Indústria 4.0, de era em era

Inteligencia Artificial: Oportunidade ou Ameaça?
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Para entendermos a Indústria 4.0 precisamos pensar no processo da Revolução Industrial. Voltamos no tempo, no século XVIII, quando foi criada a máquina a vapor e o tear mecânico. Período em que chamamos de 1ª Revolução Industrial. A partir daí, no século XIX, as fontes de energia tomaram a vez. Destaque para a energia elétrica e o uso de combustíveis de petróleo nos motores a combustão. No século seguinte, sobretudo a partir da década de 1970, ocorreu a 3ª Revolução. É aí que começa a aparecer com força a era eletrônica, o uso empresarial de computadores e da robótica no chão de fábrica. Hoje, já falamos na 4ª Revolução, que dá origem a essa chamada Indústria 4.0.

Segundo o coordenador do Núcleo de Estudos do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), que tem um trabalho desenvolvido para estudar a Indústria 4.0, Matheus Viana Machado, essa revolução é um modelo para o futuro. “A Indústria 4.0 chega com passos tímidos no Brasil. Seja pelo fato da grande crise de 2009 que assola o País, por termos a cultura de protelar e postergar investimentos em melhorias nas manufaturas ou por ainda não haver informação suficiente sobre o assunto”, diz.

Os números de um estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), ligada ao Ministério da Indústria e Comércio (MDIC), mostram que, em 2018, menos de 2% das indústrias brasileiras estavam inseridas nesse conceito e que esse número chegará a 15% em 10 anos. Mas Matheus acredita que essa porcentagem será maior. “Particularmente, penso que, daqui a uma década, já estaremos com mais de 40% das indústrias dentro desse novo contexto tecnológico”, afirma.

Corrida Contra o Tempo

Esse é um novo período de evolução para as empresas. Mas que não deve acontecer tão rápido, até mesmo pelo fato de que muitas indústrias sequer chegaram aos moldes da 3ª Revolução Industrial. Acontece que é uma corrida contra o tempo – quem não se encaixar pode ficar de fora do mercado, segundo Matheus. “Não é só o fato de as indústrias serem ou não inovadoras, terem ou não a cultura de adotar processos e tecnologias destrutivos. É, na realidade, um requisito de existência. Empresas que não enxergarem o fato de que a transformação digital exige a adoção de ferramentas ágeis, que proporcionem e gerem subsídios para tomadas de decisão rápidas e assertivas e que permitam apurar os custos com maior precisão, granularidade e rastreabilidade, correm o risco de desaparecerem. Temos vários exemplos de empresas que ignoraram os sinais do mercado e hoje já fazem parte da história, como a Kodak”, destaca.

“Não é só o fato de as indústrias serem ou não inovadoras, terem ou não a cultura de adotar processos e tecnologias destrutivos. É, na realidade, um requisito de existência”- Matheus Viana Machado, Coordenador do Núcleo de Estudos do Ciesp

Para Matheus, a indústria brasileira está correndo atrás do prejuízo. “Se em alguns setores somos avançados, como no bancário e no agronegócio, em outros, como na saúde, há um campo imenso a ser explorado. Há inovações, como as que já citei, mas falta uma coordenação por parte dos grandes atores, sejam eles públicos ou privados”, completa.

O coordenador do Núcleo de Estudos do Ciesp acredita ainda que o grupo de empresários também precisa entender a importância de olhar para o futuro com estratégia. “Tão importante quanto sobreviver no presente – um desafio que se impôs nos últimos anos devido à crise da economia brasileira – é pensar e desenhar o futuro. Ele precisa sair da operação e olhar estrategicamente para o seu negócio e a rede da qual participa. Olhando como nação, o Brasil precisa muito estimular o gosto de nossos estudantes pelas ciências exatas. A matemática e a estatística estão na base das inovações que surgem para a Indústria 4.0”, afirma Matheus.

O gerente de desenvolvimento econômico e tecnológico da Fundação Instituto Polo Avançado da Saúde (Fipase), Dalton Marques, concorda. Ele atribui a Indústria 4.0 como um período de evolução também para as empresas. “As aplicações dessa 4ª Revolução Industrial não se restringem à indústria. Os setores de serviços também são impactados. Pegue como exemplo o segmento de saúde. Nele, há duas vertentes. Uma é a das fábricas inteligentes, com os processos de fabricação de equipamentos e medicamentos cada dia mais automatizados. A outra vertente é a dos Hospitais Inteligentes, com o monitoramento contínuo dos pacientes”, explica.

