O Humor em Tempos de Crise

 

 

Humorista Roberto Edson conta como consegue atravessar tempos difíceis fazendo piada das próprias dificuldades e alerta: “o bom humor é contagiante, o problema é que o mau humor também é!”

Um país com 12,5 milhões de desocupados, 23,5% da população composta por quem não consegue pagar suas contas em dia, em que 33 milhões de pessoas não têm onde morar e que o salário mínimo não dá para suprir as necessidades básicas de um cidadão, como alimentação, moradia e saúde. É ou não é um cenário para deixar qualquer um mal-humorado? Até mesmo quem vive do riso corre o risco de ficar de cara amarrada quando a crise bate à porta. E foi isso o que aconteceu com o ator e humorista Roberto Edson, 47 anos, de Ribeirão Preto (SP).

Em junho de 2015, no auge das crises econômica e política no Brasil, Roberto teve nove espetáculos cancelados de uma hora para outra. “Com duas filhas para criar e em meio à construção da minha casa, entrei em parafuso. Só que aprendi que era preciso lidar com isso, não havia como escapar”, diz o humorista.

Mas não foi nada fácil, a ponto de, um ano e meio depois, pensar em encerrar a carreira nos palcos. “Neste processo todo, entendi que CNPJ não tem coração quando a crise vem e que riso lá em casa é coisa séria. É ele quem paga a comida, a escola, o convênio médico”, enumera Roberto.

Em meio aos percalços, a chance de voltar a sorrir veio de longe, mais precisamente a 629 quilômetros de casa. “No dia em que comuniquei minha esposa a intenção de abandonar o humorismo e procurar outra coisa para fazer, o telefone tocou. Era uma empresa de Rio Verde, no interior de Goiás, querendo fechar quatro datas para espetáculos corporativos em janeiro de 2017”, relembra o humorista.

Humor como Negócio

A partir daí, Roberto Edson compreendeu que, se estava no fundo do poço, ele mesmo havia cavado o buraco. “Eu nunca havia levado o humor como um negócio. Não me preparei para momentos difíceis. Não me planejei. Hoje vejo que, como tudo na vida, é preciso planejamento, foco na resolução de problemas. Agora entendo que a gente não consegue abraçar tudo, é preciso resolver um problema de cada vez”, aconselha.

Com a ajuda de amigos para a redação de contratos mais bem elaborados e planos de divulgação de seu trabalho, e com a casa mais ou menos em ordem, era hora de voltar aos palcos. E por que não fazer graça das próprias dificuldades? Assim surgiu, no final de 2016, o espetáculo “Minha Vida é uma Piada”. O humorista garante que 95% do que é contato ali são histórias reais, como a vez que, cansado de receber ligações do gerente do banco informando do saldo negativo na conta corrente, resolveu retrucar: “Escuta, quando meu saldo estava positivo, que eu aplicava alguma coisa aí com vocês, eu ficava te ligando todo dia pra dizer isso? Para de me encher a paciência e me deixa resolver os problemas, caramba!”.

Para montar o roteiro de “Minha Vida é uma Piada”, Roberto recorreu a temas observados em consultas médicas, gafes de familiares, amigos ou de pessoas que cruzaram sua vida nas mais variadas circunstâncias.

“Uma vez eu estava parado no semáforo de uma avenida quando veio um doido e encheu a traseira do meu carro. O baque foi tão grande que voou controle remoto do portão, óculos, voou tudo. Eu desci do carro, fui falar com o outro motorista e contei pra ele que tinha uma imagem de São Jorge no câmbio do meu carro e que até o santo saiu do lugar, ficou só o cavalo! E ficamos ali, contando piadas até resolver o problema da batida. Fazer o quê? Já tinha acontecido mesmo”, conforma-se. Com o sucesso nos palcos, Roberto já tem novos planos para o espetáculo. “A tendência é o ‘Minha Vida é uma Piada’ virar uma palestra. Quem sabe não vire um livro?”, revela, misterioso.

 

 

Para 2019, o humorista tem planos de novos espetáculos, repaginando antigos personagens, mas sem deixar de lado as piadas de cara limpa, no formato Stand Up.
Além dos palcos, Roberto pretende ampliar sua presença na internet, produzindo novos conteúdos e movimentando as redes sociais. “Vou atacar a internet como nunca ataquei, estou me preparando agora para ter uma atuação forte no meio on-line em 2019”, promete.

Piadas com Clientes e Professores

Roberto Edson completa 24 anos de carreira em 2019. De 1989 a 1995, trabalhou em agência bancária como contínuo, no setor de cobranças e no caixa. Em uma época ainda distante de toda a tecnologia de hoje, o contato era direto com o cliente, que muitas vezes enfrentava longas filas e chegava com cara de poucos amigos na boca do caixa. “Não tinha jeito, eu contava logo uma piada pra quebrar o gelo”, relembra.
Ainda trabalhando no banco, o então aspirante a humorista profissional foi cursar Educação Física no Centro Universitário Claretiano, em Batatais (SP). “Nesta época eu comecei com as imitações, não de figuras famosas, astros da televisão, mas de pessoas comuns, próximas a mim, como os colegas de classe e os professores”.

