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Uma História de Persistência

Professora e Escritora Maris Ester – Foto Rafael Cautella

Conheça a trajetória da professora e escritora Maris Ester Souza, a ex-faxineira que voltou a estudar depois de 17 anos e hoje transforma a vida dos alunos por meio da cultura e da educação

Se procurarmos nos dicionários o significado da palavra persistência, encontraremos algo mais ou menos assim: “Característica daquele que não desiste fácil. Agir com persistência é ser esforçado e focado em seus objetivos, sem deixar-se abalar facilmente por quaisquer críticas ou negativas que receba”.
Pois bem, a professora e escritora ribeirão-pretana Maris Ester Souza, 53 anos, é uma mulher persistente e tem uma bela história de superação.

Vamos a ela?

Maris nasceu em família numerosa. Quando tinha 4 anos, o pai faleceu. Com o novo casamento da mãe, eram ao todo 21 irmãos. A menina sempre gostou de estudar, mas aos 14 anos, teve que abandonar a escola, na 8ª série.

“Até tentei fazer um curso técnico de contabilidade ou secretariado naquela época, mas não tinha condições de pagar”, relembra.

E então Maris foi trabalhar como faxineira. Foram 17 anos assim, limpando casas para ajudar o marido no sustento dos três filhos. Aos 31 anos, Maris sentiu o peso do mundo e entrou em depressão, procurou um médico que lhe deu a receita salvadora: “Um raio precisa encontrar um lugar para cair. Volte a estudar, descarregue suas energias nos estudos e veja a mudança que ocorrerá em sua vida”. Ela saiu do consultório, era o último dia para se matricular no curso supletivo. Maris não pensou duas vezes. Matrícula feita, era hora de iniciar uma nova caminhada.

Encontro com as Letras

Em seu retorno à sala de aula, Maris começou a se descobrir escritora. “Quando havia aulas de redação, eu lia meus textos em voz alta e a classe aplaudia. Eu escrevia muito e expressava meus sentimentos nos textos”.
Um dia, fazendo faxina em uma casa, viu no jornal a notícia de um concurso literário. Se inscreveu, enviou seu trabalho, mas não foi selecionada. Porém, convidada para o coquetel de apresentação dos textos premiados, começou a ter contato com os escritores de Ribeirão Preto (SP) e região. Começou a circular por este meio sempre que podia, entre uma faxina e uma noite de escola. Aconselhada pelos novos amigos, procurou a Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto, entidade que hoje preside.

Nasce um Livro

De conselho em conselho, Maris foi dando sequência à sua caminhada. Ainda trabalhando como faxineira, em 2001, participando de um evento cultural na escola téc-nica de um sindicato de trabalhadores, se aproximou do presidente da entidade e disparou: “Moço, ouve a minha história? Me ajuda a publicar meu livro?”. O sindicalista ouviu e devolveu um desafio: “Se você conseguir uma obra de arte para colocarmos aqui na escola eu banco seu livro”. E quem disse que Maris Ester tem medo de desafios? Foi à luta e voltou ao sindicato com três quadros doados pela amiga e artista plástica Norma Campaz.
E assim surgiu “Nua para o criador… Vestida para a humanidade”, livro carregado com os seus sentimentos à época. Na noite de lançamento, mais um desafio. “Me disseram que neste tipo de evento não iam nem 70 pessoas. Eu fui entregar os convites pessoalmente, de porta em porta, e na noite de lançamento, vendi mais do que 100 exemplares do meu livro. Qual foi o meu segredo? Eu apenas ousei!”, diz.

Faculdade? Por que não?

Logo depois do lançamento de sua obra, Maris Ester participou da primeira edição da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Lá, deu de cara não com um conselho ou um desafio, mas com uma sugestão. “Um jovem que havia acabado de comprar meu livro disse que, com tudo o que estava acontecendo em minha vida, eu precisava fazer uma faculdade”. E assim Maris foi cursar Letras em Batatais (SP) em 2002.

