Uma Executiva no Agronegócio

Mônika Bergamaschi – foto: Guilherme Bordini

Engenheira agronômica, ex-secretária de Estado da agricultura e presidente do conselho diretor da Abag RP fala sobre a educação para o campo e a participação das mulheres no agronegócio

A história de Mônika Bergamaschi, presidente do conselho diretor da Abag RP – Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto, poderia ser completamente diferente se tivesse seguido a tradição familiar, no interior paranaense. “Venho de uma família em que se formaram muitos médicos e professores. Fui a primeira a trilhar o caminho das ciências agrárias”, explica. Formada em Engenharia Agronômica pela Unesp de Jaboticabal (SP), em 1992, logo foi para São Paulo, onde trabalhou em banco e se aproximou da economia, mas sempre com o olhar voltado para as coisas do campo. Vieram o mestrado em Engenharia de Produção Agroindustrial pela UFSCar, o MBA em gestão de empresas pela USP em Ribeirão Preto, com foco no cooperativismo, e o reencontro com um ex-professor dos tempos de Unesp, o ex-Ministro da Agricultura nos primeiros anos do governo Lula (PT), Roberto Rodrigues.

“O Roberto me convidou para um trabalho de reestruturação da Abag em Ribeirão Preto. A princípio eu ficaria um ou dois anos na cidade, mas já estou há duas décadas”, relembra. Neste período, só se ausentou da cidade, e da entidade setorial, entre junho de 2011 e dezembro de 2014, quando foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado da Agricultura, no governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

Na Abag, ajudou a implementar um conceito que já era defendido por Roberto Rodrigues em suas aulas: o de que é preciso educar as pessoas para que elas tenham conhecimento da importância do agronegócio. “Nas aulas na faculdade, ele (Roberto) batia muito nisso, de que é preciso falar do agro como um todo, ninguém consegue enxergar apenas um setor, é preciso dimensionar, mostrar como o agro se faz presente na vida das pessoas, mesmo sem elas perceberem”, diz a engenheira agronômica.

E assim surgiu um programa de educação que, desde o ano 2000, já atingiu 256 mil alunos de 106 escolas públicas paulistas. O projeto educacional “Agronegócio na Escola” capacita professores das mais diversas disciplinas, que são levados para visitas de campo a usinas e fazendas, onde eles podem verificar de perto como os conceitos da física, da química, da matemática, da história, entre outras áreas do conhecimento, podem se relacionar com o agronegócio. Depois, em sala de aula, são orientados trabalhos de estudantes em concursos de redação, frases, ilustrações, maquetes, feiras de artes e ciências, com premiações para alunos, professores e escolas de destaque.

“Mais do que mostrar aos professores estes conceitos que depois podem ser aplicados em sala de aula, apresentamos aos jovens alunos as oportunidades que o campo oferece na vida profissional. São oportunidades para todos os níveis de ensino, o médio, o técnico, o superior. No campo tem trabalho na parte administrativa, na engenharia, na operação de máquinas, são várias oportunidades bem aqui ao lado de casa, em nossa região”, aponta Mônika.

‘Não tem mais espaço para amadores no agro’

Para quem quer empreender no agronegócio, Mônika Bergamaschi é direta no conselho que dá: “Você tem que estar absolutamente seguro do que quer fazer e estar muito bem informado do conjunto de regras trabalhistas, ambientais, da legislação que rege o setor. Não tem mais espaço para amadores no agronegócio”. Para a engenheira agronômica, o campo não é um lugar para experiências, é preciso ter muito claro o que se quer antes do início da jornada.

“É uma indústria a céu aberto, em que você não controla todas as variáveis. Tem chuva, tem seca, tem toda a questão natural. Sem dúvida, é um ramo muito delicado, muito trabalhoso, mas, ao mesmo tempo, muito prazeroso”, finaliza.

Mulheres no Campo

Oportunidade que Mônika encontrou não sem um pouco de dificuldade logo no começo. “Eu mentiria se dissesse que não encontrei algumas barreiras no início de minha trajetória. Recém-formada, em alguma seleção de emprego, se eu tivesse o mesmo currículo que um rapaz, a escolha recaía sobre ele”, comenta. Realidade que percebia ainda na faculdade, quando lembra que menos de 10% das matrículas em Engenharia Agronômica eram de mulheres. “Mas isso nunca me intimidou. Ainda criança, era uma das duas meninas de um colégio interno masculino. Meu pai me matriculou em um colégio de meninos pois não queria ter uma filha ‘fresquinha’”, diverte-se.

Hoje, com sua trajetória profissional já consolidada e reconhecida – em 2005, foi eleita pela revista Forbes como a mulher mais influente do setor de agronegócio –, Mônika já não sente tantos problemas, mas diz que ainda há muito o que melhorar: “Em muitos eventos que vou, sou a única ou uma das únicas mulheres”. Para ela, eventos como o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, que em 2019 reuniu 1.700 mulheres, mostram que elas estão conquistando seu espaço, mas faz uma ressalva: “Para mim, faria mais sentido se estas 1.700 mulheres estivessem participando de um evento masculino e não em algo voltado só para elas. Hoje, o que vemos, em grande parte dos casos, são mulheres que receberam terras ou empreendimentos rurais por herança, dos pais ou do marido. É muito mais no susto do que por vocação, mas, sem dúvida, as mulheres estão se desenvolvendo muito no campo”.

Por Angelo Davanço