A Terceira Idade no Mercado de Trabalho

 

Neide Beroldi: Foto Davi Rodrigues

 

Não parar de de aprender é uma das dicas da professora Neide Bertoldi Franco para os profissionais veteranos que não pensam em se aposentar tão cedo

Por longos anos, a cultura brasileira viu o idoso como incapaz para o mercado de trabalho. Mesmo com inúmeras campanhas pedindo o respeito para com a terceira idade, ainda existe um preconceito escondido com aqueles que são nossa fonte do saber. Enquanto isso na cultura oriental, os mais velhos são tidos como exemplo de experiência e são extremamente respeitados.

Em contrapartida, os jovens são estimulados a saírem da faculdade já inseridos no mercado, e fazem isso cheios de energia porém, muito dificilmente, prontos para o cargo de destaque que tanto almejam. Nisso, os mais velhos saem ganhando, já que estão acostumados com o ritmo produtivo, têm uma maior bagagem criativa e lidam de forma mais positiva com novas experiências. Além disso, eles estão buscando manter-se ativos por mais anos.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE) aponta que, em 2050, a previ­são é de que 22% da população seja de idosos, o que nos faz pensar sobre como estará o quadro de funcionários nas empresas de nosso país, que hoje conta com 13,1 milhões de brasileiros desempregados. Nos faz pensar também nessa fusão, de jovens e idosos, que está ganhando cada vez mais espaço no Brasil.

Para muitos, trabalhar após a aposentadoria é algo inima­ginável. Para outros é um caso de empatia, como pensava Neide Bertoldi Franco, que continuou dando aulas no ensino superior mesmo depois de adquirir seu benefício, pois queria permanecer contribuindo na educação dos mais jovens.

Logo após concluir o curso de Matemática Aplicada, Neide, ingressou no mestrado em Análise Numérica, no Instituto de Ciências Matemáticas de São Carlos (ICMSC/USP), hoje Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP) e, com apenas um ano no novo estudo, foi convidada para ministrar aulas de cál­culo numérico no campus da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos.

Convite feito e aceito, as aulas eram direcionadas aos estu­dantes de graduação e pós-graduação na área de ciências exatas, onde também orientava em trabalhos acadêmicos vários de seus alunos após a conclusão do seu mestrado e, posteriormente doutorado e livre docência. Também produziu artigos científicos e escreveu dois livros, sendo um de cálculo numérico e um de álgebra linear, quando já trabalhava como professora colaboradora aposentada da USP de São Carlos e ministrava aulas na Faculdades COC Ribeirão Preto, atual Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto.

Depois de 38 anos de dedicação à docência e às pesquisas, e aos 68 anos, Neide está aposentada de vez. O motivo de não continuar com as aulas? “É preciso dar chance aos mais jovens de mostrar o conhecimento que eles adquiri­ram ao longo de suas vidas”, disse ela, que hoje usa seus dias para cuidar das plantas, costurar, fazer ginástica e fazer pintura a óleo sobre telas, dentre tantas outras ativi­dades que ocupam seu dia.

Ela está feliz, pois acredita que contribuiu bastante com a formação de milhares de jovens. Enquanto isso, para muitos idosos continuar trabalhando mesmo depois de se aposentar vai muito além do complemento da renda, é sinal de se sentirem úteis e inseridos na sociedade. É importante lembrar que a atividade remunerada contribui para uma melhor saúde física e mental e, muitas vezes, está ligada ao prazer de quem a exerce. Do outro lado, quem o emprega investe em responsabilidade social.

Responsabilidade social, para quem não sabe, é quando as empresas decidem, voluntariamente, contribuir para uma sociedade mais justa. Nesse caso, elas exercem o cha­mado “nível externo”, pois com essa ação gera consequ­ências no meio em que estão inseridas. Ou seja, é quando uma empresa não tem apenas o objetivo de gerar lucro e sabe que ela deve contribuir com a sociedade ao seu redor.

A lei 9.029/1995 garante que pessoas acima dos 60 anos não podem ser prejudicadas juridicamente em seus traba­lhos e também que tenham prioridades em vagas de con­cursos públicos, caso haja empate com outros candidatos.

Assim, quem está fora do mercado de trabalho há tempos e tem o desejo de voltar, fica sempre a possibilidade de interação e criação de novos laços, pois sai de sua zona de convívio e, muitas vezes, zona de conforto e interage com pessoas mais jovens, o que permite uma bonita e intensa troca, se olhado sempre com os olhos carinhosos e com a alma aberta de quem permite ensinar e aprender.

Para quem está dentro e quer continuar por bastante tempo o segredo é não parar de aprender nunca. Sempre que tiver a oportunidade, leia livros ou faça cursos de sua área. Hoje, existem muitas faculdades que oferecem aulas on-line ou semipresenciais e que são de boa qualidade. Com a constante atualização acadêmica até o salário pode ser melhorado. Saber interagir bem com os objetos tecno­lógicos também é muito importante, já que a maioria das coisas são feitas por computadores, celulares, tablets. Sem contar que o estudo é uma boa fonte de ocupação para a cérebro, o que ajuda inclusive no retardo e preven­ção de doenças como o Alzheimer.

Mas, independentemente se você está de fora e quer vol­tar ou se está dentro e quer sair, ou simplesmente se man­ter no mercado de trabalho, o importante é fazer sempre aquilo que sinta vontade, pois não há nada melhor do que sentir prazer e motivação ao cumprir com suas ati­vidades diárias.

É muito importante ter em mente que todas as decisões sobre a hora certa de parar ou continuar trabalhando contri­buirão para uma terceira idade cheia de qualidade e saúde.

Participar de programas sociais oferecidos por órgãos municipais também é uma boa opção, aumenta o contato com as pessoas da mesma idade, possibilitando a elas a troca de experiências de vida e a percepção de quão linda foram suas trajetórias.

Mas o prazer de se sentir útil e ensinar alguém não tem preço. Passar ensinamento para gerações mais novas é a melhor forma de deixar o seu legado, firmando um exemplo de trabalho, feito com amor e carinho. Mesmo depois que te dizem que você já pode parar, essa será a mais bela história que poderá ser contada por quem te conheceu ou por quem só ouvirá falar do seu nome.

Por Letícia Agostinho

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