Sucata vira Robô nas mãos dos alunos de Débora Garofalo


Professora paulistana conta como criou projeto que já tirou mais de uma tonelada de lixo das ruas da capital e foi reconhecido internacionalmente

Debora Garofalo – foto divulgação

Pegue uma turma de crianças, alunos de uma escola pública de periferia de uma metrópole, que entre tantos desafios, têm que conviver com lixo, muito lixo, espalhado pelo caminho. Junte estes estudantes a uma professora apaixonada pelo ofício de ensinar e curiosa em relação às amplas possibilidades da tecnologia. O resultado desta soma é o projeto ‘Robótica com Sucata’, desenvolvido ao longo de quatro anos em uma escola municipal da zona Sul da cidade de São Paulo e que tirou mais de uma tonelada de lixo e sucata das ruas, envolvendo a participação de dois mil alunos, levando a sua idealizadora, a professora Débora Garofalo, à final de um dos mais importantes prêmios voltados para a Educação no mundo. Não é pouca coisa.

“O projeto nasceu da vontade de transformar a vida de crianças e jovens da periferia, através de tendências como programação e ensino de robótica, ao mesmo tempo que os próprios alunos me narravam que eles tinham um grande problema que era o lixo. O lixo que impedia as crianças de irem para a escola em dias de chuva, devido aos alagamentos, e também em função de trazer doenças, como dengue e leptospirose. E aí então me veio uma ideia de poder unir esses dois fatores para ensinar robótica”, explica Débora.

Na prática, o projeto levou, a partir de 2014, os estudantes para as ruas próximas à escola e às suas casas, no bairro Cidade Leonor, para um trabalho de sensibilização de porta em porta e de recolhimento de sucata e materiais eletrônicos. De volta à sala de aula, era a hora de fazer um exercício científico e criativo, para a produção de robótica com o material retirado das ruas. O resultado do trabalho foi, então, apresentado para a comunidade, em exposições para mostrar o que eles conseguiram transformar a partir da sucata.

E valia tudo na hora de retirar o lixo das ruas e colocar a mente para criar. “Os materiais utilizados eram praticamente tudo o que eles encontravam nas ruas: Papelão, plástico, lata, material eletrônico, computadores velhos, ventiladores… A única coisa que nós realmente compramos foi o Arduino para poder trabalhar”, afirma Débora, referindo-se ao dispositivo composto por um micro controlador que se conecta a um computador e que, depois de programado, pode direcionar, por exemplo, um robô.

Após quatro anos de realização do projeto, a professora comemora os resultados conseguidos junto a um público extremamente simples, que vive em uma comunidade muito carente, com altos índices de violência e de tráfico de drogas. “Conseguimos combater o trabalho infantil em 95%, a evasão escolar em 93%, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) saltou de 4,2 para 5,2, retiramos mais de uma tonelada de lixo das ruas… Mas eu sempre digo que a maior vitória foi ver estas crianças realmente com um projeto de vida, foi devolver o sonho para estas crianças e falar para elas que não é o lugar que determina o que elas podem ser na vida, mas sim elas próprias.”

Mais ou menos o que aconteceu com a própria Débora, que nasceu em São Paulo e estudou em escola pública até o magistério. “Desde a infância eu sempre acreditei que esta era a minha vocação”. Por pouco ela não conseguiu passar na segunda fase para cursar uma universidade pública, e então teve que trabalhar em bancos e indústrias para custear os estudos, até formar-se em Pedagogia e Letras e especializar-se em Língua Portuguesa e seguir, hoje, com o mestrado. “Tive uma infância relativamente simples, com uma mãe que criou três filhas sozinha, mas que sempre nos incentivou muito, deixando um legado de que a única coisa que nos faria ser alguém na vida seria a educação”, relembra.



Projeto será levado para todo o Estado de São Paulo

Após o reconhecimento pelo Global Teacher Prize 2019, Débora Garofalo também teve seu nome lembrado pelo Governo do Estado de São Paulo. Convidada pelo secretário de Educação, Rossieli Soares, ela passou a integrar o programa ‘Inova Educação’, para ajudar a implementar o componente de tecnologia e inovação e, assim, levar o seu trabalho para toda a rede estadual de ensino a partir de 2020. “É uma grande alegria poder participar de uma política pública que vai impactar professores e mais de 2 milhões de alunos, do sexto ao nono ano do ensino Fundamental II. Isso já começa para o próximo ano, então agora é o momento de muito trabalho, é o momento de construir este componente com a rede, de passar um pouco da minha experiência, da gente providenciar infraestrutura, para que o professor tenha esta liberdade de trabalhar com material não estruturado, por tudo o que o trabalho traz de premissa nas questões de criatividade, inventividade e sustentabilidade”, diz Débora.

Reconhecimento Internacional

Tanto esforço e entusiasmo pela profissão levaram Débora, neste ano, a ser a primeira mulher brasileira indicada para a final do Global Teacher Prize, considerado o “Prêmio Nobel da Educação”. “Este reconhecimento veio coroar um trabalho de quatro anos que quebra o paradigma do ensino de robótica no Brasil, que mostra que é possível, sim, utilizarmos materiais não estruturados para se trabalhar com estes conceitos. Acho que também traz um exemplo para estas crianças e professores, que é preciso transformar a educação, que o caminho é árduo, mas ele pode ser reconhecido”, observa, antes de aconselhar os colegas professores que desejam inovar em sala de aula: “É preciso uma mudança de atitude, vencer o medo do novo e poder realmente se entregar dentro desse processo. Como professora, quando eu comecei, não tinha conhecimento do todo, mas eu me permiti aprender, então é necessário escutar os alunos e também estar disposto a aprender”.

Por Angelo Davanço