Maureen Chiquet, a Mulher por trás do Sucesso de Grandes Marcas Mundiais


Em entrevista, ex-CEO da Chanel conta suas experiências profissionais e os motivos que a levaram a escrever o livro que traz conselhos profissionais e pessoais para mulheres empreendedoras ávidas por mudanças.

Maureen Chiquet – divulgação

Em uma década de trabalho, Maureen Chiquet mudou por completo as estratégias de uma das marcas de moda mais conceituadas do mundo, a Chanel, idealizada por Gabrielle Chanel, eternizada como Coco. Não à toa, a ex-CEO é umas das figuras mais admiradas no mundo corporativo internacional, seja por seu trabalho de qualidade ou pelo estilo de liderança feminino, em meio a uma predominância masculina no setor. Para tal feito ser conquistado, a executiva teve que abdicar de momentos com a família e apostar em uma postura mais assertiva e humana, que combinasse com a cultura que estava lidando – no caso, o jeito francês de gerir.

Quando criança, Maureen sonhava em ser cineasta. “Eu adorava todas as formas de se contar histórias, desde livros, televisão e cinema. Eu tinha vontade de me conectar com esses diferentes mundos”, conta. Fora a predileção pela narrativa, a americana, natural de St. Louis, no Missouri, Estados Unidos, tinha um desejo bem peculiar. “Eu queria ser francesa. Amava a França”, lembra.

Mesmo sem saber, o desejo de Maureen seria atendido. Antes de galgar seus passos até a Chanel, ela se formou bacharel em Artes, com especialização em Literatura, em 1985, na Universidade de Yale, mas não seguiu a profissão. Contudo, foi uma empresa mundialmente conhecida no ramo de beleza que lhe deu oportunidade para entrar neste universo. Em 1985, deu início à sua carreira em Marketing na L ́Oréal Paris, passando por outras grandes marcas, como GAP e Banana Republic.

“Precisamos de mais mulheres ocupando o topo da cadeia”

Liderança Feminina

Maureen começou a traçar seu caminho profissional na Chanel em 2003, como diretora de operações, sendo responsável pelas divisões de fragrância e beleza (perfumes e maquiagens), moda, relógios e joias finas, e presidente das operações nos Estados Unidos. Entretanto, devido ao seu perfil dinâmico e inovador, a americana conquistou mais espaço, e, em 2007, tornou-se a primeira CEO internacional da Chanel, administrando-a durante o período de retração econômica de 2008, além de estabelecer um lugar de destaque entre líderes.

Mesmo sendo uma marca francesa comandada, então, por uma norte-americana, Maureen garante que a língua nunca foi um empecilho em seu trabalho. Para ela, a dificuldade encontrada foi em relação a questões culturais. “Culturalmente, os americanos tendem a ser mais reativos, enquanto os franceses possuem características mais analíticas e metódicas. Contudo, o equilíbrio dessas duas faces foi realmente um aprendizado e, por que não dizer, uma vantagem para mim e para a empresa em geral”, afirma.

A executiva compartilha outro ponto positivo e prazeroso que seu cargo de diretora lhe proporcionou. “Tive a sorte de trabalhar com muitos gênios criativos ao longo da minha carreira. Foi a parte do meu trabalho que mais amei.

Acho que a coisa mais importante que pude realizar foi criar circunstâncias e recursos para que eles tivessem sucesso”, diz, fazendo menção à sua convivência profissional com Karl Lagerfeld, estilista da marca, falecido em fevereiro de 2019.

“Sinto que é necessário um maior número de mulheres no topo da cadeia. Além do fato de que muitas sociedades esperam que nós desempenhemos papéis de cuidadora e donas de casa, por isso, muitas empresas não oferecem salários iguais”

Fim de uma Era

Mesmo trazendo inovação e lucros à empresa, em janeiro de 2016, durante a apresentação da coleção de verão de alta costura, em Paris, Maureen foi cortada do time de forma abrupta, sem muita explicação por parte de seus superiores. O motivo para tal decisão, segundo a marca, foi em “razão de divergências de opinião e estratégia”. Porém, segundo a agência Bloomberg, em 2014, sob direção da americana, o grupo Chanel teria atingido US$ 7,51 bilhões, com alta estimada de 9,4% ao ano e lucro operacional de US$ 2 bilhões na mesma época.

