Não vá se Perder em Meio a tanta Informação

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Com cada vez mais e mais canais de acesso a notícias e informações sobre todos os assuntos, é preciso tomar cuidado para não comprometer a sua produtividade

“Você se senta ao computador para trabalhar. Cinco minutos depois, você está no quinto vídeo de bebês falantes no YouTube. O que aconteceu? Você não tem autocontrole? Desculpe, mas autocontrole não tem nada a ver com isso. Não quando o vídeo foi feito mais atraente, de propósito, pelo uso de imagens subliminares para capturar sua atenção (…) Você ficaria surpreso de saber que o conteúdo do vídeo foi desenvolvido a partir das expressões mais usadas em mecanismos de busca? (…) Não é de admirar que você não consiga trabalhar. Eles não deixam.”

Este trecho faz parte do livro “Acredite, estou mentindo. Confissões de um manipulador das mídias”, de Ryan Holiday, que revela como funciona o esquema de publicações on-line em que muita gente ganha dinheiro graças a nós, os leitores. Ele também serve para iniciarmos uma discussão sobre como o excesso de informação que consumimos pode afetar nossa produtividade.

“O excesso de informação é uma realidade nos dias de hoje. Somos bombardeados o tempo todo e não tem muito como fugir disso. Claro que não é algo de todo ruim, mas existem diversos estudos sobre a chamada information overload, ou sobrecarga de informação”, diz Juliana Sales, 34 anos, uma engenheira ambiental especialista em gestão da qualidade que, desde 2017, comanda o blog Produtiva Mente, que surgiu de maneira curiosa. “O blog surgiu meio que como um hobby. Sempre fui uma pessoa organizada e foi durante a faculdade que percebi que precisaria organizar muito bem o meu tempo e minhas tarefas para dar conta de tudo o que eu tinha para fazer. Ao entrar para o mercado de trabalho essa necessidade só se intensificou e mais ainda quando comecei a trabalhar como autônoma. Sempre recebi comentários de chefes, colegas de trabalho e clientes, de como eu era organizada, não perdia prazos e tinha todas as informações necessárias sempre à mão. Meus amigos começaram a me pedir conselhos sobre o assunto. Então, em 2017, surgiu o blog, um espaço onde eu compartilho o que sei e o que aprendo no dia a dia sobre organização, produtividade e administração do tempo”, conta Juliana.

Precisamos mesmo Saber de Tudo?

A não ser que você trabalhe com algo que o obrigue a estar por dentro de tudo o que acontece ao seu redor, será que é realmente necessário buscar tanta informação? Durante quase dez anos, o ilustrador e artista gráfico Renato Andrade, 54 anos, teve que desenhar uma charge dia sim, dia não, para um jornal impresso. “Ficar por dentro de tudo o que acontecia era uma fonte para o meu trabalho. Eu chegava a assistir três telejornais todas as noites, para saber o que estava acontecendo, especialmente na política e na economia, para depois fazer minhas charges”, lembra Renato. Longe das ilustrações quase que diárias há quase seis meses, quando o jornal onde trabalhava encerrou suas atividades, hoje ele percebe que exagerava. “No final das contas, as informações eram sempre as mesmas em cada um dos telejornais que assistia. Era a mesma notícia, o mesmo enfoque, uma coisa até chata”, reconhece. Com outra rotina de trabalho pela frente, o ilustrador acredita que a busca incessante de notícias atrapalha. “Hoje, busco mais informações em filmes e documentários do que nos noticiários como fonte para o meu trabalho”, diz.

Mas, mesmo entre aqueles que não dependem tanto de informações veiculadas pela mídia, pode existir uma tendência a querer ficar por dentro de todos os assuntos e não fazer feio na rodinha de conversa na hora do cafezinho na firma. “Existe um termo em inglês para essa necessidade que sentimos de saber tudo: F.O.M.O. (Fear Of Missing Out). Essa expressão pode ser traduzida como ‘medo de perder’. É aquele incômodo que sentimos quando as pessoas estão comentando sobre um assunto do qual nós não sabemos nada. É a preocupação de não ficar sabendo sobre algo que aconteceu, sobre o livro novo que foi lançado, sobre a nova descoberta científica e até sobre a fofoca mais recente dos famosos ou sobre o que seus amigos andam publicando nas redes sociais”, explica Juliana Sales.

E neste ponto entra outra questão: o risco de consumirmos informação irreal, as famosas fake news. “O que se vê muito hoje é o sujeito que tem um conhecimento superficial, ele se informa por pílulas e pode acabar sendo vítima de notícias falsas. Para que isso não ocorra, é preciso uma preocupação em selecionar fontes confiáveis antes de validar, legitimar e propagar informações”, aconselha a professora Naiá Sadi Câmara, dos cursos de comunicação social da Unifacef, em Franca-SP, e da Unaerp, em Ribeirão Preto-SP.
“O ponto é justamente entendermos que não precisamos de fato saber de tudo e que isso não quer dizer que ficaremos desinformados. Precisamos aprender o que é realmente importante, qual informação é útil ou relevante e o que não faz diferença nenhuma se nós soubermos ou não”, finaliza Juliana.

