Inteligência a Serviço das Cidades

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imagem Shutterstock

Uso da tecnologia transforma a maneira como os cidadãos se relacionam com o local onde vivem. Veja como os conceitos de Cidades Inteligentes podem melhorar a vida nos centros urbanos

Pense em uma cidade economicamente sustentável, que se preocupa com seus recursos naturais e que tem no cidadão seu principal protagonista. Assim são as Cidades Inteligentes, lugares onde tudo é ordenado de modo a tornar a vida de seus moradores a melhor experiência possível. No mundo já são vários os exemplos de cidades que se preocupam com isso. Nova York transformou telefones públicos antigos em plataformas que emitem alertas de segurança, transmitem notícias de interesse público e divulgam eventos. A cidade também conta com um sistema de trânsito monitorado em tempo real por meio de sensores e câmeras que mudam o padrão de temporização dos semáforos de acordo com o fluxo de veículos.

Em Tóquio, um bairro ecológico foca no uso racional de energia e utiliza uma plataforma de automação que indica o melhor momento para utilizar a lavadora de roupas com base em dados meteorológicos. A Holanda possui um sistema inteligente de coleta de lixo que indica os contêineres que estão cheios para que os caminhões de lixo façam a retirada no momento certo, diminuindo o tempo de coleta e a poluição. Paris se preocupa muito com o impacto da poluição causada pelos meios de transporte e por isso investe nos veículos elétricos e bicicletas além de possuir um sistema de metrô 100% automatizado.

Cinco áreas mais beneficiadas pelos conceitos de Cidades Inteligentes

Mobilidade
Com tecnologia implantada nos transportes, a fim de facilitar a vida dos cidadãos e permitir mais acessibilidade. Por exemplo, com mais conectividade e sensoriamento, o gestor consegue monitorar e controlar o tráfego, avaliar os deslocamentos dos veículos e das pessoas em tempo real e suas tendências, podendo assim melhorar o planejamento e a gestão da mobilidade urbana.

População
Com acesso à saúde, segurança e educação de qualidade para os habitantes. A participação cidadã engloba diferentes formas de atuação – social, política, cultural, econômica. O principal objetivo é ter uma governança mais participativa, em que o gestor municipal e o cidadão caminhem juntos e se unam em prol de uma cidade melhor. Outro ponto fundamental é a consciência coletiva das pessoas, é preciso pensar na coletividade e não apenas em si próprio.

Governança
Boa comunicação e transparência são os principais pontos deste tema. Em cidades inteligentes é imprescindível que os gestores estabeleçam uma relação direta com a população para que as demandas e expectativas dos cidadãos sejam de conhecimento do gestor público e as ações da administração sejam mais efetivas e transparentes.

Sustentabilidade
Implementar medidas para um melhor aproveitamento dos recursos naturais, diminuir a poluição e contaminação fazem parte do processo de transformação da cidade. O papel mais importante aqui é a conscientização das pessoas, como a separação do lixo reciclável, a ligação de esgotos clandestinos em rios, o descarte indevido de objetos domésticos. Além disso, incentivar a população a utilizar meios de transportes alternativos ou mais sustentáveis, como as bicicletas e carros elétricos, também faz a diferença.

Qualidade de Vida
Mais humanas e sustentáveis, com soluções implantadas, as cidades inteligentes permitem que haja uma convivência mais harmoniosa e de satisfação para as pessoas que vivem nelas. Nem sempre precisamos de algo revolucionário para mudar a vida das pessoas. Tecnologias já existentes e simples são capazes de transformar todo o cenário.

Fonte: Fabrício Ormeneze Zanini, diretor-presidente do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI)

“Uma cidade inteligente é aquela que usa com efetividade os recursos tecnológicos disponíveis, como meio para propiciar uma vida em sociedade que seja inclusiva, sustentável, segura e confortável. Os principais elementos de uma cidade inteligente são as pessoas, a mobilidade, a inclusão social, o planejamento urbano, o uso da tecnologia e o meio ambiente”, define Fernando Marco Perez Campos, mestre em Engenharia de Produção e professor da Universidade Paulista, Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec) Universidade de Ribeirão Preto e Centro Universitário Claretiano.

