Atleta Empreendedor


Gustavo Borges – Foto Emiliano Capozoli

O ex-nadador Gustavo Borges, quatro vezes medalhista em Jogos Olímpicos, fala sobre as lições que o esporte pode oferecer a quem quer empreender

Aos 47 anos, o ex-nadador Gustavo Borges tem seu lugar garantido na história esportiva do Brasil. Afinal, detém a marca de maior colecionador de medalhas em competições internacionais, 35 no total, incluindo as quatro medalhas que conquistou em quatro edições de Jogos Olímpicos em que participou, de 1996 a 2004, em Barcelona, Atlanta, Sydney e Atenas. Uma carreira dentro da piscina que começou a ser construída ainda criança, em Ituverava, no interior paulista.

“Se eu fosse colocar a minha carreira em blocos, ela seria dividida em quatro. Primeiro, uma natação infantil, com oito anos foi a minha primeira medalha. Com nove anos, eu estava mais organizado e isso se estendeu até os 14. A segunda etapa foi uma transição de um bloco formativo para um competitivo, que vai até o final da minha fase aqui no Brasil, que é uma etapa não profissional, mas muito competitiva, quando entro para a seleção brasileira, conquisto títulos e a coisa começa a ficar mais séria. Depois, vem a transição para o profissionalismo, que aconteceu ali por volta de 1991 e que se estendeu até o ano 2000. Uma fase em que tive meus melhores resultados e onde tudo aconteceu: patrocínios, questões financeiras, desenvolvimento profissional, imersão nas áreas onde eu precisava me aprofundar tecnicamente e emocionalmente, quando me formei em Economia pela Universidade de Michigan. E a última fase, de 2000 a 2004, de transição para a vida normal, para uma vida de empresa, que levo até hoje”, relembra Gustavo.

Além da fase de afirmação enquanto atleta, o ex-nadador e hoje empreendedor encara o último período de transição como um dos maiores desafios enfrentados em sua carreira. “A transição é uma fase muito complexa na vida de um atleta, pois você envelhece muito jovem, com 27, 28 anos, que era o meu caso em 2000. Você está jovem para a vida, mas está velho para o esporte, pois tem um outro atleta, com 21, 22 anos, querendo te superar”, avalia. E foi nesta fase, em que se deparou com os questionamentos de como seria sua vida fora das piscinas, que Gustavo começou a moldar o seu futuro a partir dali. “A maior dificuldade que encontrei foi perceber quais as expectativas de trabalho que eu teria na vida pós-atleta. Quando você analisa isso, pode ter dinheiro, pode ter conhecimento, pode ter uma série de coisas, mas se não tem perspectiva e não sabe muito bem para onde vai, fica muito complicado”, garante.

“Precisamos exaltar um pouco mais esta emoção pelo resultado, a emoção da entrega e tudo aquilo que a gente quer construir dentro da empresa”

Analisada a perspectiva, chega um segundo desafio, de acordo o ex-nadador, que é desenvolver as competências necessárias para a área onde se deseja atuar após uma transição de carreira. “No meu caso, pense o seguinte: durante 30 horas por semana, eu me dedicava à atividade física, se colocar alimentação e descanso, que também fazem parte do resultado final, é um trabalho de 40, 50 horas por semana, em que a gente está se dedicando completamente a isso, pensando, exercitando e fazendo tudo aquilo para a busca do resultado. Então, se consigo ter excelência fazendo tudo isso dentro do mundo do esporte, se eu dedicar o mesmo número de horas, a mesma intensidade, o mesmo foco que eu tive naquilo que eu fiz, fora da minha área de atuação esportiva, no mínimo, eu vou ser mais ou menos bom naquilo que eu decidir fazer. Acho que isso é um grande aprendizado do esporte. Se eu colocar a perspectiva como um desafio, saber para onde eu vou, e a questão de desenvolvimento de competências, que é estudar, tomar uma decisão, ir lá e fazer, o negócio anda com certa facilidade ou pelo menos de forma mais organizada para o caminho que a gente quer seguir”, explica.

E o caminho seguido por Gustavo o levou a empreender em várias frentes: na criação de uma metodologia de ensino de natação presente em mais de 430 academias no Brasil e fora do país, na abertura de academias próprias de natação e de fitness, na atuação como comentarista esportivo na Rede Globo e na sua presença nos palcos corporativos como palestrante motivacional.

Palestra Gustavo Borges – Foto Emiliano Capozoli

A Importância do Trabalho em Equipe

São clássicas as imagens do nadador comemorando sozinho, dando socos na água e no ar, quando conquista uma medalha ou bate um recorde. Em sua carreira, Gustavo Borges foi detentor de 14 recordes nas piscinas, mas não esquece a importância do trabalho em equipe, seja na natação ou no empreendedorismo.

“Fazendo uma relação entre o esporte individual, na sua execução, e o esporte coletivo, na sua essência e prática, quando eu pulo na piscina, participo de um esporte individual, é o meu resultado que acontece ali, para quem está vendo. Só que tudo aquilo que você faz antes de chegar na piscina é coletivo, pois você precisa de uma equipe para treinar. Você precisa ser forçado durante o treino por um amigo, um colega, um treinador.