E foi justamente neste ambiente que surgiu a primeira oportunidade de subir em um palco. “A comissão de formatura precisava de dinheiro para fechar as contas, conseguimos uma data no Teatro Municipal de Batatais e assim surgiu o primeiro espetáculo, algo amador, mas bem caprichado”, garante. Com a casa cheia, veio o ânimo para novos projetos e as oportunidades no mercado.

Do Palco para a Telinha

Uma dessas oportunidade surgiu em 2001, com a participação no programa “Caminhos da Roça”, da EPTV Ribeirão. Foram sete anos contando causos com um de seus personagens mais conhecidos, o Chico Lorota, todo sábado pela manhã.
“Aprendi muita coisa na televisão, a equipe de lá me ensinava muito, como posicionamento de câmeras, questões de roteiro, a importância da luz, e isso tudo eu procuro utilizar em meus espetáculos”, afirma Roberto.

Criado especialmente para o o programa na TV, Chico Lorota é uma nova versão para outro personagem caipira de Roberto Edson, o Oripinho Marvadeza. Outro sucesso nos palcos é o bêbado Saideira, além, é claro, dos espetáculos de cara limpa.

Hoje, Roberto calcula que 80% de suas apresentações são voltadas ao mercado corporativo. São festas de funcionários, workshops, lançamentos de produtos, e as “Palestras com Humor”, realizadas junto ao coach Marcelo Jabur.

“São recados sérios, mas com momentos necessários de descontração”, resume o humorista.

“Riso lá em casa é coisa séria. É ele quem paga a comida, a escola, o convênio médico”

Rir é o Melhor Remédio

O ditado é mais do que batido, mas continua sendo a melhor solução para tempos de crise. “O bom humor é contagiante, o problema é que o mau humor também é! Hoje em dia precisamos estar mais focados no cavalo arriado quando ele passa do que ficar falando mal da sujeira que ele faz. E subir nesse cavalo, pelo amor de Deus!”, aconselha Roberto Edson.

Para o humorista, se algo nos faz mal, deve ser cortado logo pela raiz. E nada melhor nos momentos de dificuldade do que fazer piada dos próprios tropeços. “Eu vejo no ‘Minha Vida é uma Piada’ que muitas pessoas se identificam com o que eu passei, então, é preciso canalizar, deixar que os problemas pessoais abram o cellos, Ronald Golias, Jô Soares, Ary Toledo”, elenca.

Mas se o Brasil nunca fez feio no campeonato mundial do humor, é um norte-americano quem ocupa o pódio na preferência do humorista ribeirão-pretano. “Sou um apaixonado por Jerry Lewis, a ponto de ter assistido quase todos os seus filmes, tantas vezes, que até decorei suas falas”, garante. “É preciso beber muito em todas estas fontes se você quer fazer um humor bem feito”, completa Roberto.

E não é só isso. Filmes como “O Auto da Compadecida” e “O Meninão” – este, do ídolo Jerry Lewis, seriados como “Chaves” e “Eu, a Patroa e as Crianças”, e canais na internet como “Porta dos Fundos” e “UTC – Ultimate Trocadilhos Championship”, são as outras dicas do humorista para quem quer aprender a arrancar gargalhadas por onde passa.

Dos Palcos para os Quadrinhos

Provando que o bom humor não tem limites e cabe em qualquer formato, Roberto Edson acaba de virar personagem de gibi. Ou melhor, seu personagem Chico Lorota foi parar nas histórias em quadrinhos. E incorporando o bom “caipirez”, ele descreve qual é o sentimento: “cêis num imagina a satisfação que eu tô!”.

Com roteiros desenvolvidos por Gérson Teixeira, que já escreveu clássicos da editora Abril, Disney, Senninha, Bolinha e Luluzinha; e que atualmente presta seus trabalhos para a Maurício de Sousa Produções, a RPHQ 4 “Causos do Chico Lorota” reúne trabalhos de mais de 20 artistas em torno de roteiros originais e causos contados pelo personagem. “A seleção dos trabalhos mescla artistas experientes e novos talentos”, explica o organizador do projeto, Cordeiro de Sá.

“Eu fiquei surpreso com as artes, em perceber como cada um vê o Chico Lorota de uma maneira, com um traço diferente. Imagina, eu só sei desenhar figuras feito uns bonequinhos!”, diz Roberto Edson.

Lançada no dia 21 de novembro, a revista de 44 páginas coloridas tem 14 histórias, dois causos ilustrados e entrevistas com os artistas participantes do projeto. A publicação pode ser encontrada por meio das redes sociais @ribeiraopretoemquadrinhos.

Por Angelo Davanço

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