Stella Hiroki, consultora e doutora sobre Cidades Inteligentes pela PUC-SP e fundadora da plataforma Smart City Talks, complementa: “Uma Cidade Inteligente é uma cidade primeiro resiliente e sustentável, depois a tecnologia participa como um meio para que as soluções sejam aplicadas no espaço urbano. E dessa maneira, a cidade se torna receptora, mas ao mesmo tempo produtora de projetos de tecnologia que transformam o seu espaço de maneira mais economicamente sustentável, preocupada com os seus recursos naturais e tendo o cidadão como protagonista”.

Antes das Cidades Inteligentes, já experimentamos o desenvolvimento das Cidades Digitais, mais focadas na utilização da tecnologia no espaço urbano, por meio do fornecimento de infraestrutura que permite ao cidadão estar conectado onde ele estiver. Porém, para que uma cidade possa ser considerada inteligente a partir daí, torna-se necessário utilizar esta infraestrutura tecnológica para gerar valor ao cidadão. “Como exemplo, não basta uma pessoa estar no ponto de ônibus com o seu celular conectado à internet se ela não dispõe de um sistema para saber quanto tempo o próximo ônibus irá demorar para chegar”, diz Fernando.

As novas tecnologias irão proporcionar às cidades um avanço incrível e serão as pessoas que estarão fazendo uso de tudo isso, o que exigirá evolução da forma como nós interagimos e as utilizamos” – Fabrício Ormeneze Zanin

E sob este prisma, o papel do cidadão, que é o usuário de todos os serviços de uma localidade, sejam eles públicos ou privados, é primordial. “A cidade deve ser atrativa com relação a aspectos sociais, econômicos e ambientais e os cidadãos devem estar no centro dos programas de inovação e modernização das cidades. Devem participar efetivamente das ações propostas para ajudar a melhorar o município em que residem.

É fundamental a conscientização dos cidadãos quanto ao seu papel e responsabilidade na construção de cidades mais inteligentes, num processo em que eles são o agente de transformação e os principais usuários da cidade”, observa Fabrício Ormeneze Zanini, diretor–presidente do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI), sediado em Curitiba.

Como usar a Tecnologia nas Cidades?

Os benefícios do uso da tecnologia nas cidades aparecem em todas as áreas, porém, de acordo com o professor Fernando Marco Perez Campos, em função da alta demanda em soluções nas áreas de trânsito, segurança e meio ambiente, o maior destaque fica por conta destes três setores.

“No trânsito temos os semáforos inteligentes, o monitoramento de fluxo e de áreas com risco de alagamentos, acidentes e infrações, implantação de uma rede de transporte público autônomo, uso de diversos tipos de veículos compartilhados por meio de aplicativos como, por exemplo, carros elétricos, patinetes e bicicletas. Estas tecnologias, quando integradas, proporcionam um trânsito mais rápido, seguro e com menor emissão de poluentes”.

“Com relação à segurança, hoje contamos com drones que podem monitorar e em alguns casos até atuar em operações contra o crime, câmeras de segurança espalhadas pelas cidades podem estar conectadas a computadores que rodam programas capazes de identificar foragidos por meio do reconhecimento de face ou até mesmo pelo padrão de caminhada, radares fotográficos reportam veículos roubados ou irregulares aos órgãos competentes”.

“No contexto da sustentabilidade, as cidades inteligentes utilizam a tecnologia para o reaproveitamento de água, rápida identificação de vazamentos na rede de distribuição, geração de energia limpa e compartilhada, monitoramento e controle do descarte de lixos recicláveis”.