Tem toda uma equipe interdisciplinar ali, o treinador, o companheiro de time, o nutricionista, o psicólogo, o fisioterapeuta, o cara da musculação, todos focados no seu resultado e no resultado do time. Muitas vezes, quando eu ganho uma medalha individual, estou carregando todas as pessoas para dentro da piscina, para cima do pódio, e isso é uma questão muito importante”, reconhece.

Agora, levando para o campo do empreendedorismo: “Quando a gente fala de uma equipe de alto desempenho, falamos da responsabilidade de cada pessoa do time para alcançar o resultado. Então, você tem objetivos claros, tem o companheirismo, a união, o trabalho em cooperação, pessoas envolvidas com o seu resultado e você só consegue vencer, só consegue chegar até o final e ganhar a medalha de ouro se tiver tudo isso muito bem organizado. Se você faz um trabalho mais ou menos, o resultado será mais ou menos. Se você faz um trabalho com excelência, com uma equipe focada em alto desempenho, aí o resultado é de alto desempenho, e aí a medalha surge”, finaliza o ex-nadador

“Se você faz um trabalho mais ou menos, o resultado será mais ou menos. Se você faz um trabalho com excelência, com uma equipe focada em alto desempenho, aí o resultado é de alto desempenho, e aí a medalha surge”

As Lições do Esporte para o Empreendedorismo

Empreender em um país como o Brasil, de economia instável e cenários políticos que mudam a cada dia, pode parecer algo como competir em uma prova de longa distância. Não que seja necessário ser um atleta olímpico para empreender, mas é preciso ter um bom fôlego para não desistir. Para Gustavo Borges, muitas das lições do esporte ajudam na questão do empreendedorismo. “Ter características que um atleta de alto rendimento tem, especialmente coragem, capacidade de assumir riscos, de adaptação, consistência e paixão, independentemente se a economia está boa ou ruim, se o governo está assim ou assado, são fundamentais para se fazer bons negócios”, orienta. Confira, a seguir, outras dicas do ex-nadador e empreendedor:

Coragem

“Precisa ter coragem, pois, no Brasil, não é fácil empreender, com leis trabalhistas, questões tributárias, regulamentações que realmente fazem uma força contra o empreendedor”.

Assumir Riscos

“Quando você empreende, está colocando sua energia, sua vontade dentro de um negócio que só tem uma saída: ir para a frente. Então, todas as suas fichas estão ali para que o negócio tenha resultado, e isso é um risco tremendo”.

Adaptação

“Tem que ter um alto nível de adaptação às coisas que acontecem ao nosso redor, é preciso se adaptar ao cenário, às coisas que mudam, estar ligado na inovação, no que vai acontecer”.

Consistência

“A consistência é fundamental para o resultado de qualquer pessoa. Quanto mais consistente, mais persistente você é nas suas ações, mais você terá chance de seguir em frente e ter bons resultados”.

Paixão

“Você só vai fazer uma coisa por muito tempo, e seguidas vezes, com muita dedicação, se for apaixonado por aquilo. Você canaliza toda sua energia emocional para a entrega que precisa fazer, e isso traz todo um grau de foco naquilo que você quer como resultado”.

Palestra Gustavo Borges – Foto Emiliano Capozoli

“Quando estamos empreendendo, a gente esquece um pouco de celebrar as pequenas vitórias”

Aprendizado do Esporte

Para Gustavo Borges, as principais características de um empreendedor se relacionam com as de um atleta de alto rendimento, como os atletas olímpicos, ou com as pessoas que buscam uma atividade física para resolver algum problema ou por algum outro objetivo específico. “Se você pegar todo aquele aprendizado do esporte, de ter objetivos claros do que se quer fazer, do planejamento, da disciplina, da persistência, da dedicação, da coragem de assumir riscos, tomar decisões que são muito importantes para que o resultado aconteça, se conseguir resgatar esta memória, tudo aquilo que fez para empreender com o próprio corpo, você consegue, sim, se dedicar, tendo foco e disciplina, em alguma outra coisa e, com certeza, será bom naquilo que se propõe a fazer”, avalia.

E outra característica do esporte que Gustavo traz para o empreendedorismo é a importância da comemoração. “Dentro do esporte, em cada competição que você vai, você comemora o resultado, celebra cada etapa cumprida.

Quando estamos empreendendo, a gente esquece um pouco de celebrar as pequenas vitórias, de olhar para este semestre, este mês ou esta semana e ver os resultados. Precisamos resgatar um pouco dessa memória. Se a gente trouxer as lições do esporte, de que são as pequenas competições, as preparatórias que levam ao grande resultado, conceitualmente é tudo muito parecido. Só precisamos exaltar um pouco mais esta emoção pelo resultado, a emoção da entrega e tudo aquilo que a gente quer construir dentro da empresa”, aconselha.

Por Angelo Davanço