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Uma Revolução Feita em Blocos


Carl Amorim explica como os protocolos Blockchain vão impactar nas relações de produção e consumo, gerando novas oportunidades econômicas e sociais para todos. E atenção, a revolução só está começando


Carl Amorim, representante do Blockchain Research Institute no Brasil – Foto Fabiano Accorsi

Imagine uma relação de consumo em que você tenha acesso a informações sobre cada etapa de produção de determinado item, ou a concretização de um negócio, a compra de um imóvel, por exemplo, sem a necessidade de um intermediário para validar o contrato. Pense em um ecossistema produtivo em que blocos de informações se cruzam para legitimar processos. Pois muitos destes conceitos já existem ou estão em vias de acontecer graças ao Blockchain.

“Deixando de lado o tecniquês e os detalhes que só interessam aos desenvolvedores e concentrando no que é importante, podemos dizer que o Blockchain é uma tecnologia que permite a transação de ativos – dinheiro, títulos mobiliários e imobiliários, dados pessoais, votos, obras de arte, direitos autorais, ativos físicos e até energia”, define Carl Amorim, Country Executive do Blockchain Research Institute no Brasil, engenheiro civil, mestre e doutorando em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em termos práticos, o Blockchain será o protocolo de valor onde as novas tecnologias como inteligência artificial, drones, internet das coisas, vão rodar.

“Ele dará a segurança, a resiliência, a transparência e a confiabilidade que as transações de ativos exigem, garantindo o processamento dos contratos, efetuando pagamentos a partir de gatilhos programados”, completa Amorim.

Em termos estruturais, o Blockchain se configura como uma rede que funciona com blocos encadeados e seguros, que carregam um conteúdo junto a uma impressão digital. Esta cadeia de blocos permite que o bloco posterior contenha a impressão digital do anterior mais o seu próprio conteúdo. A partir destas duas informações, o bloco cria sua própria impressão digital e assim por diante.

“Em resumo, o que isso quer dizer é que eu posso trabalhar com moeda, com dinheiro, sem precisar de um banco, posso trabalhar com certificação e registros de documentos sem precisar de um cartório, posso trabalhar com títulos de valores mobiliários sem precisar de uma bolsa de valores, posso fazer operações financeiras absolutamente sofisticadas sem qualquer intermediário no caminho, posso certificar origem de bens sustentáveis, orgânicos, obras de arte, sem precisar de uma certificadora, eu posso votar sem um tribunal, ou um intermediário dizendo que aquele voto é valido ou certificar meu título de eleitor, então quer dizer que eu tiro o intermediário, mas passo estas informações para uma rede distribuída, que é remunerada pela execução daquelas transações. Vale dizer que eu saio de uma única unidade certificadora, que atrapalha e encarece os processos, e passo isso para um protocolo que vai validar, por meio de uma rede de trabalho, prova de participação e alguns mecanismos e processos, tais procedimentos”, explica Amorim.

Como exemplo prático de aplicação do conceito Block-chain, Carl Amorim costuma usar o caso da rede de hipermercados norte-americana Wall Mart. “A rede fez um projeto piloto para entender como o Blockchain poderia rastrear a cadeia de alimentos deles. Testaram com dois tipos de alimentos, um foi a manga e outro foi a carne de porco, e a partir destes testes chegaram à conclusão que o Blockchain irá efetivamente trazer ganhos não só na segurança alimentar, mas também nos processos. A partir daí estabeleceu-se que o Wall Mart só vai receber fornecedores, a partir de 2020, que estejam na cadeia de blocos que eles possuem, ou seja, a companhia está forçando o estabelecimento de um ecossistema de fornecimento de alimentos para a sua cadeia”, diz.

Blockchain não é só tecnologia e criptomoeda

Quando perguntado sobre os conselhos que poderia dar para quem quer se aprofundar no conceito de Blockchain, Carl Amorim tem a resposta na ponta da língua: “Meu principal conselho é a pessoa entender que o Blockchain não é uma revolução tecnológica, mas sim uma revolução política, social e de modelos de negócios. Então, preocupar-se apenas com as criptomoedas é péssimo, porque você só vai ver parte do negócio, não vai ver como um todo e não vai conseguir entender o impacto que ele vai causar. Eu recomendaria olhar o Blockchain efetivamente como uma tecnologia nova que vai gerar inovações em diversas áreas. Quem quer entender como o Blockchain atua na sua área, tem que começar investindo em livros ou em cursos que olhem a cadeia de blocos pelo lado dos negócios, e a partir desse entendimento e da interação com quem vem fazendo as coisas, começar a investigar como isso vai impactar naquilo que a pessoa gostaria de fazer.

Você não atua no mercado do Blockchain, você vai atuar no seu mercado em baixo do impacto que o Blockchain vai causar nele”.