A ex-diretora executiva global relata o sentimento ao deixar seu cargo. “Não é que eu não amasse quem eu fora. Afinal de contas, ser CEO da Chanel, pináculo do luxo, trabalhar com equipes extremamente talentosas, morar na minha amada cidade, Paris, e conhecer artistas maravilhosos, foi de grande valia para mim. Mas estava na hora de me libertar desse rótulo e me redefinir”, diz.

Conhecimento Compartilhado

A executiva conta que passou por um tipo de ritual de libertação para se desvincular, de uma vez por todas, de seu antigo posto e seguir em frente. O processo, segundo ela, ocorreu de forma quase metafórica, quando se desfez de algumas peças icônicas da grife presentes em seu closet. “Foi uma espécie de purgação psicológica e metafórica, destinada a abrir espaço para uma nova identidade”, conta. “Quero dizer, sejamos realistas: não é de fato uma questão de vestimenta. Ao deixar a Chanel, tive que começar a me reimaginar por completo. De repente, eu me vi como ‘líder’ apenas da minha vida”, enfatiza.

Para saber mais sobre os macetes aprendidos durante os 10 anos como CEO mundial da marca Chanel e outras experiências profissionais valiosas, nós, da revista Empreende, conversamos com Maureen Chiquet. Ela também falou sobre o seu livro Do Nosso Jeito – Mulher, Liderança e Sucesso, lançado no último mês de agosto, no Brasil, pela editora Seoman, e como ele pode ajudar outras mulheres que pretendem ascender na carreira profissional e tomar as rédeas da sua própria vida. Confira:

Maureen Chiquet
Maureen Chiquet – divulgação

O que te inspirou a escrever o livro sobre sua trajetória, tanto pessoal como profissio-nal, e o que espera compartilhar com outras mulheres?

A ideia de escrever o livro veio de um método de liderança que criei durante a minha trajetória na Chanel, chamado de Liderança Ativa e Consciente, que consiste em incentivar os líderes a se mostrarem como pessoas inteiras, não apenas como executivos. Pedíamos que eles escutassem, fossem mais vulneráveis, mais curiosos, fizessem mais perguntas e, finalmente, colaborassem mais uns com os outros. Após um ano nessa metodologia, os resultados começaram a influenciar radicalmente a cultura da empresa, tornando-os mais inovadores e abertos a mudanças. Eu queria compartilhar essa ideia com outros líderes. Quando comecei a escrever, percebi que tinha outros cases de sucesso para contar e perspectivas para compartilhar, e é por isso que o livro entrou na minha vida.


No passado, você atribuiu grande parte do seu sucesso profissional a uma mistura, como você cita no livro, de “pesquisa e instinto”. Você poderia falar mais sobre essa filosofia de liderança?

Todos nós conhecemos a pesquisa no seu sentido tradicional. Fazemos estudos de mercado, conversamos com consumidores, analisamos a concorrência, entre outros fatores. Mas, para mim, existem dados essenciais que podemos obter perante uma simples observação e captura do mundo cotidiano. Quando me refiro à intuição ou instinto, quero dizer realmente abrir seus olhos, ouvidos e coração para o que está acontecendo ao seu redor. Colete esses “dados”, sintetize-os e faça conexões com o que você está aprendendo. É isso que quero dizer com pesquisa e instinto.


Como você equilibra sua carreira com a vida pessoal?