Inteligencia Artificial: Oportunidade ou Ameaça?
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A estimativa é que no mundo já existam mais de 250 mil aplicativos de celular focados em saúde. As pessoas estão usando os smartphones, que já são quase uma extensão do corpo, também para cuidar da qualidade de vida. Outro dado interessante, de acordo com Dalton, é que, provavelmente, os equipamentos que não estiverem conectados, ou seja, que não conversem com sistemas de informação, vão desaparecer do mercado em cinco anos. Logo, as empresas que produzem equipamentos médicos precisarão desenvolver formas de deixá-los on-line, para que esses equipamentos estejam conectados, gerando dados que ajudarão na tomada de decisão. “No futuro, será possível para um gestor hospitalar responder, de pronto, perguntas do tipo: Quantos pacientes estão agora no hospital? Quais procedimentos estão sendo realizados? Quantos médicos e enfermeiras estão trabalhando? Há falta de algum medicamento? Algum equipamento está quebrado?”, destaca.

Em Ribeirão Preto, o Supera Parque, em parceria entre a Fipase, a Universidade de São Paulo (USP), a Prefeitura Municipal e a Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, existe para estimular o desenvolvimento tecnológico. O espaço contribui para que inovações surjam, muitas delas, dentro do contexto da Indústria 4.0, por meio de mentorias e eventos. “Colocamos as empresas em contato com especialistas que vão ampliar seu horizonte. Também auxiliamos nossas empresas a elaborarem projetos para captação de recursos junto a órgãos de fomento, sendo que a Indústria 4.0 tem sido um tema recorrente nos editais”, explica o gerente de desenvolvimento econômico e tecnológico da Fipase.

“A pessoa tem que procurar um rumo ou uma alternativa para criar alguma demanda de serviço que só ela consiga fazer e a máquina não” Matheus Viana Machado, Coordenador do Núcleo de Estudos do Ciesp

Já existem inúmeras empresas no Parque Tecnológico utilizando-se dessas tecnologias para trazer soluções inovadoras. “Como exemplo, temos a plataforma Carefy, que faz a gestão e o monitoramento de internações, com sinalização de inconformidades que auxiliam na tomada de decisão. Desta forma, há benefícios como a redução de custos para operadoras de saúde e melhora do atendimento do paciente”, acrescenta Dalton.

Se Preparar para a Indústria 4.0

O primeiro passo é, sem dúvida, olhar para os processos da empresa e ter interesse em buscar as soluções que já entregam valor no mercado. “No tocante aos processos, existem muitas consultorias, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), por exemplo, que avaliam o workflow e ajudam a montar um plano de implementação que, geralmente, começa pela adoção do Lean Manufacturing, dentre outras metodologias que estão bastante consolidadas”, explica Dalton.

Para Matheus, em primeiro lugar, é precisar estar atento às tecnologias que surgem e às mudanças de hábito dos clientes, sejam eles empresariais ou consumidores finais. Em segundo lugar, aprender a trabalhar com dados. “Estima-se que em 2020 haverá no mundo 40 trilhões de gigabytes de informação. As empresas têm que ser capazes de coletar e transformar tantos dados em inteligência de negócios”, diz. Em terceiro lugar, conectar-se, no sentido de estabelecer conexões com pesquisadores e outras empresas. “É mais fácil inovar quando se participa de redes”, completa.

Ameaça para os Empregados?

A pergunta que alguns profissionais podem fazer é: O meu emprego está ameaçado pela Indústria 4.0? Para Matheus, a resposta é “depende”. Ele explica que tudo vai depender do perfil do profissional. “A questão de quem vai desaparecer ou não ou quem vai perder emprego ou não continua sendo, infelizmente, de responsabilidade do próprio profissional. É ele que não pode ficar acomodado, que não pode deixar o beijo da morte beijá-lo”.

Por isso, ele não acredita que exista uma ameaça tão gritante com a chegada da Indústria 4.0. Para ele, a maioria das profissões menos tecnológicas tende a desaparecer naturalmente. Ele dá o exemplo do datilógrafista: “é uma profissão que não existe mais, isso por conta da tecnologia. Então, na minha opinião, não é que a Indústria 4.0 vai tirar empregos, o que acontece é que muitos empregos que não são baseados em tecnologia vão naturalmente deixar de existir, eles serão atualizados e os profissionais dessas áreas também precisarão se atualizar”, diz.

Para entender esse contexto, pode-se usar o exemplo de uma tecnologia que se falou bastante no ano passado: a inteligência artificial. Muito se especulou que ela iria substituir os advogados. “Existem robôs que já conseguem fazer sozinhos o trabalho de mais de 20 advogados na avaliação de riscos, na criação de peças e petições, mas o nível de acuracidade deles deve chegar no máximo a 70% ou 80%. Nada substitui o ser humano, o feeling, a percepção que temos, a máquina não consegue aprender isso”, explica Matheus.

Com esse exemplo, Matheus conclui que a inteligência artificial, com toda sua tecnologia, não oferece risco para os advogados que precisam ter essa apuração humana, mas por outro lado essa inovação pode ajudar e muito esse nicho de profissionais. “O que eu vejo como melhoria é que a tecnologia chega para diminuir o trabalho repetitivo, não só o braçal, mas até o trabalho analítico de que um advogado precise ficar por muito tempo analisando folha de ponto de um funcionário, analisando ponto a ponto o que ele fez, que é uma coisa extenuante, super cansativa, e uma máquina consegue fazer isso com muita galhardia, consegue ligar os pontos e fazer a defesa pelo menos no nível técnico com bastante assertividade”.