“Eu diria que em cinco ou seis anos, ninguém vai se preocupar em saber o que é o Blockchain, mas ele vai ser a base de tudo o que a gente está fazendo”

Casos de uso de Blockchain

As tecnologias Blockchain são um divisor de águas em potencial para muitos mercados porque organizam atividades com menos dificuldade e mais eficiência. Confira alguns usos e áreas beneficiadas em potencial:

Internet das Coisas

• Gerenciamento de dispositivos

Assistência Médica

• Registros médicos eletrônicos
• Bancos de vírus
• Backup da área segura
• Contratos de seguro entre médico e fornecedor

Serviços Financeiros

• Cartas de crédito
• Dívidas e obrigações corporativas
• Plataformas de comércio
• Remessa de pagamento
• Acordos de recompra
• Mercado de câmbio

Seguros

• Processamento de reclamações
• Seguros P2P
• Títulos de propriedade
• Vendas e subscrição

Governo

• Processos de concorrência do governo
• Voto
• Impostos

Indústria

• Processos de manufatura

Varejo

• Pontos de fidelidade

Vários segmentos de mercados

• Gerenciamento de identidade
• Mercado de confiança
• Gerenciamento de ativo de capital

Outros mercados

• Jogos • Música

Fonte: IBM

“O que vai acontecer é que o Blockchain vai permitir formas de trabalho que hoje não são possíveis com os mecanismos que a gente tem, e serão formas de trabalho mais eficientes e mais eficazes”

Impacto no Futuro

O futuro que se abre para os negócios a partir do Blo-ckchain é imenso, uma vez que, se adotados protocolos em sua totalidade, surgem ganhos exponenciais. Eliminado trabalhos mecânicos intelectuais – a necessidade de uma pessoa para emitir uma transferência financeira, para fazer uma conferência de dados, uma negociação de frete, por exemplo –, torna-se possível fazer a substituição por contratos inteligentes, baseados em inteligência artificial, internet das coisas, em cima de um protocolo de Blockchain, possibilitando que as empresas foquem no que realmente é importante para os negócios. “Permite que as empresas distribuam seu processo de produção, de fabricação, ou seja, eu vou poder fabricar de forma distribuída meu produto com garantia de que não estou sendo roubado ou que aquilo não está sendo falsificado. Estima-se que até 2030, todo bem de consumo vai ser produzido a menos de 20 quilômetros de onde ele está sendo consumido. A ideia da grande fábrica, que abastece um país inteiro, ou o mundo todo, corre o risco de acabar em breve, então as empresas vão, em um extremo, poder chegar a um modelo de negócios onde, para montar a minha corporação eu vou ter um leque de serviços e de profissionais que vou contratando para desempenhar certas tarefas e, de acordo com a sua prova de trabalho e com a produção, eles são remunerados, tudo isso controlado pelo Blockchain e por inteligência artificial”, avalia Amorim.

Há, ainda, a expectativa dos entusiastas do conceito de que ocorra a inclusão de todo um grupo de pessoas que está excluído dos processos econômicos. “Se eu posso fazer captações de dinheiro baseadas em Blockchain, se eu posso ter moedas comunitárias, se eu posso ter produção local das coisas, eu vou fazer o dinheiro circular nas comunidades mais vezes, ao contrário de ele ser concentrado para enviar para grandes centros ou para grandes áreas produtoras, para a China, para países da Ásia, que produzem mais barato, ou para grandes redes prestadoras de serviço internacionais. Você vai ter um giro maior do dinheiro na economia local, o que vai possibilitar o surgimento de uma estrutura de pequenos negócios via Blockchain, promovendo desenvolvimento econômico e social para as pessoas”, prevê Amorim.

Glossário básico do Blockchain

Confira o significado dos principais termos quando o assunto é uma cadeia de blocos:


Blocos e Blockchain

Uma rede ponto a ponto (P2P) de Blockchain usa um livro razão distribuído onde as transações de negócios são registradas permanentemente. O livro razão age como uma única fonte de verdade, permitindo que participantes visualizem somente as transações relevantes para eles. Todos os blocos de transação confirmados e validados são vinculados e encadeados a partir do início da cadeia até o bloco mais atual, por isso o nome Blockchain.

Transações, ativos e consenso

Uma transação é uma transferência de ativo para dentro ou fora do livro razão. Qualquer coisa que possa pertencer ou ser controlada para produzir valor é um ativo. Ativos podem ser tangíveis (uma casa ou um carro) ou intangíveis (uma hipoteca ou um financiamento). O livro razão torna-se o sistema de registro para um negócio. As entradas no livro razão são sincronizadas com todos os livros razão na rede. O consenso assegura que esses livros razão compartilhados sejam cópias exatas e reduz o risco de transações fraudulentas, porque a violação precisaria ocorrer em vários locais exatamente ao mesmo tempo.

Assinaturas digitais

Assinaturas digitais asseguram que o destinatário receba as transações sem partes intermediárias modificando ou falsificando o conteúdo das transações, enquanto também asseguram que as transações sejam originadas de emissores (assinadas com chaves privadas) e não de impostores.

Criptomoedas

Criptomoedas são um tipo de token criptográfico baseado na tecnologia Blockchain que atua como um ativo monetário, pois permite a transferência e a reserva de valor.
Fontes: IBM e Bit2Me Academy

Por Angelo Davanço