Da Pré-História ao Futuro da Internet Brasileira


Edney Souza, o Interney, relembra os tempos em que ensinava como fazer backup e instalar antivírus e aponta os caminhos da internet no futuro

Quando a internet comercial dava os primeiros passos no Brasil, em meados dos anos 1990, Edney Souza era um jovem que já gostava de mexer com programação e buscava se informar em livros, jornais e revistas – os meios de comunicação da época -, sobre a tal revolução digital que se anunciava. Incentivado pelos amigos, o nerd da turma criou um site em que se dedicava a explicar como funcionavam as coisas neste novo cenário, desde como instalar um antivírus até a necessidade de fazer backups de arquivos em numerosos disquetes. Como foi um pioneiro do assunto na língua portuguesa, logo virou referência e ganhou o apelido de Interney.

De lá para cá, abriu e fechou empresas, continuou sempre pesquisando, anunciou tendências, virou consultor, professor, palestrante e hoje ocupa o cargo de diretor acadêmico da Digital House, escola com matriz na Argentina que chegou ao Brasil em 2015, com foco na formação rápida de profissionais digitais, além da atualização de quem já está no mercado e não quer ficar para trás quando o assunto é a transformação digital.

Na entrevista a seguir, Edney relembra sua atuação nos primórdios da internet brasileira, aborda as transformações das carreiras e alerta: “Enquanto vocês lamentam o fim dos likes, já deram uma olhada nessa outra tendência surgindo aqui? A voz?”. Confira.

Empreende – Você já era uma celebridade da internet antes desta categoria chamada influenciadores ser criada. Fale sobre os seus primeiros passos com a comunicação na rede.

Edney Souza – Eu era o “amigo nerd” dentro do meu círculo de amizades. Quando criei o primeiro site, um deles sugeriu transformá-lo num repositório de conhecimento de tecnologia – coisas como fazer backup e instalar anti vírus, entre outras atividades pré-históricas. Como foi o primeiro site em língua portuguesa da categoria, ele viralizou muito rápido e eu acabei me tornando uma referência sobre como usar tecnologia e internet para o público leigo. Isso rendeu, além de muita audiência, que depois eu converti em monetização, muitas matérias em jornais e revistas e fez com que até hoje eu seja lembrado como fonte nesta área.

Obviamente que o tempo todo eu tenho que me atualizar, reinventar, abandonar certeza antigas, etc. Eu vivo a transformação digital diariamente, senão já teria me tornado irrelevante.

“Não é exatamente que todo mundo será programador, mas todo mundo deveria aprender programação para desenvolver essas formas de raciocínio”

Empreende – Com apenas 13 anos, você aprendeu a programar e passou a trabalhar com os primeiros recursos que a internet oferecia. Programação hoje é algo essencial na formação das pessoas?

Edney Souza – A internet comercial, que foi quando eu tive acesso, veio em 1995, seis anos depois que comecei a programar. Atuar em programação me ajudou desde cedo a enxergar as coisas de forma estruturada, em processos, analisar o que podia ser automatizado, otimizado, etc. Esse olhar analítico que a programação desenvolve é essencial para todas as profissões. Então não é exatamente que todo mundo será programador, mas todo mundo deveria aprender programação para desenvolver essas formas de raciocínio.

Empreende – Como oferecer esta formação ao maior número possível de pessoas?

Edney Souza – Seria ótimo se programação já fizesse parte do currículo das escolas, enquanto não há uma mudança oficial dos currículos nesse senti do. Nós, na Digital House, estamos fazendo parcerias com colégios por meio do projeto DHSchools. O intuito é oferecer programação a crianças de 6 a 16 anos. Acredito que todo mundo, em início de carreira, deveria fazer um curso de programação. Conheço pessoas de RH que fizeram programação lá atrás e hoje têm projetos de dados para RH na empresa. O pensamento analítico da programação fez com que esses profissionais fossem pioneiros em outras áreas. Aqui, às vezes, temos médicos, nutricionistas, entre outros profissionais de áreas diferentes, estudando disciplinas digitais não para mudar de carreira, mas para inovar nestas áreas.

Empreende – Na sequência da evolução da comunicação e dos negócios na internet, o que deve vir por aí em um futuro próximo? Você fala sobre a ‘era da voz’, em substituição à ‘era dos likes’.

