‘A Curiosidade é uma Virtude que Deve ser Perseguida’


Prestes a completar 60 anos, Marcelo Tas garante que nunca deixará de ser curioso em relação a tudo. Foi assim que ele passou pela Aeronáutica e pela Engenharia Civil até se tornar o comunicador que é hoje

Marcelo Tas – foto Nathalie Bohm

Marcelo Tristão Athayde de Souza poderia ser um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) ou ter seu nome estampado em placas de grandes obras, mas ele apostou no acrônimo de seu sobrenome para se tornar um dos comunicadores mais conhecidos do Brasil. Nascido em Ituverava, na região de Ribeirão Preto (SP), no dia 10 de novembro de 1959, Marcelo Tas está prestes a chegar aos 60 anos e carrega na bagagem experiências que ajudaram a moldar sua carreira na mídia e um desejo imenso de estar sempre atento às novidades do mundo.

Quando saiu de sua cidade natal, aos 15 anos, para fazer o colégio da FAB em Barbacena, no interior mineiro, não imaginava que a vontade de desvendar novos saberes o levaria a São Paulo, onde fez o curso de Engenharia Civil na Faculdade Politécnica da USP. Foi na Poli que Marcelo começou a se envolver com o jornal do grêmio estudantil, empregando uma de suas características mais marcantes: as coisas da vida política tratadas com uma grande dose de humor.

E lá foi ele, levado por sua curiosidade, até a televisão. O Tas do repórter Ernesto Varela, da bancada do CQC, das entrevistas do Provocações, da magia do Rá-tim-bum. O Tas do Professor Tibúrcio. “As pessoas me param até hoje nas ruas por causa do Professor Tibúrcio. No meu top five particular de personagens, ele é o número um”, revela o ator, apresentador, roteirista, diretor e escritor, com o nome sempre ligado às coisas da tecnologia, que ele tanto gosta de acompanhar, desde os tempos em que aprendeu a usar uma máquina de escrever.

“Eu agradeço muito a Força Aérea Brasileira por isso, por me tornar um ótimo datilógrafo!”

Na entrevista a seguir, Marcelo Tas fala sobre revolução digital, educação, empreendedorismo, redes sociais e sobre seu relacionamento com o público. “Que coisa complexa é a impressão que as pessoas têm de mim. Tem gente que me acha o máximo e tem quem me ache o cocô do cavalo do bandido!”, diz.

Marcelo Tas
Marcelo Tas – foto Nathalie Bohm

“Eu sempre fui muito curioso. Creio que esta é uma virtude que a gente deve perseguir”


Como todos que cresceram nos anos 1970, você deve ter ingressado no mundo da tecnologia com aquele tradicional curso de datilografia, não é mesmo?

Olha, você sabe que a datilografia foi algo muito importante para mim. Eu fiz o colégio na Escola Preparatória de Cadetes do Ar em Barbacena (MG), e lá tinha aulas de datilografia. Esta prática me ensinou a escrever com rapidez e sem pensar muito na dificuldade que é você teclar. A nossa comunicação, hoje em dia, ocorre pela ponta dos dedos e eu creio que todo conhecimento, como a datilografia, para podermos usar isso de uma maneira saudável, ajuda e muito. Eu agradeço muito a Força Aérea Brasileira por isso, por me tornar um ótimo datilógrafo (risos)!


Como tem sido para você acompanhar a evolução tecnológica?

Eu sempre fui muito curioso. Creio que esta é uma virtude que a gente deve perseguir. As coisas continuam mudando muito rapidamente, então, se você se contentar em descobrir uma coisa e pensar que é isso, que agora você sabe, não é por aí. Existe uma eterna necessidade de busca e eu sempre fui curioso em relação a tudo. Eu comecei a trabalhar profissionalmente na televisão no início da década de 80, quando a interação com o público era muito primária. Eu me sinto muito sortudo por ter vivido essa mudança de relacionamento com o meu público, por meio dessa revolução digital.


O brasileiro é empreendedor por natureza ou por necessidade?

