemas”.

Contudo, para reverter a situação da educação no Brasil, Sandra analisa que é preciso de gestores sérios e compe­tentes para lidar com a questão. “Quem nunca entrou em uma sala de aula não pode legislar sobre a realidade de uma escola. Tem que saber como alocar a verba da edu­cação e tem que entender a especificidade e a complexidade que é a educação neste país”. E acrescenta que quando se fala de escola, o assunto não gira em torno somente da figura do pro­fessor e do ensino de qualidade, o problema é muito mais complexo e amplo. “Significa que também temos que ter policiamento, iluminação, arborização, saneamento básico etc. É preciso ampliar a política para educação”.

Para Sandra, isso depende de uma política de longo prazo, de boa gestão e de maior investimento de capital. “Porém, não é só investir, é investir com racionalidade. Temos pes­soas da área da administração focadas em gestão pública, temos advogados especialistas em educação e assim por diante. Por que não juntar essas pessoas para pensarem juntas? Caso contrário, as discussões sobre o problema da educação no Brasil girarão sempre em torno do salário do professor”.

Os professores fazem parte sim de um dos pilares do processo de desenvolvimento da educação no Brasil. “É fato que o piso salarial do professor é muito baixo e para reverter essa situação é pre­ciso dar condições de trabalho para os professores. Ser professor não pode ser ‘bico’ e isso acontece muito”, tem

que ser uma profissão, uma carreira. Segundo estudo da OCDE, divulgado em setembro de 2018 e publicado pelo Jornal O Globo, o Brasil é o país que paga o pior salário para os professores de ensino fundamental e médio das escolas públicas, se comparado aos 40 países membros da Organização.

“O professor é fundamental na sala de aula. Ele deve respeitar e amparar o aluno, mas nunca perder de vista que ele é a autoridade dentro da sala. E o aluno também espera essa posição do professor. Mas se não houver um processo de afeto, você não consegue nada. Se não res­peitar o aluno e exigir que ele te respeite, também não há espaço para o desenvolvimento do aprendizado”. Sandra sabe bem disso, pois já lecionou em todas as etapas do ensino: começou no ensino superior, deu aula em cursi­nhos, passou pelo ensino médio, pelo ensino fundamental e até por alunos de pós-graduação, afinal, são 28 anos na área acadêmica – isso significa que no dia 15 de outubro (Dia do Professor) ela tem muito o que comemorar.

A importância da leitura

“Recentemente, eu estava lendo uma reportagem que as pessoas não estavam conseguindo estágio, porque não sabem ler e escrever.” Segundo a última pesquisa divul­gada pelo Ministério da Educação (MEC), em agosto de 2018, apenas 1,6% dos estudantes da última série do ensino médio, que participou do teste realizado pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2017, alcançou níveis de aprendizagem considerados adequados na língua portuguesa. Ou seja, de 1,4 milhão de alunos que fez a prova, apenas 20 mil dominam o português.

A professora explica que a educação de aluno é divi­dida em dois momentos: dentro da sala de aula e den­tro de casa. “Não é possível culpar apenas a escola e o governo se os pais não estimulam o estudo e a leitura dentro de casa. E nenhum político fala que a respon­sabilidade da falta de interesse dos alunos pela leitura é culpa dos pais, que a educação tem que vir de casa e que os pais devem estimular o filho, porque isso não traz voto”. Todo esse processo está diretamente ligado à micropolítica, ao voto, ao cotidiano das famílias e da escola. “Isso dá tra­balho, mas preciso ser discutido”.

Sandra enfatiza que é preciso com­prometimento também da parte dos pais. “As pessoas não querem respon­sabilidade e não querem ter trabalho no processo de educação dos filhos, pois é muito mais simples dizer que a culpa é do governo”. O resultado disso pode ser visto na 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, onde 44% da população brasileira admite não ter o hábito de ler e 30% dizem nunca ter comprado um livro. Filha de professores, Sandra comenta que o primeiro pre­sente que ganhou dos pais e que trás na memória foi uma coleção do Machado de Assis. “Eu sempre tive um livro na mão. Na minha casa, educação e livro nunca foram gastos, sempre foram investimento. É isso o que precisa: olhar para o livro como investimento”. E o que resultou todo esse investimento? Sandra graduou-se em história, fez mestrado em História Social do Trabalho e doutorado em História Social. “O conhecimento não precisa ser sofrido, mas exige esforço. Eu acordo todos os dias às quatro horas da manhã para estudar. Nunca entrei em sala de aula sem estudar”.

Ela conta que inicialmente sonhava em ser arqueóloga. “Mas, não tinha dinheiro e precisava fazer uma facul­dade que me sustentasse para depois cursar Arqueologia”. Como o mundo é cheio de surpresas, Sandra se apaixonou por história, virou pesquisadora e durante o mestrado se descobriu professora. “Descobri também que quando a gente se apaixona e faz algo com amor, fazemos o traba­lho com total entrega e quando nos entregamos, nos tor­namos melhores no que fazemos”.

A pesquisa e a licenciatura foram se completando durante sua carreira. “As pessoas costumam colocar o foco ape­nas no lado financeiro, que é fundamental é claro, mas o foco está errado. Temos que ter comprometimento e amor pelo o que fazemos. Ao fazer isso geramos dividendos, geramos convites, ganhamos exposição e melhorias no ambiente de trabalho e o dinheiro acaba vindo por con­sequência”. Tanto é verdade que até hoje, a professora recebe recados constantes de ex-alunos.

A oportunidade de palestrar no TEDx Talks, por exem­plo, foi através da indicação de um aluno que participou da organização do evento. “Eu dou aula e os alunos vão indo embora, vão para o mercado de trabalho. De vez em quando, eles aparecem e a parte boa disso é que eles me levam no coração”. Ela diz que não tem uma semana em que não recebe uma mensagem de ex-aluno para expressar algo do tipo: “estou te escrevendo para dizer que lembro de suas aulas até hoje e que estou aplicando o que aprendi no meu cotidiano”. Orgulhosa das “sementi­nhas” que plantou durante sua trajetó­ria como professora, Sandra diz “é isso o que eu chamo de micropolítica”. Seu objetivo não é doutrinar ninguém. “O que eu faço, é compartilhar o que eu penso sobre a vida e o meu olhar para o mundo. E isso tem a ver com o meu conceito de micropolítica e sempre digo que cidadania para mim é verbo. Estou ‘cidadaniando’ cada vez que entro em uma sala de aula”.

Por Bruna Zanuto

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