Edney Souza – Os likes já morreram faz um tempo. Nos Estados Unidos, por exemplo, as campanhas focam muito mais em engajamento. A era da voz não é necessariamente um substituto da era dos likes, meu raciocínio é mais no senti do de chamar a atenção da seguinte maneira: “Hey! Enquanto vocês lamentam o fim dos likes, já deram uma olhada nessa outra tendência surgindo aqui? A voz?”. Empresários e especialistas precisam olhar mais o que vem por aí do que lamentar o que está caindo em desuso. Temos muita tecnologia pronta que ainda não foi amplamente distribuída e a voz é um bom exemplo disso. Já temos soluções com um alto grau de maturidade tecnológica, temos mercados onde a distribuição está chegando a 50% da população e tudo indica que aqui será um hábito que vai crescer rapidamente. No Brasil, 34% das pessoas já usam comando de voz e buscas por voz segundo números do HootSuite e WeAreSocial do começo de 2019. A era da voz é a era da comodidade, a voz é a interface mais natural, vamos aumentar o consumo de podcasts, transcrever mais do que escrever e acionar dispositivos verbalmente ao invés de ícones. Já é uma realidade e é questão de tempo para se tornar mais comum.


“O tempo todo eu tenho que me atualizar, reinventar, abandonar certeza antigas, etc. Eu vivo a transformação digital diariamente, senão já teria me tornado irrelevante”

Empreende – Para quem quer iniciar, hoje, um negócio na internet, para onde deve focar seus esforços?

Edney Souza – Olhe as pessoas ao seu redor, fale com quem você imagina que seria o seu cliente, ouça suas dificuldades e problemas. Se muita gente tem o mesmo problema e você sabe resolver, isso é uma oportunidade. Mesmo que já exista uma solução para isso, o fato de que tem muitas pessoas sem saber qual é a solução, significa que as soluções existentes não são muito eficazes ou não são segmentadas e/ou divulgadas o suficiente. Há oportunidades em todas as áreas e nichos, a partir daí, se você conhecer metodologias de negócios como Lean Canvas, pode economizar um belo tempo para modelar algo novo.

Empreende – revolução digital afeta a maioria das carreiras. Como se preparar para este cenário?Edney Souza – Eu costumo dizer que todos precisam começar a desenvolver uma mentalidade de programador, ou seja, ter a capacidade de analisar algo e quebrar em pequenas tarefas para automatizar, esse é o mindset do desenvolvedor de software. O cenário digital não vai mudar, ao contrário, vai crescer cada dia mais. A tendência é que todas as profissões, de alguma forma, agreguem a tecnologia de maneira parcial ou definitiva nos seus processos e no dia a dia. Então, é preciso se atualizar nesse sentido, vai ser necessário uma mudança de área muitas vezes ou, em outras, alguma especialização que pode ser por meio de cursos rápidos e de conhecimento aprofundado que preparem essa pessoa para o mercado de trabalho ágil como é hoje. Buscar cursos digitais é uma das maneiras para estar apto para este momento do mercado e com competências técnicas sólidas para a demanda atual por esses profissionais. Além disso, as Soft Skills, ou habilidades individuais, são fundamentais hoje em dia, elas podem determinar muito do desempenho das pessoas na sua carreira, então é importante se equipar de conhecimento, mas também aprender a ser resiliente, aberto a discussões e novos aprendizados. Saber trabalhar em equipe e construir bem suas ideias são algumas das habilidades bem avaliadas pelas empresas hoje em dia.

Empreende – Hoje há falta de profissionais para atender à demanda gerada pela tecnologia. Como está a busca do mercado por estes profissionais e qual a melhor maneira de se preparar para atender esta realidade?

Edney Souza – As empresas precisam começar a investir no desenvolvimento da mão de obra interna. Temos muitos programas bem-sucedidos em parcerias com empresas, onde os funcionários aprendem habilidades digitais, mantêm seu emprego e desenvolvem suas carreiras para o futuro; as empresas economizam no processo de recrutamento, baixam o turnover e melhoram o clima organizacional. As pessoas, independentemente da área que vão trabalhar, precisam entender que pensamento analítico, decisões orientadas por meio de dados, visão centrada no consumidor e storytelling são necessários em todas as áreas e precisam buscar um complemento digital em suas carreiras. Todo mundo tem um celular no bolso e acessa a internet, os negócios do futuro são todos digitais.

Por Angelo Davanço