Eu votaria nas duas alternativas. Por necessidade, com certeza, e por DNA. Nós temos uma natureza empreendedora e o motivo para mim é muito claro, é a diversidade, o Brasil tem uma população com uma diversidade cultural, racial, de orientação sexual, de idades também. O Brasil é um país em que idades diferentes convivem, ao contrário da Europa, por exemplo, onde crianças, até hoje, são tratadas de uma forma muito diferente, muito distante, com algumas exceções, como na Finlândia, mas o Brasil é um país onde existe um terreno muito fértil para o empreendedorismo se desenvolver.
Eu mesmo tenho a grata alegria de viajar bastante pelo país e encontrar, especialmente, mais recentemente, pelo interior de São Paulo, belas iniciativas de empreendedorismo, nas regiões de Marília, de Sorocaba, aí em Ribeirão Preto. Até por eu ter nascido na região, eu acompanho muito a evolução de Ribeirão. A região já fazia chip, já fazia material odontológico de alta performance, quando eu era moleque, na década de 80.


Marcelo Tas
Marcelo Tas – foto Nathalie Bohm

Por que não a Engenharia Civil, por que não a Aeronáutica e por que sim a mídia?

Olha, o coração é que foi me levando, eu sempre sou levado pelo que vai me abrindo um universo de interesse. Na engenharia, eu aprendi coisas incríveis, especialmente na área da tecnologia, que é a minha veia. Na Aeronáutica, eu aprendi algo fundamental, além da datilografia, que foi conhecer a diversidade do Brasil. A Aeronáutica é um celeiro de sabedoria brasileira, de alto padrão. A Aeronáutica me deu uma visão do País, da Amazônia, do Oeste, do Pantanal, de todas as regiões. Em cada etapa dessas, eu tive um aprendizado diferente, mas o meu coração foi guiado na hora que eu percebi que a minha vocação era a comunicação e isso não invalidava todos os aprendizados anteriores. Eu jamais poderia ser o comunicador que eu sou hoje, sem o aprendizado da Aeronáutica, da Engenharia Civil, do teatro, que é outra escola incrível, que infelizmente não pude me dedicar o quanto gostaria.


Nos anos 90, você já fazia ensino a distância no Tele-curso. Como foi esta experiência?

Eu havia participado das duas séries do Rá-tim-bum e do Castelo Rá-tim-bum, que são pedagógicas também. Creio que aquela experiência motivou o convite da Fundação Roberto Marinho para me aproximar do Telecurso, que, naquela época, era um programa muito engessado, com atores interpretando papéis de professores diante de um quadro negro. Era um formato que tentava simular uma sala de aula, o que era muito pouco eficiente, pois nada substitui uma sala de aula. E foi aí que eu fui convidado pelo Hugo Barreto, que foi o grande idealizador desse projeto, e ali no Telecurso tive que aprender algo que eu não sabia, que é criar aulas usando uma série de linguagens de televisão, como animação, telenovelas, telejornal. A gente criava personagens âncoras para cada uma destas matérias. Geografia, por exemplo, era um carteiro que percorria a cidade e dava a noção para as pessoas sobre geolocalização. Foi um desafio gigantesco, com uma equipe enorme, chegamos a ter 100 pessoas em torno disso, e produzimos mais de 1.500 aulas, em meados dos anos 90, e por uns dez anos. É o maior projeto de televisão que eu participei e que foi usado de uma forma muito intensa pela população do Brasil. Olha, se eu tiver uma pequena chance de ir para o céu, é por conta da minha participação no Telecurso (risos)!


“Não há nenhuma demonstração de ódio ou de afeto que me assuste, eu sei que ambas podem ser uma pista falsa”

Quais são os principais desafios da educação ao ter que unir o ensino tradicional às novidades apresentadas diariamente pela tecnologia?

O desafio é o diálogo, porque a aula, aquela que a gente conhecia e que ainda ocorre dentro da classe, deve ser um diálogo. E os grandes professores sempre conseguiram isso, o engajamento. Acho que a palavra é esta mesmo, a mesma palavra que a gente usa para a internet. Se perguntarmos para os leitores quais são os seus professores que eles lembram, com carinho, no coração, serão aqueles que em algum momento conseguiram o engajamento, o diálogo, o professor que obrigou a pensar, que provocou, que fez você ler pela primeira vez na frente dos seus colegas e você viveu uma experiência inédita na sua vida, onde entra a emoção, onde entram as descobertas. Com a tecnologia, há uma chance grande de dispersão do diálogo, mas ao mesmo tempo é uma oportunidade muito grande de melhorar até esse engajamento. O professor não vai poder agir como fazia antigamente, quando ele era o único cara que falava, o único dono da verdade, o único proprietário da informação. O momento que a gente vive deve ser de diálogo, pois, hoje, as pessoas não se permitem mais não serem ouvidas.


Marcelo Tas
Marcelo Tas – foto Nathalie Bohm

Como as redes sociais estão atuando na transformação das pessoas e como lidar com tanta informação disponível?

