Vai empreender? Pense bem!


Executivo da área de marketing, Fábio Rodrigues conta em livro suas experiências com o empreendedorismo e aconselha: “Na dúvida, não empreenda”


Fábio Rodrigues – divulgação

Quem nunca sonhou ser dono de sua própria agenda, afastar a possibilidade de ser demitido e não ter de suportar as demandas de um chefe chato. De quebra, enriquecer, cuidando de algo que é realmente seu. Essas são algumas das razões que têm levado cada vez mais brasileiros a empreender. Tais motivações, entretanto, são encaradas com ressalvas por Fabio Rodrigues, empresário e autor do livro “Na dúvida, não empreenda” (Editora Migalhas).

Narrado em primeira pessoa, a publicação é um relato pessoal de Rodrigues, executivo que trilhou uma carreira bem-sucedida nas áreas de marketing e vendas em multinacionais como Microsoft e Nokia e, no ápice de sua trajetória corporativa, resolveu empreender. Desde 2011, quando deu início a essa empreitada, fundou quatro empresas. As dificuldades durante essa jornada foram inúmeras e a experiência lhe alçou ao papel de consultor entre seus conhecidos. “Meu livro chega como aquele amigo que nos diz a verdade direta, mesmo que ela seja dura de ouvir”, comenta o autor, que fala mais sobre os desafios de se empreender na entrevista a seguir.

Como foram até aqui as suas experiências como empreendedor?

Eu sou empreendedor por vocação. Eu vendia balas na escola aos 10 anos. Aos 14 ou 15 anos fazia festas profissionais no quintal da minha casa para centenas de colegas do colégio. Desde cedo me senti bem correndo estes riscos e fazendo contas de oferta e demanda, margem e lucro, mesmo que de forma intuitiva. E este é o grande ponto que me levou a escrever o livro e a conversar muito com diversas pessoas que desejavam abrir seus negócios, mostrar a todos que empreender não é fácil. Não passa nem perto da vida glamorosa que se propagandeia em cima dos palcos.

Empreender significa acordar todo dia desempregado, buscando seu salário. Significa não ter férias, não ter garantias, ter compromissos que podem te quebrar, ter insônias frequentes, preocupações com outras pessoas da maneira que você nunca teve antes e assim por diante.

É possível abrir um negócio sem ter a vocação?

Claro que é! Mas vai precisar de ainda mais atenção e preparo prévio. Exemplo, se você não é um lutador de classe mundial, por que enfrentaria o Mike Tyson ou o Anderson Silva? No entanto, se você quer lutar mesmo assim, continue, mas enfrente alguém do seu próprio nível. No mundo do empreendedorismo, significa abrir algum negócio que você tenha condições de gerenciar, que você tenha condições de estabelecer. Assim como os lutadores se preparam, treinam, você também tem que fazer isso. E no mundo do empreendedorismo o preparo se chama estudo. As técnicas se chamam ferramentas. Busque por elas. Até hoje eu abri cinco empresas e fechei quatro. A primeira abri durante a faculdade com minha família e este foi o negócio bem-sucedido da minha irmã por 12 anos. Após sair da Nokia abri mais quatro empresas. A U5 Eventos – primeira da lista -, se transformou na U5 Marketing – a quarta -, minha atual empresa, que tem unidades no Brasil e na Europa. As outras duas empresas foram experiências incríveis que abri com sócios e deram bastante resultado, mas não o suficiente para se transformarem na minha principal fonte de atenção. Desta maneira, foram encerradas tranquilamente, sem deixar traumas.

O que os desafios de empreender ensinaram?

O principal ensinamento é o profissionalismo. Empreender requer muito estudo e preparo, além do trabalho. É como aquele ator de teatro. São infinitas horas de estudo, aprendizado, ensaio, para depois subir no palco, fazer uma boa peça e as pessoas dizerem que “você tem o dom”.

É possível aprender a empreender?

