Educação a Distância cada vez mais Perto dos Alunos

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EAD cresce no ensino superior brasileiro e apresenta oportunidades e desafios para instituições de ensino, professores e estudantes

Aprender algum ofício a distância não é necessariamente algo novo na história da educação brasileira. Registros da Associação Brasileira de Ensino a Distância (ABED) dão conta de que em 1904 já existiam anúncios em jornais do Rio de Janeiro oferecendo cursos de datilografia por correspondência. Nos anos 30 e 40, surgiram instituições, como o Instituto Universal Brasileiro e o Instituto Monitor, que se notabilizaram por oferecer cursos a distância das mais variadas disciplinas. De manicure a técnico em eletrônica, de mecânico a cozinheiro, a informação circulava em um ritmo frenético via Correios, programas de rádio ou de televisão.

Com o surgimento da internet comercial nos anos 80 e a popularização de novas tecnologias, abriu-se uma nova possibilidade de difusão da informação e, claro, a educação a distância deslanchou. A partir deste período, várias universidades passaram a formalizar suas iniciativas em EAD, culminando na criação, em 1996, da Secretaria de Educação a Distância (SEED), do Ministério da Educação (MEC). Naquele mesmo ano o EAD no Brasil passou a contar com uma legislação abrangente que hoje garante, por exemplo, a validade de diplomas emitidos pelos cursos nesta modalidade de ensino.

Ao ampliar os seus braços, atingindo municípios e parcelas da população antes inalcançáveis por questões de estrutura ou de valores de mensalidades, o EAD brasileiro experimenta hoje um avanço sem precedentes. Segundo o Censo de Educação Superior 2018, divulgado pelo MEC em setembro do ano passado, o número de vagas ofertadas no ensino superior a distância no Brasil superou as do ensino superior presencial pela primeira vez na história.

Em 2018, foram 13,5 milhões de vagas oferecidas para um curso de educação superior no Brasil. Delas, 7,1 milhões foram para cursos a distância, enquanto 6,4 foram para cursos presenciais. Porém, mesmo com esse salto nas vagas oferecidas, ainda há mais alunos matriculados em cursos superiores presenciais (6,4 milhões) do que em cursos a distância (2 milhões).

“É preciso elevar o nível educacional geral. O desafio maior é como oferecer educação a preços compatíveis com a baixa renda média da população brasileira e, ao mesmo tempo, com um bom nível de qualidade” (José Pio Martins)

Especialistas ouvidos pela revista Empreende explicam o sucesso e comentam os desafios do ensino a distância no Brasil. Para a doutora em Educação e diretora de conteúdos da Bett Brasil Educar, Maria Alice Carraturi, o grande papel do EAD está em incluir aqueles que estavam fora do sistema regular de ensino. “O perfil de estudantes começou a mudar e em pouco tempo passou a ser uma opção para segunda graduação, para mais jovens, e ainda continua sendo a primeira graduação para quem não pode frequentar o ensino presencial.

Este perfil abrange tanto aqueles que estão no mercado de trabalho e não conseguem frequentar diariamente um curso, aqueles que por tarefas domésticas também não e quanto aqueles que optam pela modalidade pelo preço, pois o custo de um curso a distância pode ser 70% mais barato que um presencial. Dessa forma, ele se torna um curso ‘possível’ para uma população que não teria acesso não fossem estas condições de flexibilidade e de preço”, avalia.

“O Brasil tem 5.570 municípios, logo, há uma legião de jovens e adultos que querem fazer um curso superior ou de pós-graduação, mas não podem ou não querem sair de suas cidades. Além disso, os cursos na modalidade EAD são mais baratos e oferecem maior flexibilidade de horários e atividades”, aponta o economista José Pio Martins, membro da Academia Paranaense de Letras e reitor da Universidade Positivo.

“O EAD não se resume apenas a transportar para o ambiente virtual o mesmo que se faz no ensino presencial, é necessário que as práticas sejam pensadas para a educação a distância. É uma quebra de paradigmas” (Antonio Marcos Neves Esteca)

Apontada como a grande vantagem do ensino a distância, a flexibilidade é uma característica inerente da modalidade, uma vez que os alunos podem estudar nos lugares, horários e dias que melhor se encaixem em suas rotinas. “Pesquisas da Associação Brasileira de Educação a Distância revelam que mulheres representam mais de 55% dos estudantes de graduação EAD, o que se explica, em parte, pelas atribuladas rotinas que têm, necessitando conciliar os estudos com o trabalho, tarefas domésticas e, muitas vezes, a criação dos filhos”, analisa o especialista em Gestão de Negócios Antonio Marcos Neves Esteca, diretor de operações da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo.

