Comida com Lembranças da Infância

A vontade de trabalhar com algo que fizesse sentido na sua vida fez com que Cafira buscasse os sabores e aromas presentes na sua infância para criar novas receitas – foto: Marina Nacamuli

A chef piauiense vem conquistando a atenção dos paulistanos com seus sabores marcantes e sua postura diferenciada à frente dos negócios

Criada no meio de aromas e rituais culinários, que envolvem muito mais do que a mistura de ingredientes e temperos, a chef piauiense Cafira Foz, de 35 anos, não imaginava que viria a trabalhar com culinária. Muito menos que se tornaria um dos nomes mais promissores da gastronomia brasileira, chegando a conquistar uma posição na categoria Bib Gourmand do aclamado Guia Michelin.

Uma das razões para manter essa ideia distante, foi a escassez de cursos especializados em seu Estado. “Vim para São Paulo, com 19 anos, em busca de novos caminhos. Cheguei sem dinheiro e sem saber o que fazer da minha vida”, lembra. A cozinheira – como gosta de ser chamada -, antes de descobrir sua vocação, passou por diversos trabalhos, que, de alguma forma, formaram alicerces firmes para o seu futuro. “Trabalhei por muito tempo no varejo, em hostel, fazia freelas; tudo que rolava, eu encarava. Mas sentia que precisava encontrar algo que fizesse sentido para mim, que clareasse a minha mente”, conta.

Despertar da Vocação

Em meio a tantas ocupações, a piauiense mantinha, mesmo que de forma tímida, o ato de cozinhar presente em seu cotidiano. “A minha ex-sogra gostava de organizar jantares em casa para convidados. Eram reuniões intimistas e ela me chamava para fazer o menu. Nessas ocasiões, fui descobrindo que, na verdade, a cozinha já estava dentro de mim intuitivamente”, diz.

Porém, foi durante uma viagem à Europa, em um pequeno restaurante tailandês, que a chef vivenciou uma experiência que culminaria em seu despertar definitivo na gastronomia. “A cada colherada, sentia os sabores que me remetiam a minha infância no Piauí: o cuscuz, o coentro, o leite de coco e a cúrcuma utilizados na preparação. Ali, do outro lado do continente. Naquele momento, soube que queria cozinhar”, lembra com carinho do ocorrido.



“Eu sempre soube que queria trabalhar com mulheres. Era muito claro para mim que, se um dia montasse um negócio e tivesse a oportunidade de empregar funcionários, essas pessoas seriam mulheres”

Após o despertar, Cafira passou anos estudando, testando receitas, resgatando memórias afetivas e construindo pratos que mantivessem a cultura nordestina, especialmente a sertaneja, viva em suas preparações, e que fosse passada da melhor forma, respeitando as particularidades de cada produto, para seus futuros fregueses. “Fiz alguns cursos e testes de receitas com parentes e amigos e, em julho de 2017, abri o Fitó”, conta. O nome é um apelido de infância da cozinheira dado por sua mãe. “O restaurante é uma extensão da minha casa. A princípio, a ideia original era para ser lá, mas depois vimos que, talvez, o espaço não fosse suficiente e as oportunidades apareceram”, afirma.

Sabores da Primeira Infância

Para a profissional, foram os sabores descobertos em sua primeira infância, no sítio de seus avós, no Piauí, bem próximo do Maranhão, que deram base, mesmo inconsciente, para que ela pudesse desenvolver uma identidade própria e uma postura calorosa. “É muito mais sobre afeto e receber”, diz. Todo o carinho recebido ao longo de sua vida é revivido, segundo a chef, em receitas que a fazem lembrar de sua história, como, por exemplo, o feijão de caldo grosso cozido lentamente com abóbora, preparado por sua avó. “A lembrança é vaga, mas a saudade projeta para esse sentimento. Como boa canceriana, sou apegada às minhas memórias e à família”, destaca.

Extensão de Casa

Entretanto, mesmo decidida em ter um lugar de aconchego e comida nordestina, Cafira teve que enfrentar os desafios de abrir um restaurante na cidade de São Paulo, que abriga mais de 13 mil estabelecimentos com 52 cozinhas distintas. “Na capital paulistana, os restaurantes dão a ideia de diversidade cultural – tem para todos os gostos. Ótimo para os turistas e arriscado para os empresários. Estamos localizados no Largo da Batata, região de Pinheiros, local de constante acessão gastronômica”, pontua. Ela enfatiza, que, nesse caso, a concorrência é o maior desafio a ser enfrentado. “Conseguir um público cativo para eleger seu restaurante como o melhor, não perder a capacidade de se reinventar e atrair novos clientes são lutas diárias”, conta

Um dos pontos primordiais na construção do restaurante, de acordo com a cozinheira, era montar uma equipe 100% feminina. “Sempre soube que queria trabalhar com mulheres. Era muito claro para mim que, se um dia montasse um negócio e tivesse a oportunidade de empregar funcionários, essas pessoas seriam mulheres”, ressalta.

Para aqueles que acham a atitude um tanto severa, já que o país passa por sérios problemas de desemprego, Cafira expõe uma problemática enfrentada diariamente. “Me perguntam muito se isso não é uma ‘discriminação’ com os homens, e eu acho graça. Quem coloca dessa maneira não tem a mínima ideia da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Chamo de reparação histórica, mas sei que ainda não é suficiente”, conclui.



Reconhecimento Mundial

Prestes a completar dois anos de casa, o Fitó não é reconhecido apenas por moradores da região e apreciadores de comida regional de qualidade. O restaurante acaba de conquistar, pela segunda vez, um lugar na disputada categoria Bib Gourmand do conhecido mundialmente Guia Michelin, que seleciona restaurantes que oferecem comida de qualidade a preços moderados. “Ainda não conseguimos mensurar tudo isso – a colocação ainda é recente.

Mas, certamente, aumentarão as críticas, as pessoas começarão a nos visitar por curiosidade ou para comprovar se o restaurante é tudo isso mesmo. Podem vir, estamos preparados”, brinca Cafira.

Por Camila Rodrigues