Ele ainda acrescenta que, em outros níveis de trabalho, várias tecnologias chegam para revolucionar, mas não tirar o emprego. Na visão de Matheus, o Uber, por exemplo, não chegou para tirar o trabalho do taxista, mas para ser uma alternativa numa grande demanda de emprego, numa crise, em que muitos profissionais estavam desempregados e havendo a demanda também de qualidade no atendimento ao transporte. “O Uber uniu a fome com a vontade de comer, ele uniu pessoas que tinham carro e precisavam de renda com pessoas que precisavam de um serviço de transporte mais rápido”, afirma.

Matheus consegue relacionar também essa questão do emprego com a situação tecnológica que vivemos com alguns aplicativos, como aqueles que fazem delivery de comida. “Muitos foram criados. Aí um surgia com o diferencial de mostrar onde a moto que ia fazer a entrega estava, até que todos se atualizaram para isso, então na questão do emprego vai ser o mesmo caminho. Vai chegar uma coisa que vai ser dita revolucionária, mas logo já vira senso comum”.

Por enquanto, a dica do coordenador do Núcleo de Estudos do Ciesp é procurar alternativas para levar a tecnologia como sua aliada e não sua concorrente. “A pessoa tem que procurar um rumo ou uma alternativa para criar alguma demanda de serviço que só ela consiga fazer e a máquina não, pelo menos até o momento em que a máquina não aprenda. Eu não vejo isso como uma ameaça, não sei se é porque eu gosto de inovação e a vejo como uma aliada na vida. Talvez outras pessoas possam ser mais pessimistas, mas eu tenho um pensamento mais animador, a tecnologia chega para agregar, sempre tem algumas exceções, mas a grande regra, na minha opinião, é que a Indústria 4.0 chega para ajudar”, conclui Matheus.

“O Uber uniu a fome com a vontade de comer, ele uniu pessoas que tinham carro e precisavam de renda com pessoas que precisavam de um serviço de transporte mais rápido” – Matheus Viana Machado, Coordenador do Núcleo de Estudos do Ciesp

Inteligencia Artificial: Oportunidade ou Ameaça?
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Impacto da Indústria 4.0 na Economia

A implementação da Indústria 4.0 permite a redução de gastos e o aumento da eficiência na produtividade. A ABDI estima que a adoção de conceitos da Indústria 4.0 gere uma economia de R$ 73 bilhões ao ano no mercado brasileiro. Isso se deve à redução de R$ 35 bilhões em custo de manutenção, R$ 7 bilhões com economia de energia e R$ 31 bilhões de ganhos pela eficiência produtiva.

A Internet Industrial e a Indústria 4.0 criam também enormes oportunidades para empreendedores que atuam na área de tecnologia, talvez como nunca antes na história da humanidade. Alex Lima, que trabalha com tecnologia da informação e comunicação, diz que isso se deve principalmente pelo fato do déficit que temos de modo geral no nosso parque industrial no Brasil. “Temos um longo caminho a percorrer, ainda precisamos melhorar nossa infraestrutura de comunicação, baratear estes custos, estudar e internalizar essas tecnologias em nossos processos produtivos. Para que isso ocorra, parcerias são fundamentais. Inclusive, fazendo um paralelo, colaboração é uma das palavras-chave da inevitável Indústria 4.0”, diz.

Ele ainda explica que tem visto muitas pessoas em busca do conhecimento, estudando o assunto e até realizando encontros para obtenção de informações, além dos movimentos que estão ocorrendo sobre o tema. Mas, para Alex, esse ainda é um sistema novo. “Apesar do conceito ter surgido por volta de 2011, na Alemanha, devido a sua ampla abrangência e tecnologias embarcadas, ainda hoje não temos uma Indústria 4.0 totalmente implantada. O que temos são ações de preparação e implantação de um ou outro conceito que envolve o tema”, completa.

Alex diz ainda que, quando falamos de Indústria 4.0, é preciso ter em mente a necessidade de uma excelente infraestrutura para suportar as tecnologias que estão ligadas a ela. É neste ponto que geralmente aparecem as maiores dificuldades no Brasil. Seja pelo custo da tecnologia em questão, pela baixa mão de obra qualificada ou ainda por desconhecimento do conceito de modo geral que as empresas se deparam com os maiores obstáculos.

“Acredito que uma base sólida vem do conhecimento. Precisamos de muitos estudos, grupos, workshops e do meio acadêmico também para entendermos melhor como tecnologias, por exemplo, internet das coisas (IOT), realidade virtual e aumentada, big data, robotização, impressão 3D e outras se conectarão em nossas plantas industriais, em nossas empresas de qualquer segmento, até mesmo em nossas casas – fazendo assim parte de nossa vida. Necessitaremos também de formas de fomento para a atualização do parque industrial do Brasil. Com estes pontos de atenção bem cuidados, temos grande chance de sucesso”, finaliza.

Da Redação

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