O Admirável Mundo Novo de Heaven Delhaye

Heaven Delhaye – foto Rio Art Com

Chef carioca conta como a experiência de ter sido criada em uma comunidade fechada lhe abriu as possibilidades de um mundo totalmente novo, especialmente na cozinha

Imagine você, ainda criança, vivendo em uma comunidade religiosa sem luxo algum, em que tudo é dividido, das roupas aos brinquedos, e em que todos os pequenos se tratam como irmãos? Assim foi a infância da chef Heaven Delhaye (leia “delé”), até os nove anos de idade, em Petrópolis (RJ) e em outras cidades brasileiras. Um dos destaques da edição 2018 do programa MasterChef Profissionais, da Band, ela conta que este início de vida, no mínimo curioso, influenciou no modo como encara os desafios. “Vivíamos de uma forma muito diferente, a gente era retirado do mundo, havia nossas próprias músicas, nossos próprios livros, filmes, não participávamos do mundo como a maioria das pessoas conhece. Então, uma vez que eu saí deste grupo e vi um mundo tão diferente do que eu conhecia, isso me levou, desde muito cedo, a questionar, procurar, estudar e criar uma maneira muito minha de enxergar todos os desafios, por ter visto duas realidades tão diferentes logo cedo na minha vida”, explica.

Conhecido como “A Família”, o grupo religioso surgiu no final dos anos sessenta, época do flower power e da contracultura, nos Estados Unidos, e logo se espalhou pelo mundo. O pai de Heaven é português, a mãe é francesa, e os dois sempre buscaram um outro sentido para a vida após os horrores sofridos pelo continente europeu no pós-guerra. Daí a entrada na comunidade e a vinda para o Brasil, onde a chef nasceu, há 34 anos. Mas quando um dos três irmãos mais velhos cansou de viver em comunidade, aos 14 anos, e abandonou o grupo, os pais também decidiram partir para manter o núcleo familiar. Como ninguém tinha nada que fosse seu, só foram levadas as roupas do corpo e 50 dólares.

Casal e quatro filhos se instalaram em Joinville (SC), onde o pai começou a dar aulas de inglês e a mãe, a cozinhar. Foi aí que tudo teve início para a futura chef. “Minhas primeiras memórias da minha mãe são dela cozinhando. Dentro desse grupo religioso ela era a chef, ela direcionava a cozinha, fazia comida para todo mundo. Ela já tinha muita experiência, inclusive na França. Então, quando a gente saiu desse grupo e meus pais decidiram abrir um pequeno bistrô, a gente carregou isso, de estar a família toda lá trabalhando, e é algo que a gente leva até hoje em dia, com o Chez Heaven (restaurante da chef no Rio de Janeiro). A ideia foi resgatar essa nossa história”, diz.

E tudo era novo para uma menina que, até então, não tinha contato com o mundo exterior. “Aos 11 anos comecei a frequentar aulas em escolas comuns, mas eu ia para a escola e ficava pensando sobre o pequeno restaurante da minha mãe, sobre o que a gente estava fazendo, sobre os sabores, as combinações, os novos produtos que eu finalmente tinha acesso, porque dentro da comunidade onde a gente morava, era tudo muito restrito, muito simples, então este contato que eu comecei a ter, por meio da gastronomia, foi algo que realmente abriu muito meus olhos e é algo que desde criança me emociona muito”, lembra.

Heaven Delhaye – foto Rio Art Com

“Com o MasterChef aprendi a ter mais controle sobre mim, a confiar mais em mim mesma, aprendi testando os meus limites e conquistei um carinho do público que me surpreendeu bastante”

Pelas cozinhas da Europa

Após as primeiras experiências culinárias ao lado da mãe, aos 17 anos, Heaven partiu para voos mais altos na Europa. Viveu com tias no norte da França e com a avó em Portugal. Segundo ela, foi um divisor de águas, pela quantidade de informações, das novas maneiras de trabalhar, dos novos produtos que conheceu. “A Europa é sempre muito importante para um jovem chef, para abrir seus olhos ao mundo. A culinária europeia é algo absurdo, fora do comum, algo que as pessoas levam muito a sério, então poder ver isso, poder trabalhar nestas cozinhas, que são muito organizadas, realmente entender a teoria, a prática, todo o conceito que envolve, foi muito importante para o meu desenvolvimento como chef”, avalia.

Mas não pense que a jovem Heaven teve vida fácil nas cozinhas do Velho Mundo. “Um chef é feito na cozinha, você pode ter todos os cursos que for, mas você só será um chef em uma cozinha profissional, batalhando, trabalhando de 12 a, às vezes, mais horas por dia. Isso eu sempre fiz, desde muito jovem, e na Europa levei ao extremo. Ficava quase todos os dias, nos dois turnos, no restaurante. Foi uma época em que aprendi muito”, recorda.

Heaven Delhaye – foto Rio Art Com

E a rotina que ela teve serve de conselho para quem quer entrar no mundo da culinária. Segundo Heaven, é preciso trabalhar duro. “Um chef só se forma realmente trabalhando muito, com muita paixão, muita dedicação, muito empenho, muita curiosidade. E é preciso estar dentro de uma cozinha profissional. Existe uma glamourização da cozinha, que não é real. Na cozinha são longas horas em pé, é estressante, é cansativo, é quente, tem cliente que às vezes entende seu conceito, às vezes não, ou às vezes vão te pedir para fazer uma coisa que você não concorda e você tem que lembrar que está fazendo comida para o público, não para si próprio, então, realmente é um trabalho que exige muita paixão, muita dedicação”, aconselha, sem antes fazer um alerta bem-humorado: “Antes de se meter nisso, tenha certeza que este mundo de malucos é realmente apropriado para você, e se for, seja bem-vindo, porque somos um bando de loucos, mas a gente ama muito o que faz!”

Por Angelo Davanço

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