A resposta para esta pergunta é sim e não. Primeiro, faz-se necessário definir o que é empreender. Neste caso, estamos falando de abrir uma empresa, definir um produto ou serviço, criar um modelo de venda, investir, ter funcionários, correr riscos. Nesta definição, empreender não é igual a prestar um serviço individual, vendendo sua própria capacidade de entrega. Levando em conta essa definição de empreender, eu certamente não poderia recomendar a qualquer pessoa que pegasse seu capital, ou pior, criasse dívidas, para abrir um negócio. Porém, há formas de abrir uma empresa, reduzindo muito o risco de quebrar. Empreender tem elementos básicos a qualquer atividade profissional. Requer muito estudo, preparo, investimento, adequação. Por exemplo, você pode se formar dentista, mas pode não se adaptar às demandas que esta profissão requer.

Oito horas por dia sentado cuidando das bocas dos seus clientes como um artesão. Mesma coisa para ser um chef de cozinha. Pode parecer muito glamoroso, mas a realidade se faz com muito trabalho, cortar cebola, limpar panela, ir à feira, para em 20% do seu tempo, combinar sabores. E além disso, estas duas profissões requerem mais uma alta dose de trabalho além das horas de sua vocação, que são as demandas burocráticas do dia, como falar com contador, alugar sala, pagar boletos, contratar funcionários, comprar café, definir vestimentas, fazer propaganda. Se a pessoa se propuser a empreender, é imperativo que se prepare antes.

Aprenda a gerenciar um fluxo de caixa, entradas e saídas. Aprenda a testar seu produto/serviço. Tem demanda? Tem concorrentes?

Tenho uma ideia e quero empreender. Quais devem ser os meus primeiros passos?

Sem dúvida nenhuma que o primeiro passo deve ser buscar conhecimento. Ir ao Sebrae, fazer um curso de fluxo de caixa, entender o mercado desta ideia. Existem muitas ferramentas gratuitas disponíveis na internet e nos cursos do Sebrae para você testar esta ideia antes de investir e lançar.

Não gaste dinheiro pagando por cursos caríssimos de pessoas que vão te ensinar motivação. Procure cursos sérios, de organizações reconhecidas.

Quais os seus conselhos para quem pensa em empreender?

Estude muito antes. Não vá assistir palestras de grandes empreendedores. Vá conversar com aquele seu tio que tem uma padaria há 20 anos. Ou aquele amigo que abriu aquele site há 15 anos. Procure referências reais, não de palco. Estes podem lhe explicar como funcionam de verdade, impostos, fluxo de caixa, contratação, leis, regras, demissões, processos.

E para quem já está na carreira empreendedora?

Tenha uma planilha de fluxo de caixa com a previsão/realidade de todos os seus gastos e faturamentos pelos próximos 12 meses. Só ela salva!!!

Fábio Rodrigues
Fábio Rodrigues – divulgação

Mitos e Verdades sobre o Empreendedorismo

A pedido da revista Empreende, Fábio Rodrigues listou cinco mitos e cinco verdades ligadas ao mundo do empreendedorismo. Confira:


MITOS

1. Empreender é fácil

Não é! É arriscado, caro e complexo. Deve ser feito devagar e com muitos testes. Você pode quebrar quantas vezes quiser, mas não pode quebrar de maneira definitiva


2. Empreender é para qualquer um

Existem muitas formas de empreender, umas mais simples (vender o seu serviço) e outras mais complexas (abrir uma empresa), mas todas são difíceis e requerem estudo, preparo e atenção.


3. Plano de negócios resolve tudo

É apenas uma pequena parte, importantíssima, mas pequena, no processo de se empreender.


4. Preciso de uma grande ideia

Não, não precisa. Apenas de uma melhoria em algum processo, produto ou serviço que você já conheça bem.


5. Não preciso de dinheiro

Precisa de dois tipos de dinheiro: um para abrir a empresa e outro para viver enquanto abre a empresa.


VERDADES

1. Fluxo de caixa

Esta é a coisa mais importante da sua empresa. Lembre-se sempre disso.


2. Sociedades e parcerias

Provavelmente você não precisará de sócios no seu negócio, mas precisará, e muito, de parceiros.


3. Pense simples

Não precisa criar nada excepcionalmente fantástico, basta observar uma melhoria em algum processo, serviço ou produto que você já conheça muito bem.


4. Teste sua ideia

Se é complexo demais para criar/lançar, não faça em sua primeira tentativa. Teste suas ideias à exaustão.


5. Vá com calma

Comece pequeno e venda primeiro para seus amigos, depois para sua rede de contatos, depois para o mundo.

Por Angelo Davanço