Eduardo Kobra, o Artista por trás de mais de 500 Murais espalhados pelo Mundo


O Brasileiro de origem Humilde migrou das Pichações em muros para a produção de Grandes Painéis de Relevância Mundial

Artista Eduardo Kobra – foto Alan Teixeira

Criado na periferia, em meio a pichações e ao movimento hip-hop, Carlos Eduardo Fernandes, de 44 anos, conhecido como Kobra, ganhou notoriedade e tornou-se nome de peso no cenário de street art mundial. Isso porque o muralista, natural do Jardim Martinica, área periférica da capital paulista, é autor de mais de 500 obras realizadas nas ruas do Brasil e de outros 17 países. Kobra lembra que o seu despertar para a arte começou muito cedo, com 12 anos de idade. Na época, o menino era conhecido como cobra, escrito com a letra “c”.

“Me interessei por esse universo quando notei que poderia me comunicar e falar algo que desejava”, lembra.

A falta de formação técnica, já que sua família não tinha condições de proporcionar cursos especializados, não impediu Kobra de desenvolver um estilo próprio, que se assemelha, em termos de qualidade e proporção, aos do muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957) e dos expoentes do street art internacional: os americanos Keith Haring (1958-1990) e Jean-Michel Basquiat (1960-1988), ambos conhecidos por picharem espaços públicos com mensagens de protestos, e o polêmico britânico Bansky, cuja identidade não é divulgada.

Autodidata, o artista ainda procura resgatar o tempo perdido e absorver o máximo de conhecimento. “Como não tive acesso a galerias e museus, costumo aproveitar ao máximo as oportunidades. Quando estou em algum país novo, tiro um tempo para conhecer a história local, os artistas que ali viveram, visitar galerias de arte tradicionais e contemporâneas, além de fazer um tour pela cidade e ver as manifestações públicas reproduzidas em forma de street art – sempre procuro saber o que está acontecendo no mundo”, diz.

homenagem oscar niemeyer
Homenagem ao falecido arquiteto Oscar Niemeyer. Mural localizado na Av. Paulistaa em São Paulo – foto divulgação Kobra

Escolha do Projeto

Por ser referência em seu nicho de atuação, o muralista recebe convites do mundo inteiro. “Vão desde galerias de arte, festivais, pessoas físicas e até organizações, que pretendem revitalizar áreas degradadas com os meus painéis.

Porém, o processo de decisão se dá por alguns fatores determinantes. Um deles, que julgo primordial, é a liberdade criativa. Ou seja, ter 100% de autonomia para executar exatamente o que desejo”, afirma. Além de não abrir mão da independência em seu modo de trabalho, Kobra dá preferência para locais desconhecidos por ele ou que façam parte de uma história. “Procuro desenvolver murais em lugares que tenham conexões com a minha obra”, pontua, enfatizando que não há distinção em relação à classe econômica.

“Rico ou pobre, tanto faz. Sinto a mesma realização de fazer uma obra em qualquer lugar – tanto que eu consigo manter uma boa conexão”, frisa.

O artista é assertivo ao dizer que, hoje em dia, com toda a certeza, a etapa mais demorada durante o processo é a pesquisa. “De uma forma geral, a criação tem levado mais tempo que a própria pintura. Estou me preocupando cada vez mais com as temáticas e a mensagem que quero passar. Então, às vezes, levo de duas a três vezes mais, pensando como vai ser feito”, pontua.

homenagem oscar niemeyer
Mural “A Lenda do Brasil” em homenagem ao Ayrton Senna, está localizado no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação em São Paulo – foto Alan Teixeira
Mural Racionais no Capão redondo em São Paulo
Mural Racionais no Capão redondo em São Paulo – foto Studio Leone

Marca Registrada

Grandiosidade à parte, Kobra relata que muitas pessoas tendem a reconhecer seu trabalho por conta da explosão de cores, que mais parece um caleidoscópio visto a olho nu. Contudo, segundo ele, esse fator é apenas uma das nuances, mesmo que em destaque, pertencentes a sua identidade artística. “As cores estão sempre ligadas à mensagem. A paleta escolhida, por exemplo, no mural “Let me be myself”, que retrata Anne Frank, é a mesma contida na capa de seu diário, escrito durante a guerra. Tudo está interligado”, explica.

Ele ressalta que a obra, como um todo, sempre é pensada em seus detalhes, mesmo que poucas pessoas sejam capazes de absorver de primeira.

Fora a coloração escolhida, o paulistano é conhecido pelas representações hiper-realistas, baseadas em fotografias e estudos anatômicos.

É possível notar essa característica na série de obras intituladas “Olhar a paz”, onde retrata personalidades que lutaram contra a violência, como Mahatma Gandhi e a ativista paquistanesa Malala Yousafzai.

