Sonho de Criança Embala Pesquisas e Negócios de Daniel Dentillo

Daniel Dentillo – foto Rafael Cautella

Sempre atento às aulas de ciências desde a infância, biomédico cria empresa que promete revolucionar o acesso ao mapeamento genético no Brasil

Quem é que nunca se encantou pelos laboratórios escolares de ciências quando criança? Pois aqueles tubos com líquidos coloridos e as infinitas possibilidades de experimentos nunca deixaram de acompanhar o biomédico Daniel Dentillo, 41 anos recém completados. Graduado pela Unesp de Botucatu, ele diz que sempre gostou da área científica. “A ciência é o motor do progresso. Sempre fui muito curioso, e na faculdade não foi diferente, passei por todos os laboratórios, todos os departamentos de análises clínicas e me firmei na microbiologia, onde me especializei. Na pós-graduação, na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (SP), queria estar envolvido com inovação, e encontrei a genética aplicada à reprodução humana, tema que me acompanhou até o pós-doutorado”, relata.

Sempre envolvido em pesquisas, Daniel teve a oportunidade de ir para Harvard, integrar um grupo pioneiro no desenvolvimento de tecnologia para uso de células tronco na reprodução humana, mas o encontro com um ex-colega da pós-graduação, o argentino Dante Gavio, mudou o rumo da história. “Ele já havia dado aulas em faculdades e tinha o desejo de empreender, e eu sempre tive uma veia assim também, queria inovar, criar algo para levar ao mercado. Então fiquei no Brasil e começamos a trabalhar na ideia de uma empresa de pesquisa e desenvolvimento de marcadores para identificação de doenças, inicialmente no gado. Mas a ideia foi se desenvolvendo, começamos a identificar oportunidades surgindo e, na virada de 2014 para 2015, passamos em um processo seletivo do Supera Parque para desenvolver um projeto para facilitar o diagnóstico de infecções virais”, relata Daniel.

O projeto inicial de Daniel e Dante envolvia o estudo do vírus da hepatite B a partir da coleta de uma pequena quantidade de sangue, que pessoas de qualquer lugar do País poderiam fazer por conta própria, colocando o material coletado em um filtro de papel e enviando para análise e processamento do diagnóstico no laboratório da dupla de cientistas empreendedores. Já nesta época, a DGLab, empresa criada por Daniel e Dante, tinha a intenção de ampliar o foco e não desenvolver simplesmente testes genéticos de doenças infecciosas. A ideia era que, com um simples filtro de papel, as pessoas poderiam coletar amostras em qualquer lugar para análise no Brasil e, abrangendo muita gente, o processo poderia se tornar mais barato, para que mais pessoas conseguissem adquirir, ou por meio de políticas públicas de saúde.

Nacionalizar Tecnologias para Democratizar o Acesso

Se o mapeamento genético ainda é algo caro no País, devido à necessidade de envio de amostras para análise no exterior, Daniel Dentillo aposta na nacionalização da tecnologia para tornar o processo mais democrático. “Hoje, o preço médio de um teste genético varia de R$ 2.000 a R$ 3.000. Usando uma modelagem de negócios inovadora e trazendo a análise para cá, conseguimos uma média de R$ 1.500. Já nos testes específicos que desenvolvemos para as áreas de bem-estar, fitness e nutrição, conseguimos fazer entre R$ 300 e R$ 400”, explica.

Novos negócios

Com as metas ampliadas, os cientistas sentiram a necessidade de integrar alguém com experiência na área de negócios e assim a sociedade ganhou a entrada de Rodrigo Ramos, que também tinha uma empresa incubada na Supera. “A partir daí começamos a ver o mercado de uma forma diferente e o Rodrigo começou a trazer ideias novas de oportunidades. Uma delas foi levar esta parte de auto coleta de sangue no papelzinho para as gestantes. “Normalmente, elas tiram dois tubos de sangue para saber o sexo do bebê com oito semanas de gestação e a nossa ideia foi: Será que a gente não consegue fazer isso com apenas algumas gotas de sangue? A pessoa faz a auto coleta em casa e nos envia para verificação do sexo do bebê? A ideia foi bem aceita, começamos a fazer o desenvolvimento tecnológico, conseguimos atrair a atenção de grandes empresas e estamos desenvolvendo estes estudos”, explica Daniel.

Testes Indicam os Tipos Ideais de Dietas para cada Pessoa

Com todo o foco voltado para o desenvolvimento de pesquisas nas questões de hepatites virais e das gestantes, Daniel, Dante e Rodrigo sentiram a necessidade de fazer o caixa da empresa girar, e então foram verificar o que o mercado precisava. “O Rodrigo já tinha experiência na área fitness, ele foi dono de uma academia, muito bem-sucedido, e ele sabe que este é um mercado quente no Brasil. Então fomos ver o que a genética tinha para oferecer a esse mercado. Existem testes genéticos no mundo inteiro que vão identificar algumas variantes nos seus genes, no seu DNA, e que estão relacionadas ao metabolismo de carboidratos, de gordura, de vitaminas, então isso infere, por exemplo, se você pode comer mais gordura ou menos gordura, se muito carboidrato faz mal, se você tem intolerância a lactose, a glutén, e se você tem maior necessidade de vitamina B, de vitamina D ou outras vitaminas”, enumera Daniel Dentillo. A partir destas pesquisas, a DGLab começou a representar no Brasil a empresa número um no mundo nesta área, sediada em Londres. “Houve uma aceitação grande por este tipo de produto, então passamos a desenvolver o nosso próprio teste aqui e já começamos a lançar os primeiros combos de maneira que caibam no bolso das pessoas, para avaliar respostas do organismo a questões de carboidrato, gorduras, pré-disposição a colesterol alto, e até avaliação do relógio biológico e questões ligadas ao tipo de alimentação mais adequada para cada organismo.

Na prática, a pessoa que adquire um kit utiliza uma espécie de cotonete especial para fazer a raspagem da bochecha por dentro e, assim, coletar a mucosa oral. Após este procedimento, é feito o envio do material pelo Correio e a equipe de Daniel avalia o DNA para apontar quais as variáveis genéticas da pessoa ligadas ao seu bem-estar, como isso interfere em sua dieta, em seu sono. “Tudo com um respaldo nutricional para poder transformar esta informação em ação, para que as pessoas possam ter o resultado prático destes testes em suas vidas”, finaliza.

Por Angelo Davanço