Em uma passagem do meu livro, conto um episódio que aconteceu com Pauline, minha filha mais velha. Ela reclamava da minha ausência durante sua infância e adolescência. Foi um momento incrivelmente difícil e doloroso, mas percebi que não existe um equilíbrio perfeito entre trabalho e vida pessoal ou mãe perfeita. Tentar alcançar esses ideais realmente nos machuca, pois não estamos preparados para o fracasso – caso não aconteça como desejamos. Precisamos aceitar que a vida não é perfeita. Haverá coisas que sentiremos falta ou que nos provocam dor. O que podemos fazer é sermos sinceros sobre os nossos objetivos para aqueles que amamos.


Maureen-Chiquet
Maureen-Chiquet – divulgação

Quem são seus mentores e o que mais te fascina neles?

Sinto que é um processo fluido, na verdade, mentores e “mentorados” se encontrarem. Algumas das pessoas que admiro profissionalmente, felizmente, já foram meus chefes. No livro, conto uma história sobre Fluer, uma mulher que conheci na França, durante meus anos de faculdade. Considero-a como um tipo de mentora, mesmo nunca tendo trabalhado ao seu lado, pois foi ela quem me ensinou a me sentir confortável com o meu corpo. Também cito, no final da publicação, algumas artistas e escritoras que considero mentoras, mesmo não as tendo conhecido. O trabalho dessas pessoas me inspira a pensar de maneira diferente e buscar o que mais amo.


Então, quem são essas mulheres que te inspiraram tanto e por quê?

Florence Welsh, Alice Need, Virgina Woolf, Agnes Martin, Nina Simone, Toni Morrison, Maya Angelou e, claro, Coco Chanel, além de muitas outras. Acho que as mulheres que têm coragem de se expressar plenamente e sem censura são minhas heroínas.


“Precisamos desesperadamente de uma forte liderança feminina durante esse período de incerteza global. O mundo precisa que o som da voz feminina ganhe força e seja ouvida”

Você vê melhoras no cenário corporativo, no sentido de ter mais mulheres assumindo papéis de liderança nas empresas?

Penso que conquistamos, sim, algumas melhorias. Porém, ainda sinto que é necessário um maior número de mulheres no topo da cadeia. Fora que muitas sociedades esperam que nós desempenhemos papéis de cuidadora e donas de casa, por isso, muitas empresas não oferecem salários iguais. Uma das barreiras que devemos transpor é a da cultura corporativa, que, nem sempre, atribui qualidades únicas femininas como sendo essenciais para desempenhar cargos de liderança, por exemplo, empatia, escuta profunda, curiosidade e colaboração. Diferente dos homens, que têm suas habilidades “naturais” – ou atribuídas ao sexo masculino – como capacidade estratégica, competitividade e extroversão, tidas como diferenciais para desempenhar papéis de liderança. Dessa forma, algumas mulheres não se sentem confortáveis em ambientes corporativos.


Quais são as perguntas que permeiam as suas decisões profissionais?

Sempre faço três questionamentos cruciais: O que é importante para mim? Em que eu sou realmente boa? Em que circunstância estou no momento? Ao me fazer essas perguntas, o caminho a seguir já está decidido.


Qual foi a lição mais significativa que você tirou durante todos esses anos de profissão?

No início de minha carreira na GAP, eu era assistente de merchandising e tinha muita certeza das minhas habilidades para captar tendências e criar bons produtos. Quando apresentei minha variedade de jeans ao CEO da empresa, ele me desafiou. Eu insisti que estava certa, e ele continuou me pressionando com uma perspectiva muito válida que, na época, não queria ouvir. No final da reunião, ele ficou incrivelmente irritado e saiu furioso. Mais tarde, me ligou para pedir desculpas, mas disse que eu precisava aprender a ouvir, não apenas ele, mas meus colegas, subordinados, o mundo ao meu redor. Essa lição foi inestimável.


Qual será o maior desafio para a geração de mulheres depois de você??

Precisamos desesperadamente de uma forte liderança feminina durante esse período de incerteza global, maior complexidade e instabilidade ambiental. O mundo precisa que o som da voz feminina ganhe força e seja ouvida.


Maureen Chiquet
Maureen Chiquet – divulgação

Por Camila Rodrigues