Murais de Kobra, na França, inspirados no pintor Claude Monet
Murais de Kobra, na França, inspirados no pintor Claude Monet – foto divulgação Kobra

Obras Icônicas

Segundo o artista, não tem como mensurar, dentro de seu trabalho e de seus 30 anos de carreira, qual mural é o mais importante. Pelo contrário. Para ele, todos, sem dúvida, possuem suas peculiaridades e significância dentro de sua trajetória – seja pela mensagem positiva, muito presente na temática, ou por deixar registrados momentos históricos importantes que não devem ser esquecidos pelo público. “Todos têm uma história e uma importância para mim. Sou muito entusiasmado e valorizo cada um dos meus convites, pois eles demonstram e retratam momentos específicos da minha vida, e, claro, tudo o que acredito”, relata.

Entre os mais lembrados, ou de maior relevância dentro de seu vasto portfólio, está o mural “Etnias”, batizado “Todos Somos Iguais”, com mais de 3.000 metros quadrados de altura, pintado na parede de um antigo armazém, na zona portuária do Rio de Janeiro (RJ) para os Jogos Olímpicos de 2016. “A princípio, ele foi criado para ficar exposto nos Emirados Árabes. Contudo, surgiu a oportunidade de produzir no Brasil, e eu acabei fazendo uma nova pesquisa para decidir quais personagens seriam retratados”, conta.

Ele frisa que seus estudos culminaram na representação, de forma respeitosa e simbólica, dos primeiros povos pertencentes a cada continente: Huli (Oceania), Mursi (África), Kayin (Ásia), Supi (Europa) e Tapajós (Américas). “No meio dos integrantes de cada povo, há representações da cartografia mundial. Fora que todos possuem os olhos pintados com as cores da bandeira brasileira, verde e amarelo”, pontua. Para a conclusão deste trabalho, que foi considerado pelo Guiness World Records como o maior grafite pintado no planeta, Kobra e sua equipe trabalharam em turnos de 12 horas, por dois meses – utilizando, ao total, mais de 3.000 latas de spray, 700 litros de tinta colorida e 1.800 litros de tinta branca para o fundo.

Engana-se quem pensa que o artista não quebraria o seu próprio recorde. Em 2017, ele produziu um trabalho que é uma ode ao chocolate, que ocupa um paredão de 5.742 metros quadrados às margens da Rodovia Castello Branco, no quilômetro 35, na cidade de Itapevi (SP).

Obra apagada, mas não esquecida

“O painel “O Beijo”, intitulado com o mesmo nome dado pelo fotógrafo norte-americano Alfred Eisens-taedt (1898-1995), famoso pela imagem que retrata o momento em que os americanos saíram às ruas para comemorar o final da 2º Guerra Mundial, tornou-se ponto turístico, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Por conta da visibilidade alcançada, a prefeitura da cidade tombou o prédio. Entretanto, o proprietário do edifício, após saber do tombamento, optou por apagar a obra, pintando de cinza a parede do mural.”

painel  “O  Beijo”
Painel “O Beijo” – foto divulgação Kobra

Problemas Recorrentes

Por ser requisitado para desenvolver projetos em outros países, o artista comenta que esse processo exige alguns desafios a serem transpostos. “O que eu tenho de mais importante no meu trabalho, o que priorizo, são as mensagens e temas que procuro abordar. E nem sempre consigo a permissão para dar continuidade às minhas ideias, como, por exemplo, liberdade para falar abertamente sobre racismo, agressão – de qualquer tipo -, refugiados e imigração”, referindo-se a alguns temas recorrentes em seus trabalhos. Entretanto, para Kobra, por ser um artista bem colocado no mercado e com obras significativas, ele tem o privilégio de recusar, quando não pode se expressar de forma livre.

O muralista ainda lembra do caso em Atenas, na Grécia, onde um de seus painéis foi destruído. “O trabalho representava a evolução humana e, no final, mostrava os homens destruindo o planeta, o meio ambiente e jogando a bomba atômica. Esse trabalho foi interpretado de uma forma errônea por religiosos ortodoxos, que acabaram me ameaçando e destruindo o painel”, relata. Mas Kobra diz que esse foi um caso isolado e que seus temas costumam ser bem aceitos e admirados.

Mural Etnias, batizado como Todos somos um.Localizado no bairro da Gamboa do Rio de Janeiro.
Mural Etnias, batizado como Todos somos um. Localizado no bairro da Gamboa do Rio de Janeiro. – foto divulgação Kobra
Mural Anne Frank em Amsterdam
Mural Anne Frank em Amsterdam – foto divulgação Kobra

Por Camila Rodrigues