Mesmo trabalhando com a faxina, não deu conta de pagar a mensalidade e, mais uma vez, teve que abandonar a sala de aula. Parou em 2003, mas uma amiga, a professora Adria Bezerra, reuniu um grupo de amigos para pagar a matrícula e dois meses de curso na Faculdade de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP).

De volta à universidade, veio a oportunidade do primeiro estágio, em um programa de bibliotecas de bairros da cidade. Atuando nos Campos Elíseos, bairro da zona Norte de Ribeirão, Maris começou a ter contato com os leitores e a desenvolver ideias de projetos culturais, mas as dificuldades permaneciam. “Eu não conseguia pagar as mensalidades da faculdade, meus amigos confiavam em mim e me emprestavam folhas de cheque em branco para eu negociar com a direção, foi mais um período difícil”. No final do curso, já longe da faxina, mais do que um diploma, Maris comemorou outra conquista. “Eu pude usar o meu próprio talão de cheques!”.

A Primeira Classe

Ainda na faculdade, Maris conseguiu um segundo estágio, ao ser selecionada pela Fundação de Amparo ao Preso. Foi dar aulas de Língua Portuguesa na penitenciária feminina de Ribeirão Preto. Sua primeira classe era formada por 20 detentas. Após dois anos, saiu de lá carregada de textos em sua homenagem. “Era um ambiente diferente, mas nunca tive medo de estar lá, eu preparava as detentas para serem professoras quando saíssem”.

Na mesma época, já conseguia algumas aulas de reforço na rede estadual de ensino e tinha uma rotina puxada: estágio na biblioteca pela manhã, aulas na penitenciária e em uma escola à tarde e faculdade à noite. Tudo isso tendo que cuidar, ainda, dos três filhos e da mãe com problemas de saúde. “Nada nunca foi fácil para mim, mas tive muita ajuda para não desistir”.

Agitadora Cultural

Inquieta, um dia Maris soube que o Estado estava selecionando projetos para serem implantados em salas de leitura de escolas. Foi de moto-táxi até a zona Leste de Ribeirão Preto e se apresentou. Ficou sete anos na escola Diva Tarlá, no bairro Ribeirão Verde, e fez uma revolução cultural no lugar. Levou escritores e jornalistas para encontros com os alunos, incentivou a leitura de todas as formas, organizou passeios de alunos em eventos culturais, como teatro e óperas.

O resultado disso tudo? “Ex-alunos daquela época me encontram e dizem o quanto eu fui importante na vida deles. Sou madrinha de casamento de alguns deles, um aluno formou-se ator, uma aluna vai concluir agora o curso de Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estas pessoas foram transformadas pela cultura e pela educação, como eu também me transformei”.

Ferramenta de Libertação

Para Maris, se o ato de ler transforma as pessoas, escrever é capaz de proporcionar a liberdade. “Quando eu percebo que algo não vai bem com algum aluno, eu dou a ele um caderno de capa dura e digo: quando você estiver triste, escreva neste caderno. E quando estive feliz, escreva também!”.
A professora diz que uma das suas missões é não deixar as pessoas desistirem de seus sonhos. “Eu não desisti dos meus. Quero tanto que os jovens corram atrás dos seus sonhos no seu tempo. Eu ainda quero conquistar o mundo aos 53 anos e, às vezes, a idade já não permite tanta coisa!”.

Hoje, a professora é procurada por muita gente que quer desenvolver projetos culturais. “E eu me envolvo muito, me entrego a cada projeto que entro”. Assim, lhe falta tempo para atender ao pedido dos amigos. “Todo mundo pergunta quando sai meu próximo livro. Tenho material para dois volumes, mas não sobra tempo para concretizá-los”.

Aos novos livros, somam-se ainda outros desejos de Maris Ester para o futuro próximo. “Neste ano pretendo iniciar um curso à distância de Pedagogia, conhecer outro país e finalmente tirar minha carteira de motorista”. Conhecendo a sua trajetória até aqui, alguém duvida que ela vá conseguir?

Por Angelo Davanço

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