Paixão pelo Café que passa de Geração em Geração

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Márcio Luiz Palma Resende – Café Seis de Janeiro (Foto Rafael Cautella)

Comandando as fazendas da família, o produtor rural Márcio  Luiz coloca a “mão na terra” quando o assunto é café

O despertador toca às 5h30 todos os dias. Márcio Luiz Palma Resende, 34 anos, produtor rural, despede-se da esposa e do filho pequeno e vai para a Fazenda Limeira, localizada em Altinópolis (SP), região da Alta Mogiana. Ao chegar, atravessa os 150 hectares da plantação de café, que ocupa quase metade da propriedade. Ele já está acostumado com o sol forte e o ar puro, já que, quando era pequeno, participava do dia a dia do trabalho no campo, seja caminhando ao lado do avô ou ajudando sua mãe na lida. Quando a perdeu, em 2006, Márcio deu continuidade às atividades, graças ao conhecimento passado de geração em geração.

Apesar de crescer brincando nos terreiros, rodando café e dirigindo – ou, muitas vezes, atolando – tratores, o produtor rural ainda teve muito o que aprender para continuar à frente dos negócios. “Antes, o meu conhecimento praticamente se restringia a saber se o café produzido não tinha impurezas ou contaminação. Depois que me aprofundei no universo apaixonante dos cafés especiais, veio a vontade de investir mais na qualidade”, afirma Márcio.

Por isso, ele se mantém atualizado e atento às novas tecnologias que envolvem a cadeia produtiva do café, desde as máquinas pesadas até as mais sensíveis para extrair o melhor dos grãos. “Temos uma equipe treinada e qualificada em cursos de classificação e degustação de café, além de um laboratório dentro da fazenda, o que nos possibilita fazer testes e, assim, conseguir lotes diferenciados”, diz.

Ele próprio se especializou em vários assuntos para entender melhor o cliente final do café especial. Fez cursos de barista (profissional especializado na bebida de alta qualidade), de torra, de avaliação sensorial e de metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), entidade que busca difundir e estimular o aprimoramento técnico na produção, comercialização e industrialização dos produtos. “Esses conhecimentos me possibilitaram conversar melhor com meu público consumidor, além de saber como uma cafeteria funciona e quais são os critérios utilizados para saber se o café é bom ou ruim”, explica.

Novas Ramificações  dos Negócios

Os caminhos abertos pelo seu avô e trilhados por sua mãe estão ganhando novas ramificações com Márcio e os irmãos. Em 2017, eles lançaram uma marca própria de café especial, homenageando a cultura da região: o Café Seis de Janeiro. O nome veio de uma tradição folclórica muito popular em Altinópolis. “Quando eu era criança, descia as ruazinhas de terra, por entre as plantações, junto com as companhias de Folia de Reis, sempre no dia seis de janeiro. Esperava ansiosamente pela cantoria, máscaras, fitas coloridas e os violeiros fantasiados”, lembra.

Para o produtor rural, o café é muito mais do que uma simples bebida. “É uma experiência sensorial, que promove encontros e cria momentos especiais. O Seis de Janeiro surgiu como uma forma de valorizar a cultura da minha região e homenagear as pessoas que vivem para o cultivo dos grãos”, completa.

O que Faz um Café ser Especial

O café especial é determinado a partir da Metodologia de Avaliação Sensorial da SCA, aplicada no mundo inteiro. Para ele chegar a essa categoria, o produto deve atingir ou superar os 80 pontos em uma escala de 0 a 100. Os critérios analisados para definir a qualidade da bebida são: ausência de defeitos dos grãos, fragrância (cheiro do café moído seco), aroma (cheiro do café moído em água), uniformidade, sabor, acidez, doçura, finalização na boca, harmonia e conceito final do provador.

Márcio conta que, na Fazenda Limeira, encontram-se o clima e o solo ideais para a produção do café especial, a 1.000 metros de altitude. Em todas as etapas do processo, o produto recebe um cuidado específico, que exige bastante atenção. Antes da colheita, por exemplo, escolhe-se o talhão com maior nível de perfeição dos frutos. A partir daí o grão é colhido manualmente e separado de galhos, folhas e outras impurezas. A secagem é feita à moda antiga, no terreiro da fazenda, e chega a levar o dobro de tempo da secagem convencional. Todos os envolvidos na produção possuem curso e treinamento, desde o tratorista até o provador do café. “Existem muitas variáveis nesta atividade. Por isso, chegar a um produto final, considerado bom, é uma vitória de um longo processo”, ressalta.

O produtor rural está tão envolvido no universo do café que, neste ano, foi eleito presidente da Associação de Cafés Especiais da Alta Mogiana (AMSC — Alta Mogiana Specialty Coffees, da sigla em inglês). “Meu principal objetivo é levar conhecimento aos pequenos cafeicultores, por meio de cursos e palestras sobre o que há de novo e melhor nas técnicas agrícolas. Acredito que a educação é o principal meio de superar os obstáculos e fazer o negócio crescer”, conclui.

Por Mariana Pacheco

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