A Arte como um Negócio

André Costa – foto Guilherme Bordini

Artista visual André Costa se apropria de resíduos da indústria da comunicação para criar obras que já ganharam galerias nos Estados Unidos e na Europa

“Artista visual brasileiro e autor do projeto ‘Arte com Interface Ambiental’, iniciou suas atividades artísticas em 1989, com moldes e métodos convencionais para fabricação de materiais. Em 1999, ele rompe com esse tradicionalismo para desenvolver e aperfeiçoar o que hoje é chamado de projeto ‘Poética dos Resíduos’, que consiste em redesenhar e ressignificar os símbolos e sinais de comunicação de massa dispostos em centros urbanos mundiais. Assim, o autor propõe um diálogo entre arte e comunicação, entre ética e estética, entre o local e o global, criando uma viagem pela imaginação”. Assim a Artevistas Gallery, de Barcelona, define o trabalho de André Costa. “Cores, letras, símbolos e números. Seu trabalho estimula a necessidade de refletir sobre desperdícios e exageros em todo o mundo usando resíduos de comunicação visual. Tudo o que anteriormente nos agrediu, incisão agressiva e poluidora, se torna arte. Com forte influência da Pop Art, suas pinturas mostram a inspiração de Roy Lichtenstein e Andy Warhol”, completa a Lucille Khornak Gallery, de Nova York.

E é assim, trabalhando em seu estúdio em um antigo prédio comercial na região central de Ribeirão Preto, no interior paulista, que este artista vai, aos poucos, conquistando novos mercados mundiais com as suas obras. Um fazer artístico encarado, por que não, como empreendedorismo. “O mais interessante em empreender na arte é considerar profundamente o processo de transformação do material, já que os recursos materiais que utilizo, de certa forma, não têm mais utilidade para a sociedade e, neste ponto, a arte se apropria desses resíduos e os transforma em conceito e produto”, afirma Costa.

Dos materiais que o artista recolhe nas indústrias gráficas e de comunicação visual, surgem obras urbanas, de um colorido intenso, signos que rompem as fronteiras de seu ateliê, repleto de rolos de adesivos, réguas, estiletes, computador e uma plotadora – impressora especial para grandes imagens.

Principal matéria prima do trabalho do artista, o vinil adesivo tem em sua composição solventes e silicone. Material que na maioria das vezes vai para o lixo por não ser reciclável. Não nas mãos do artista. “Minha solução para este problema ambiental é o uso artístico deste material”, explica Costa, nascido em Ituverava (SP), com formação em artes visuais pela Unifran e especialização na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“Empreender é a somatória de vários pilares que, de fato, não representa somente a ideia de ser artista. Se for somente esse fator, a arte, o conceito e possivelmente o produto que ela se torna para o mercado de arte, não existirão”


Como em tudo, empreender na arte exige estudo

Para aqueles que querem empreender no campo artístico, André Costa tem um conselho que, de quebra, serve para tudo na vida. “Em primeiro lugar, estude, estude e estude sempre. Não se empreende nada sem conhecimento. Como dizia Matisse, “um artista sem conhecimento, está fadado ao fracasso’”, cita o artista visual.

Nesta caminhada, vale estudar formas de produção e de escoamento da arte, e como o mercado do setor funciona. “Esse mercado está aqui na cidade de Ribeirão Preto, está ali em Nova York, está em Franca, está em Barcelona, está em São Paulo, está ali nos Emirados Árabes. Tudo são possibilidades, sempre acreditei na minha autonomia, no meu gerenciamento, na minha administração. Isso tudo gera desconforto para o mercado, pois artistas independentes, de certo modo, são massacrados pela dificuldade de escoamento, por isso criei o meu próprio mercado, onde sigo minhas regras e normas de condutas, pautadas em parcerias reais, verdadeiras e equilibradas”, afirma o artista visual.

Outra sugestão para quem quer transformar a arte no seu modo de sobrevivência, é visitar feiras de design, segundo Costa, um ótimo lugar para se conhecer tendências. “Aprenda a apresentar seu trabalho, fale de forma consistente e verdadeira, visite galerias e exposições, conheça pessoas boas, do bem e verdadeiras, faça das suas habilidades manuais, intelectuais, sensitivas e sensórias o seu maior talento. E estude, estude e estude muito, faz bem inclusive para a humanidade”, insiste no conselho.


Arte e Negócio

Trabalhando há 30 anos com artes visuais e produção cultural, André Costa costuma participar de rodadas de negócios de diversos setores e feiras artísticas no Brasil e em outros países. “Sempre me preocupei com o processo de escoamento do trabalho artístico e desta inquietação veio a busca por novos mercados”, diz.

“A economia criativa é a terceira maior economia do mundo. Olhar para a arte com um olhar local, mas com uma visão global, para mim, faz o maior sentido, já que poeticamente a arte é uma linguagem universal, então os negócios que ela representa, se tornam universais”, completa.

Neste movimento profissional, além de cores, formas e texturas, o artista tem de lidar também com questões jurídicas, tributárias e todo o universo comum a quem possui um CNPJ. “Empreender na arte é aprender que as dificuldades são as mesmas dos outros setores, que não somos diferentes de outros empreendedores, pois vivemos as mesmas sistemáticas de mercados, cada um com sua identidade, razões e exigências próprias, peculiares e particulares. Sou um trabalhador da arte, que transforma resíduos da indústria gráfica brasileira em negócios”, finaliza Costa.

Por Angelo Davanço