Uma Lição de Vida do outro lado do Atlântico

Mario Angelo
Dr Mário Ângelo Cenedezi Júnior – foto Rafael Cautella

Médico de Ribeirão Preto (SP) atendeu ao chamado do programa Voluntários sem Fronteiras para prestar socorro às vítimas de ciclone que devastou Moçambique. Voltou de lá com a vontade de tentar ser sempre uma pessoa melhor

Era o dia 14 de março de 2019. Notícias começavam a aparecer aqui e ali, na Internet e nos noticiários da TV. O ciclone Idai, com ventos de até 150 quilômetros por hora, havia “varrido” países como Madagascar, Malavi, Zimbábue e Moçambique, no continente africano. A devastação contabilizou mais de mil mortes e deixou milhares de feridos e desabrigados.

Poucos dias depois, a mais de 9.200 km de distância, um médico de Ribeirão Preto (SP) recebeu uma convocação do programa Voluntários sem Fronteiras, da Junta de Missões Mundiais da Igreja Batista brasileira. E lá foi o doutor Mario Angelo Cenedezi Júnior, 28 anos, iniciar sua história de solidariedade do outro lado do oceano Atlântico.

Ele fez parte de uma equipe de 11 pessoas de várias regiões do Brasil que, além de médicos, possuía farmacêuticos, enfermeiros, psicólogos e até um coronel do Corpo de Bombeiros.

Durante cinco dias, Mario Angelo e equipe atenderam perto de 3 mil pessoas, nas localidades de Dondo, Mafambisse, Mutua, Savane e Nhamatanda. “Foi a região mais atingida pelo ciclone em Moçambique. Encontramos um povo extremamente necessitado. O pouco que tinham, acabaram de perder”, relembra o médico. Na África, os Voluntários sem Fronteiras se juntaram a outras equipes de ajuda humanitária, com os Médicos sem Fronteiras, Cooperações Portuguesa e Espanhola, Organização das Nações Unidas, Unicef, Cruz Vermelha Internacional e Força Aérea Brasileira.

Mario Angelo
Dr Mário durante atendimento em Moçambique – foto arquivo pessoal

“A gente deixa de se preocupar se o sapato combina com a roupa quando conhece pessoas sem sapato e sem roupa”

Antes desta viagem, a única experiência de ajuda voluntária de Mario Angelo havia sido em 2016, quando ainda era estudante de Medicina no Centro Universitário Barão de Mauá e passou uma semana em Santa Cruz Cabrália, no interior baiano, participando do programa Voluntários do Sertão. “Mas foi completamente diferente. Na Bahia, atendemos uma população carente, é verdade, mas não em emergência ou calamidade. Em Moçambique, nos deparamos com muitos doentes, com surtos de cólera, de malária. E foi desafiador desde o início, uma vez que não sabíamos o que iríamos encontrar lá, qual a estrutura que teríamos. Chegamos a atender sob árvores, no meio das aldeias. Fizemos busca ativa por pacientes no meio do mato. Em Savane, atendemos 400 pessoas em meio a uma igreja destruída pelo ciclone”, diz.

Para viver uma experiência dessas, não se pode ter medo

Após sua passagem por Moçambique, para atendimento às vítimas do ciclone Idai, o doutor Mario Angelo Cenedezi Júnior aconselha os profissionais de saúde que possam vir a ter experiências semelhantes: “Você precisa se entregar de corpo e alma e ir sem medo de encontrar gente doente de verdade. É preciso ir de coração aberto para ajudar quem quer que seja, sem ter nojo das pessoas. Estas são as questões humanas. No que diz respeito ao aspecto profissional, é preciso estar muito seguro do que você sabe, pois são poucas informações disponíveis, medicamentos sem bulas, não existem livros de apoio. É preciso ter uma formação sólida, uma grande capacidade de improviso e a disponibilidade de trabalhar em equipe.”

Viagem às escuras

Quando recebeu o chamado para partir para Moçambique, Mario Angelo se viu diante de vários pontos de interrogação. Eram poucas as informações que chegavam do lugar onde ele estaria dali a alguns dias. “Uma missionária moçambicana nos enviava algumas informações, mas muito poucas, uma vez que a internet foi afetada por lá. Por ser uma nação pobre, não havia toda a questão midiática em cima, diferente, por exemplo, da cobertura que foi dada ao incêndio na Catedral de Notre-Dame, em Paris, apenas um dia após a passagem do ciclone”, compara.

O médico, que custeou sua viagem e contou com a ajuda da família e de doações para levar medicamentos, partiu do Brasil em direção à África do Sul, para depois seguir para Moçambique. Ele diz que a ficha realmente caiu quando o avião se preparava para pousar em seu destino. “Da janela do avião pude observar grandes áreas alagadas, mesmo algumas semanas após a passagem do ciclone. Ali tive a noção de que realmente aquele povo precisava de ajuda”, diz.

A imagem Símbolo da Viagem, garoto quase morto por desidratação – foto arquivo pessoal

Dos atendimentos que fez no continente africano, um em especial o doutor Mario Angelo guarda na memória. “Nos chegou um menino de uns 5, 6 anos, praticamente morto por desidratação. Fazia quatro dias que ele não comia ou bebia nada, antes de ser levado para barracas da ONU. Lá há uma cultura de que os adultos se alimentam antes das crianças, então ele estava em uma situação bastante precária. Mas bastou administrar um litro de soro, metade pela veia e metade por via oral, para ele se reanimar e ir embora dando tchau para a nossa equipe. Para mim, esta é a imagem símbolo de minha viagem”, garante.

Lições de vida

E o que mudou após esta experiência? “Minha visão da medicina não mudou muito, pois me identifico, desde sempre, com a questão da saúde pública, humanitária. Sou um militante em defesa do SUS (Sistema Único de Saúde) e acredito no conceito de saúde para todos, independente das condições econômicas, cor da pele, local onde mora. Toda esta experiência veio de encontro ao que eu penso sobre a questão da saúde. Mas o que muda, realmente, é a nossa visão como ser humano. A gente deixa de ser ingrato, de ser mesquinho, de se preocupar com coisas tolas, para tentar ser uma pessoa melhor, com mais empatia.

Entendemos que o nosso trabalho no mundo deve ser este, o de fazer com que as pessoas tenham uma vida melhor”, relata.

E você acha que o desejo de ajudar do médico para por aí? Em novembro ele pretende partir em nova missão pelos Voluntários sem Fronteira, desta vez acompanhado da mulher e da mãe. “Devemos nos unir a outros voluntários para prestar ajuda em saúde e educação junto aos refugiados de guerra no Iraque”, planeja Mario Angelo.

Por Angelo Davanço

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