Cidades Inteligentes Brasileiras

O Brasil ainda engatinha no quesito Cidades Inteligentes, mas possui iniciativas promissoras. Campinas se destaca no investimento em inovação, empreendedorismo, governança e mobilidade. A cidade possui sistemas de alerta da Defesa Civil, zoneamento on-line de imóveis cadastrados, semáforos inteligentes e sistema de consulta de tempo estimado de chegadas dos ônibus em pontos de paradas, entre outros. Neste ano, o município foi eleito pelo Connected Smart Cities o mais inteligente e conectado do país, seguido por São Paulo, Curitiba, Brasília e São Caetano.

Curitiba possui um transporte público muito eficiente e é considerada uma cidade altamente conectada, além de possuir políticas públicas de apoio ao uso de tecnologias como, por exemplo, a lei municipal de inovação.

Santos se destaca por investir nos cuidados com o meio ambiente, possui rotas de ciclovias e uma alternativa ao transporte convencional denominado VLT – Veículo Leve sobre Trilhos. Ainda tem coleta de lixos recicláveis feita por bicicleta e uma fábrica que produz móveis e itens de decoração com materiais reciclados. Porto Alegre monitora as vias públicas por meio de câmeras de segurança conectadas a um centro integrado de comando. A cidade também utiliza ferramentas tecnológicas para zeladoria, como podas de árvores, coleta de resíduos sólidos, recuperação de asfalto e iluminação pública.

“Cidades inteligentes podem existir em qualquer localidade, seja ela pequena, média ou grande. Podemos até pensar que os municípios menores terão mais facilidade de implantação de sistemas modernos de gestão e controle das informações públicas do que as grandes metrópoles, devido a sua maior complexidade”, avalia Gabriel Vendruscolo de Freitas, arquiteto e urbanista, especialista em Geoprocessamento, mestre em Engenharia Urbana e docente da Instituição Universitária Moura Lacerda.

Mesmo nas cidades inteligentes, a educação e a consciência das pessoas com relação ao uso dos recursos naturais, o descarte de lixos e a prevenção de acidentes continua sendo fundamental para a manutenção de uma cidade sustentável, confortável e segura” – Fernando Marco Perez Campos

“O Brasil deve incentivar o meio acadêmico à produção de tecnologias aplicadas às cidades inteligentes. Dispomos de muitos recursos para o desenvolvimento de protótipos com um custo muito reduzido que podem resultar em excelentes produtos aplicados às cidades neste contexto”, diz Fernando Campos.

“A chance de um projeto testado no Brasil funcionar em outras cidades ao redor do mundo é muito maior do que importar uma solução de fora. O Brasil tem mais potencial no planejamento de pequenos e médios municípios como Cidade Inteligente do que no movimento das capitais para as cidades de pequeno porte. Municípios como Viçosa/MG, Joinville/SC e Belo Horizonte são algumas que se destacam no alinhamento entre inovação, tecnologia e planejamento urbano”, observa Stella Hiroki.

Conhecimento Interno

E por onde uma cidade deve iniciar seu projeto para se tornar inteligente? “O passo inicial seria o desenho e o cadastro. Uma cidade que não conhece a localização das suas redes de água, esgoto, drenagem, energia elétrica, os proprietários dos lotes, a quantidade de área construída e de área verde, o uso do solo urbano e rural, não pode ser considerada ‘inteligente’. A criação de um Mapa Urbano Básico seria um bom início. Com esta base cartográfica, a sociedade civil organizada, a prefeitura e os técnicos presentes no município podem avaliar os problemas e as vocações de diferentes áreas da cidade e, de forma comunitária e participativa, produzir um Plano Diretor para um horizonte mínimo de dez anos”, aconselha Gabriel.

“A Cidade Inteligente posiciona o cidadão como protagonista da localidade, pensa em ações de sustentabilidade, produção e tradução de dados e a tecnologia é mais uma ferramenta dentro das propostas de melhorias no planejamento urbano” – Stella Hiroki

“Uma cidade inteligente não nasce de um dia para o outro. É preciso construir um legado de infraestrutura e entender a vocação do município, levando em conta que o maior motivo das cidades existirem é o cidadão” finaliza Fabrício Zanini.

Por Angelo Davanço