Limite as Buscas

Mas não são apenas as “armadilhas” criadas pelos produtores de conteúdo na internet que podem “roubar” o seu tempo. Você pode, mesmo de posse de informações muito importantes para o seu trabalho, se perder em meio a tantos dados simplesmente pela falta de planejamento.

Veja este exemplo: Você precisa fazer um orçamento qualquer para o seu chefe. Ele lhe dá o prazo até o fim do dia. Você começa a pesquisar na internet, fazer algumas ligações, pedir indicações. Ao final do dia você tem uma lista com 20 possíveis opções de fornecedores, mas ainda não finalizou o orçamento, porque passou a maior parte do dia pesquisando. Você não consegue responder ao seu chefe sequer uma estimativa de custo, porque você apenas juntou várias informações, mas não as analisou. “Dá para perceber que a tarefa principal (definir o orçamento) foi adiada porque você gastou seu tempo apenas pesquisando? No fim, o excesso de informação (quantidade de fornecedores) acabou prejudicando a sua produtividade, porque você não realizou a tarefa principal”, avalia a engenheira.

Então, como trabalhar da maneira correta numa situação semelhante? “O primeiro passo é ter essa percepção, de que você está gastando mais tempo que o necessário em busca de informações. Devemos filtrar que tipo de informação é realmente útil e importante. O porém é que, mesmo quando a informação é de fato necessária, ainda podemos nos perder por consultar inúmeras fontes, umas atrás das outras, incessantemente”, alerta Juliana. Ou seja, de nada adianta abrir dez abas no navegador de seu computador se apenas as duas primeiras são, de fato, úteis para o seu trabalho.

Algumas dicas práticas para não comprometer sua produtividade:

• Controle a informação que chega até você. avalie quanto tempo você gasta acessando redes sociais, lendo e-mails e visitando sites de notícias, por exemplo;

• Priorize o que é relevante. Você precisa mesmo acessar cinco sites de notícias? Assistir todos os stories no Instagram? Clicar em todos os links quando faz uma pesquisa no Google?;

• Limite o acesso à informação. Escolha o site de notícias mais completo e fundamentado. Quando for fazer alguma pesquisa selecione um número pré- -determinado de fontes de informação que sejam confiáveis.

Fonte: Juliana Sales

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Como saber se estou consumindo conteúdo demais e o que fazer?

O primeiro sinal de alerta de que você está passando de seu limite na busca por informações é o cansaço mental. Você se sente estressado com a quantidade de informação com a qual tem que lidar e, com isso, vem a dificuldade de se concentrar, em manter o foco, de se lembrar das coisas e até mesmo de aprender e assimilar o conhecimento. “Embora nunca o homem tenha tido tanta oportunidade de se manter informado, temos que questionar até que ponto esta informação está se transformando em conhecimento. Vivemos um paradoxo. Por um lado, a possibilidade de consumir conteúdo do mundo todo. Por outro a capacidade limitada de assimilar isso. A diferença entre concentração e dispersão”, diz a professora Naiá Sadi Câmara.

Exposto a esta oferta em massa de informações, você pode acabar passando mais tempo pesquisando do que agindo e trabalhando de fato nas suas tarefas e projetos. Se você chegou a esta situação, em que não consegue cumprir seus prazos porque está o tempo todo checando as novas publicações nas redes sociais, verificando suas mensagens instantâneas e e-mails, acessando sites de notícias, nem tudo está perdido. O primeiro passo a ser dado é assumir este comportamento e perceber como ele o está atrapalhando. Depois disso, é preciso agir contra o problema. “Defina um momento específico do dia para acessar suas redes sociais e limite o tempo que gasta com isso. Faça o mesmo com suas mensagens, e-mails, sites de notícias, blogs. Quando precisar fazer alguma pesquisa estabeleça a quantidade máxima de fontes que irá consultar e quanto tempo gastará com isso. A informação está aí, claro, e cada vez mais e mais conteúdo é produzido e disponibilizado, e temos fácil acesso a isso. Mas a informação não nos obriga a consumi-la. Consumimos porque queremos. Então essa situação do excesso de informação só existe porque não sabemos lidar com isso de forma adequada”, aconselha Juliana Sales.

Veja quais fatores podem levar à busca intensa de informações:

• Hábito. Você senta no computador e a primeira coisa que faz é abrir seu e-mail ou um site de notícias? Ou acorda e já vai logo pegando o celular para ver as notificações? Observe que antes que seu dia comece de fato, você já está acessando novas informações;

• Medo de ficar desinformado. Ficamos incomodados se não sabemos o que se passa no mundo ou se não temos conhecimento de algum assunto que todos estão comentando;

• Medo de perder alguma oportunidade. Estamos sempre preocupados em deixar passar algum curso, algum livro, alguma indicação. Não queremos perder nenhuma chance;

• Vontade de saber tudo sobre algum tema específico. Quando estamos aprendendo algo novo ou quando existe algum assunto que nos interessa muito, temos a tendência a querer consumir o máximo possível sobre aquilo. O problema é que as vezes passamos mais tempo pesquisando e lendo superficialmente artigos, livros, apostilas do que realmente aprendendo e se aprofundando no assunto.
Fonte: Blog Produtiva Mente

Por Angelo Davanço