Um olhar sobre a Educação

Com mais de 20 anos de atuação na formação de professores e na gestão do ensino, Maria Alice Carraturi fala sobre EAD, tecnologia, desafios do setor e valorização da carreira docente

Maria Alice Carraturi – foto divulgação

Aprofessora Maria Alice Carraturi tem um currículo invejável. Ela é doutora em Educação na Faculdade de Educação da USP (FE-USP), mestra em Educação pela FE-USP, psicopedagoga pela Unicamp e pedagoga pela PUC-SP. Pesquisadora de novas tecnologias para educação e especialista em formação de professores, hoje é diretora de conteúdo da Bett Educar, o maior evento de educação e tecnologia da América Latina. Antes disso, foi reitora/presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) e diretora de Formação de Profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação.

E pensar que tudo isso veio do exemplo que ela tinha em casa. “Minha mãe era professora e incentivou que eu também seguisse a carreira. Por fim, os cinco filhos trabalham na educação. Grande influência dessa professora de anos iniciais de escola pública”, reconhece Maria Alice, que começou a dar aulas quando ainda cursava o Magistério, aos 16 anos. “Era uma pré-escola e comecei como alfabetizadora. A cada vez que estava num nível de escolaridade, atuava também em níveis mais avançados de ensino. Na Pedagogia dava aulas no Magistério, no Mestrado dava aulas na Pedagogia e outros cursos, assumi cargos de gestão universitária, atuei na pós-graduação. Após o doutorado fui reitora, portanto, posso dizer que já atuei em todos os níveis de ensino. Hoje, gosto de trabalhar com estratégias para a educação e com gestão pública”, explica.

Educação a Distância

Maria Alice atua há mais 20 anos em formação de professores e assessorou a implantação de educação a distância em várias universidades no país. “Comecei com a EAD nos anos 2000. Havia muitas barreiras, desde as tecnológicas até as internas – preconceito, falta de conhecimento, poucas pesquisas, pouca prática. Erramos muito ao tentar transpor para a EAD o modelo presencial. Acho que depois de 20 anos algumas coisas mudaram em relação a metodologia e estudos sobre o EAD, a tecnologia é mais acessível e bem mais amigável”, avalia.

Para a professora, a grande contribuição do ensino a distância foi democratizar o acesso à educação superior no país. “Aqui no Brasil, o EAD, quando iniciou no ensino superior, entendeu que era um modelo barato e por isso cobrava mensalidades que custavam 1/3 de uma mensalidade de cursos presenciais. Dessa forma, é um curso mais barato que o convencional, o que propicia que muitas pessoas consigam acessá-lo. Além disso, ele é flexível e alcança localidades onde a educação convencional não chega. Por essas razões podemos dizer que o EAD democratiza o acesso ao ensino superior, o que era impensável para muitos jovens e adultos antes de sua implantação”, diz.

Tecnologia em sala de aula

Com a tecnologia cada vez mais acessível, basta ver o número de jovens e adultos que possuem um smartphone hoje, que permite uma infinidade de ações, como se comunicar, pesquisar, ler, jogar, estudar e acessar informações, produtos e serviços, como seus recursos podem ser utilizados em favor da educação? Para a professora Maria Alice, nós vivemos plenamente em um mundo conectado e a escola também faz parte deste mundo. “Acompanhar o avanço tecnológico é que não é fácil, pois as escolas se preparam para um tipo de tecnologia que é superada rapidamente. Por isso, muito mais importante que adotar País ainda precisa fazer a ‘lição de casa’ novas tecnologias é trabalhar com o pensamento crítico dos alunos. Não é preciso dominar todas as tecnologias vigentes, mas saber para que, como e porquê elas servem”, finaliza.

País ainda precisa fazer a ‘lição de casa’

A professora Maria Alice Carraturi avalia que, como país, o Brasil ainda não fez a lição de casa da alfabetização e da escolaridade satisfatória em cada etapa da educação básica. “Ainda devemos isso para essa geração. Este é nosso principal desafio: Que as crianças e jovens tenham aprendizagem satisfatória na idade certa. As saídas, do meu ponto de vista, devem partir da gestão pública, por exemplo, melhorando a formação de professores, suas condições de trabalho na escola e tornando a carreira atraente e valorizada na sociedade. Sabemos, por estudos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que o elemento de maior impacto na aprendizagem de um aluno é o professor, portanto, a educação só pode melhorar se colocarmos o professor neste lugar de importância que tem numa sociedade que se pretende justa e educada”, diz.

E para melhorar a formação de professores, a educadora defende a criação de uma política nacional de valorização da carreira que começa na formação inicial, percorre as necessidades de atualização profissional na formação continuada, na progressão na carreira e até o professor se aposentar. “Se continuarmos fragmentando cada segmento, continuaremos a ter os mesmos resultados. É importante abrir o diálogo entre a educação básica, que recebe os licenciados, e a educação superior, que forma os licenciados, para que se discuta o que é ser um bom professor na contemporaneidade e desenhar um plano de curto, médio e longo prazo para que o objetivo seja alcançado”, afirma.

Outro ponto que Maria Alice deixa para reflexão é a necessidade de se encarar a formação dos docentes com a mesma seriedade com que se encara a formação de um médico, por exemplo. “Hoje temos 1,6 milhão de matrículas em licenciaturas, a maioria em Pedagogia. Temos que nos perguntar se os mais de 7 mil cursos são de boa qualidade e estão formando os bons professores que efetivarão a aprendizagem dos alunos. Estão? ”, questiona.

Por Angelo Davanço