Samuel Galli, o cineasta que viajou o mundo com o Terror Brasileiro “Mal Nosso”

Samuel Galli – foto Guilherme Bordini

Longa-metragem foi realizado com orçamento de 90 mil dólares e participou de mais de 30 festivais internacionais

Nascido nos anos de 1980, sua inspiração são os filmes de terror italianos. Fã de personagens como Freddy Krueger e Michael Myers, o diretor e roteirista Samuel Galli chamou atenção em importantes festivais, de críticos e recebeu prêmios com o filme “Mal Nosso”, gravado em Ribeirão Preto (SP) e produzido pela Kauzare Filmes. A admiração pelo cinema começou cedo, mas o advogado e dono de restaurante resolveu se arriscar na sétima arte em 2012, quando começou um curso na renomada New York Film Academy, no campus de Los Angeles. Apesar do interesse pela área, o início da história começou como um hobby, mas logo ele já se destacou. “Eu fiz um curta chamado ‘Dead Lovers Night’ e todos gostaram. Os diretores e alunos iam para ver o filme e começaram a me encorajar”, conta.

Com o final do curso, ele voltou para o Brasil e, com o tempo, Samuel se interessou ainda mais sobre o tema e mergulhou nos estudos. “Viajava para os Estados Unidos para comprar equipamento. As pessoas chegavam na minha casa e perguntavam o que ia fazer com tudo aquilo. Eu respondia que não sabia, mas que um dia, ia realizar alguma coisa”. E foi quando ele conheceu o diretor de produção Tato Siansi e o diretor de fotografia Victor Molin, da Kauzare Filmes. Entre conversas, Samuel foi direto com os colegas, “nós vamos fazer um filme, porque é o único jeito da gente sobressair e assim comecei a escrever o roteiro”.

Mas a caminhada para esse objetivo não foi fácil e ele sabia que era praticamente impossível pleitear alguma lei de incentivo. “Era nosso primeiro trabalho audiovisual e na época o terror estava em baixa, até mesmo internacionalmente. Então a única forma seria fazer com nosso próprio bolso. Eu tinha um orçamento na minha cabeça e formas de realizar a produção, mas o filme ficou tão bom, que a gente começou a apresentar para profissionais gigantes do mercado”, diz. O processo foi lento, mas com o material finalizado era preciso decidir o que fazer. O diretor mandou para agentes de venda, mas recusaram. Foi quando ele enviou o longa para o Frightfest, que “segundo Del Toro é o Woodstock do terror”, e o “Mal Nosso” chamou atenção de Alan Jones, um dos mais importantes críticos da Europa. “No dia seguinte, ele mandou um e-mail e falou que ficou apaixonado pelo trabalho e queria conversar comigo”. Samuel se encontrou com ele três dias depois na Argentina e foi apresentado para um agente de vendas internacional, da empresa inglesa Jinga Films. “A agência trabalhou em cima do filme. Ela é boa para festival e abre portas”, explica. #

Ganhando o mundo

Com críticas como “Evoca o sexto sentido e o exorcista” e “Verdadeiramente Instigante”, “Mal Nosso” conta a história de Arthur, um homem com poderes mediúnicos, que convoca os serviços de um assassino para proteger sua filha de uma possessão demoníaca. E para driblar o baixo orçamento, Samuel precisava fazer algo completamente diferente. “Quando escrevi o roteiro, eu sabia que não teria o porquê de fazer uma cópia barata de um filme americano e teria que correr alguns riscos”. E deu certo.

O filme foi exibido em mais de 30 festivais internacionais, como Blood Window 2017 em Cannes, Moscow Film Festival, Sitges, New York Horror Film Festival, Horroran, Frightfest UK, Nightvisions, A Night of Horror (Austrália), onde recebeu o prêmio de Melhor Diretor e Melhor Ator para Ademir Esteves, Macabro Film Festival (México) com o prêmio de Melhor Filme de Terror da América Latina. O elenco é formado por 16 atores de Ribeirão Preto, entre eles, Ademir Esteves, Ricardo Casella, Antony Mello, Luara Pepita, Fernando Cardoso, Shirley Viana. “Eu precisava de um grupo fechado e que todos tivessem um sonho. Se trouxesse um figurão de fora, aquele sonho ia quebrar. Tivemos dificuldades de ter feito só aqui na cidade e isso que foi a graça. Terror não funciona com gente conhecida”, diz.

Missão quase impossível

Fazer cinema no Brasil é muito difícil. Segundo o diretor, ele só conseguiu realizar o projeto porque tinha economias guardadas. “A verdade é essa, porque senão, eu não teria feito nada. Do ponto de vista do filmmaker, escrever e dirigir é fácil, se comparado a montar e distribuir o filme. Eu tinha um orçamento de 90 mil dólares e o “Mal Nosso” passou em festivais com outros longas de milhões de dólares”. Dentro do olhar empreendedor, a situação no nosso país também é complicada. “Por ano, geralmente as comédias dão lucro. De quem é a culpa? De todo mundo. Culpa das produtoras, que sempre pensam no mesmo gênero, dos exibidores, que dão pouco espaço para o cinema nacional e do público, porque não prestigia o próprio cinema”, diz.

Atualmente, Samuel fechou um filme em Portugal, que será rodado em inglês, além de ter um roteiro reservado para a Kauzare Filmes. No dia 14 de março, “Mal Nosso” estreou nas salas de cinema do Brasil e, em maio, nos Estados Unidos com uma exibição limitada. O longa ganhou espaço nas plataformas digitais, iTunes, Looke e Google Play. Quais serão os próximos passos desse cineasta? Com certeza, nós ficaremos de olho!

Por Mari Nabor

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