Ensino Quadro a Quadro


Professor utiliza charges, caricaturas, histórias em quadrinhos e fanzines para ensinar seus alunos em Ribeirão Preto (SP)

Professor Arnaldo – foto Rafael Cautella

Sabe aquelas aulas em que você tem que escrever no caderno milhares de palavras copiadas do quadro negro? Pois bem, com o professor Arnaldo não é nada disso o que acontece. Aos 39 anos, Arnaldo Martinez de Bacco Neto usa e abusa das histórias em quadrinhos, das charges, das caricaturas e dos fanzines em sala de aula.

Formado em Administração de Empresas, História e Pedagogia, pós-graduado em História Cultural, Psicopedagogia e Docência do Ensino Superior, e doutorando em Educação, Arnaldo é professor universitário, dá aulas no ensino médio na rede privada e atua como coordenador pedagógico na rede estadual de ensino. E ainda encontra tempo para produzir zines e participar de atividades culturais ligadas aos quadrinhos e à literatura, como os trabalhos desenvolvidos pelo Coletivo Z, pelo selo RP HQ e o projeto Recortando Palavras, dentro da programação da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.

O que é um fanzine?

Fanzines, ou simplesmente zines, são publicações que se utilizam de materiais de baixo custo, como papel sulfite, tesoura e cola, para a expressão de ideias e divulgação de trabalhos autorais, como histórias em quadrinhos, textos e colagens. Depois de montado, o zine geralmente é fotocopiado e distribuído aos seus públicos de interesse.


“Como educador, eu acredito na potencialidade do aluno em buscar o conhecimento de modo prazeroso, mas bem fundamentado e mediado pelo professor”

Professor Arnaldo – foto Rafael Cautella

Na entrevista a seguir, o professor Arnaldo Neto fala sobre como começou a utilizar estes recursos em sala de aula e como a produção de histórias em quadrinhos e fanzines atua na transformação dos alunos em protagonistas nos processos educativos.

Empreende: Como foram suas primeiras experiências com histórias em quadrinhos em sala de aula?
Arnaldo: Eu desenho desde criança e desenhava muito em sala de aula. Meus cadernos eram cheios de ilustrações e isso me ajudava muito a lembrar dos conteúdos na hora das avaliações. Era uma forma de aprender por associação. Quando comecei a lecionar, senti a necessidade de fazer algo diferente, que prendesse a atenção dos alunos, e assim comecei a ilustrar minhas aulas com charges e desenhos. Percebi que os alunos não apenas gostavam, mas também reproduziam em seus cadernos. Foi então que resolvi juntar a minha experiência enquanto aluno, com as ilustrações que eu já estava desenvolvendo na lousa e a criatividade que emergia dos alunos. Assim foi surgindo, aos poucos, a metodologia que utilizo hoje em sala de aula. Como educador, eu acredito na potencialidade do aluno em buscar o conhecimento de modo prazeroso, mas bem fundamentado e mediado pelo professor. Não se trata de modo algum de abrir mão do conteúdo, mas abordá-lo com outra linguagem, usando os quadrinhos e zines como ferramenta pedagógica. De forma lúdica, o aluno aprende como se estivesse brincando.

Empreende: Como você avalia a participação dos alunos neste tipo de atividade?
Arnaldo: Quando o aluno aprende de modo passivo, apenas como receptor, este conhecimento rapidamente vai se apagando na sua mente. Porém, quando o aluno se envolve ativamente no aprendizado, por meio de uma atividade artística e até mesmo literária, porque ele também produz textos enquanto faz quadrinhos, este conhecimento permanece. Para fazer quadrinhos ou mesmo um zine, que aparentemente é um momento de diversão na sala de aula, o aluno precisa buscar informações em livros, revistas, sites confiáveis, enfim, precisa fazer uma boa pesquisa. Este envolvimento promove, certamente, um ganho qualitativo no aprendizado.

Empreende: As direções das escolas costumam ser abertas a este tipo de proposta?
Arnaldo: No início, confesso que tive um pouco de receio. Mas a seriedade desta metodologia e os resultados por ela obtidos não só contribuíram para a aceitação, como se reverteram em apoio, tanto por parte do corpo gestor, quanto pelas famílias dos alunos e, claro, principalmente pelos alunos. No momento em que estou atuando na coordenação pedagógica de uma escola da rede pública, a Escola Estadual Alcides Corrêa, com aproximadamente mil alunos, e com apoio da direção e da equipe gestora da escola, além da colaboração dos professores, tenho conseguido ampliar essa metodologia para outras disciplinas.

Empreende: Como você usa os fanzines em sala de aula?
Arnaldo: Na minha arte, quadrinhos e zines andam juntos, até porque eu uso os zines como um meio de publicação dos meus quadrinhos. Então, quando eu trabalho quadrinhos na sala de aula, consequentemente trabalho zines também. O zine acaba se transformando numa atividade multidisciplinar, trabalhando Ciências Humanas, por conta das temáticas utilizadas nos materiais produzidos; Linguagens, na produção dos textos, poesias, frases de efeito, colagens e ilustrações; Ciências da Natureza, no auxílio dos conteúdos e Ciências Matemáticas, na paginação, na utilização das margens e na diagramação das páginas.

Empreende: Quais as principais características do fanzine como instrumento pedagógico?
Arnaldo: Além de ser um instrumento multidisciplinar e de ajudar a desenvolver a criatividade do aluno, o maior ganho do seu uso na sala de aula é o desenvolvimento das relações interpessoais. A elaboração do zine é uma atividade coletiva, na qual cada aluno tem a oportunidade de expressar suas ideias. Na prática é assim: um faz a colagem, outro faz o roteiro, outro cria uma história em quadrinhos, e no final todo mundo comunica e todo mundo compartilha. Como eu sempre digo, o adolescente não quer apenas ouvir, ele também quer ser ouvido e a expressão por meio da arte-educação permite que o aluno seja o protagonista. Os zines e os quadrinhos, por seu envolvimento com a imagem, a arte e a palavra, abrem caminho para outros recursos, como a elaboração de cordéis temáticos. Além disso, também uso como recursos pedagógicos, batalhas de rimas e vídeos produzidos pelos próprios alunos.

Empreende: Em meio a tanta tecnologia, você acredita que o simples, como as HQs e os zines, tem o poder de surpreender e transformar?
Arnaldo: Há um mito de que os alunos hoje são exclusivamente digitais. Claro que as mídias eletrônicas e redes sociais exercem um grande fascínio, mas quando estão trabalhando com zines e quadrinhos, o envolvimento é tão grande que os celulares acabam relegados a um segundo plano e só vêm à tona quando o aluno precisa de uma pesquisa ou referência para enriquecer o seu trabalho, produzido de maneira totalmente manual.

Por Angelo Davanço

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