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Alunos apontam Flexibilidade como Vantagem, mas sentem falta de Interação

A praticidade de administrar o próprio tempo e a flexibilidade de fazer o curso em diversos espaços são as principais vantagens apontadas por alunos que estão matriculados em cursos na modalidade EAD, porém, a falta de interação com os colegas e professores é um problema comum destacado por quem estuda a distância. “A maior vantagem é a praticidade de você administrar o seu tempo e adequá-lo à sua rotina. Já a desvantagem, comparado aos cursos presenciais, é a relação com os demais companheiros de turma que, querendo ou não, acaba sendo mais limitado a fóruns ou coisas do tipo”, diz Alex Soares, designer de produtos e ilustrador de Cravinhos (SP) que atualmente cursa uma pós-graduação em Neurociência de uma instituição instalada no Rio Grande do Sul.

“Tem toda a praticidade de não precisar sair de casa para estudar, já que muitas vezes o dia a dia é corrido e fica cansativo se locomover a outro bairro ou até mesmo outra cidade para fazer as aulas. A principal desvantagem é a falta de discussão e interação com os professores e demais alunos, privilégio que apenas os cursos presenciais proporcionam. Por mais que exista um fórum para debate, ele é pouco utilizado e não é bom para discussões mais aprofundadas”, avalia Caroline Canalle Oliva, administradora de empresas de Ribeirão Preto (SP) que faz pós a distância em Gestão e Governança de Tecnologia da Informação pelo Senac.

Outro ponto destacado pelos alunos é a necessidade de disciplina para fazer as atividades longe da sala de aula física. Para Alex, quem quer partir para uma graduação ou pós a distância deveria primeiro investir em cursos livres de menor duração para verificar se consegue se adaptar às características da modalidade. “A pessoa tem que se certificar se está realmente interessada no curso, pois esta modalidade de ensino exige muita disciplina. Se não houver comprometimento é fácil começar a se sabotar, pulando atividades e assistindo as videoaulas pela metade, por exemplo”, aconselha Caroline.

Um Novo Campo de Atuação para os Professores

Além das oportunidades para as instituições e para os alunos, o EAD amplia o campo de atuação dos professores. “A função do professor na modalidade EAD exige habilidades e tarefas diferentes do professor de cursos somente presenciais. Primeiro, o professor precisa preparar materiais autoexplicativos, didáticos e com bom nível de clareza e profundidade. Isso exige, entre outras, enorme habilidade de escrever e explicar com didática específica de linguagem escrita. Em segundo lugar, o professor precisa desenvolver métodos para esclarecimento de dúvidas e de avaliação”, analisa o reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins.

“Temos elaborado cursos de curta e média duração aos docentes abordando todas as peculiaridades da educação a distância, desde aspectos relacionados à metodologia de ensino, avaliação e interação até as características e recursos dos ambientes virtuais de aprendizagem. Somente desta forma criaremos condições para que o docente, anteriormente habituado com o cenário do ensino presencial, possa desempenhar bem seu papel na modalidade a distância”, diz o diretor de operações da Faculdade Metropolitana, Antonio Marcos Neves Esteca.

Oportunidades e Desafios

Se para os alunos o EAD veio como uma ferramenta de inclusão, para os estabelecimentos de ensino superior ele se apresenta como uma grande oportunidade de negócios. “Essa é uma oportunidade sem precedentes para as instituições de ensino superior, pois permite alcançar alunos de todas as regiões do país, o que cria condições para ampliação da oferta de vagas, contribuindo para o aumento do faturamento e das possibilidades de expansão. No entanto, é importante que as instituições se capacitem do ponto de vista metodológico e tecnológico para que possam ofertar uma educação a distância de qualidade”, explica Antonio Esteca

“Existe nesse cenário uma grande oportunidade e também um desafio. A oportunidade é a possibilidade de crescimento expressivo da educação na modalidade EAD. O desafio é produzir materiais e conteúdos de qualidade, dispor de infraestrutura de comunicação moderna e adequada, estruturar polos para as atividades presenciais, como é o caso de provas, e adotar didática que leve ao aprendizado efetivo e de bom nível”, avalia José Pio.

“O que precisamos neste momento é de qualidade e não de quantidade. Como visto, é uma grande demanda e não se pode mais oferecer qualquer coisa, pois o aluno também se torna exigente e quer aprender e ser bem atendido no curso a distância” (Maria Alice Carraturi)

Para Maria Alice Carraturi, o principal desafio do EAD hoje no país é manter a qualidade às custas de um baixo valor das mensalidades. “O EAD necessita de investimentos, bons professores, bom material didático, tecnologia de ponta e isso tudo custa caro. Se olharmos as experiências nos outros países, veremos que, além de terem o mesmo valor do presencial, não abrem mão de encontros presenciais e uma metodologia de acompanhamento aluno a aluno, para que tenham certeza que está acompanhando o curso e esteja engajado. Aqui, além de ser muito barato, não há a preocupação do engajamento, o que gera ao menos 50% de evasão”, finaliza.

Por Angelo Davanço