Antes de mais nada, é bom dizer que as redes sociais não são seres humanos, elas não têm vontade própria. Eu lido com elas como elas são de verdade: ferramentas. Assim como você não pode usar um serrote sem saber direito quais são os riscos de ser cortado, você tem que saber usar a rede social. Mas o que acontece hoje é que a gente sai usando, achando que é tudo de graça, que é tudo fácil, e muitas vezes se estrepa muito. Se a gente usar as redes de uma maneira passiva, sem entender o que é aquilo, vamos ficando dentro de um ambiente muito viciado, muito direcionado, onde você é seduzido a discutir assuntos que geralmente não são relevantes, porque todo mundo pensa igual ou pensa absolutamente o oposto, e aí isso vai gerando aquelas famosas discussões polarizadas, em que não existe vencedor, tem só xingamento e papo furado. No campo político, as redes ajudaram a trazer a discussão para o âmbito familiar, entre os amigos, mas com uma situação muito perigosa, que é o viés. É muito perigoso quando você é fisgado por um ponto de vista enviesado e não percebe. Isso é um pouco onde nós estamos hoje amarrados no Brasil, porque ou você é a favor do Bolsonaro ou você é comunista, não fica nenhuma outra opção de, como é o meu caso, não concordar com os métodos do Bolsonaro, apesar de concordar que não devemos admitir a corrupção petista. Esta é a minha posição, eu luto por um Brasil onde nós vamos ultrapassar o lugar onde o PT nos deixou, que é um lugar bastante deserto, um lugar onde estava se buscando a supremacia de um partido às custas de corrupção, mas também não me alinho com os métodos do Bolsonaro, que são truculentos, que pregam que, para se resolver a violência, é preciso armar o cidadão. Eu até posso discutir a questão do armamento, para mim não tem problema nenhum. Por exemplo, eu acho que devemos, sim, permitir o armamento do cidadão que mora na zona rural do Brasil, pois eu conheço essa realidade, mas não é por isso que eu vou concordar que qualquer pessoa que faça um curso de tiro possa sair dirigindo com uma arma debaixo do banco, que é o que ele quer, e daí você se matar por conta de discussões imbecis. O que quero dizer é que eu, que não me coloco em nenhum dos dois opostos, tenho certa dificuldade de participar do debate. Então, o viés é muito perigoso, por você ser levado para um lugar onde vai ser impedido de dialogar com qualidade. Esta é a grande beleza da democracia, dialogar, debater com pessoas que pensam diferente de você, e esta, aliás, é a alegria que eu tenho hoje de fazer um programa chamado Provocações, onde eu trago pessoas que pensam diferente de mim, e procuro ouvir o que elas têm a dizer, e elas, muitas vezes, vão ter que ouvir provocações que não vão concordar.


Dentro destes diálogos, muitas vezes enviesados, destas provocações, como você lida com os haters?

Eu tenho uma técnica. Eu criei uma pasta no meu computador que se chama “Amam me Odiar”, e lá eu coloco pessoas que me amam em demasia e pessoas que me odeiam em demasia. São pessoas que geralmente eu não respondo, mas eu guardo com muito carinho os xingamentos ou as demonstrações de paixão avassaladora para eu poder entender quem sou eu. Eu abro regularmente, olho e reflito que coisa complexa é a impressão que as pessoas têm de mim. Tem gente que me acha o máximo e tem quem me ache o cocô do cavalo do bandido (risos)!


E em qual dos dois grupos tem mais gente?

Olha, tem um equilíbrio. Eu me sinto sortudo por ter muita gente que demonstra ter afeto e tal, mas eu não me assusto com nenhum deles. Não há nenhuma demonstração de ódio ou de afeto que me assuste, eu sei que ambas podem ser uma pista falsa, então, o que eu procuro fazer, quando não tem xingamento e palavrão, é escolher algum deles e responder: “Olha, Maurício, eu creio que você não entendeu o que eu falei”. E, geralmente, quando eu respondo para uma pessoa, um xingamento ou uma agressão, muitas vezes, inicia-se um diálogo até que interessante.


O que esperar do Tas 6.0 que vem por aí?

Eu espero continuar com o espírito de criança, e o espírito de criança significa olhos e ouvidos abertos e não deixar morrer a curiosidade. Pelo que, exatamente, eu não sei (risos)!

Marcelo Tas
Marcelo Tas – foto Nathalie Bohm

Por Angelo Davanço