A Tecnologia Utilizada em Favor do Médico


Felipe Lourenço, CEO da iClinic, aposta na força da educação para o empreendedorismo e na simplificação das rotinas no consultório para impulsionar a carreira de médicos em todo o Brasil

Voltar o olhar para o médico em sua rotina de atendimentos no consultório. Foi esta a ideia que Felipe Lourenço, Rafael Bouchabki e Leonardo Berdu tiveram ao criar a startup iClinic. Amigos de infância em Franca (SP), os três encontraram na tecnologia uma paixão em comum nos tempos de adolescência. Já em Ribeirão Preto, cada um seguiu sua vida acadêmica. Leonardo foi para a área de Publicidade e Propaganda no Centro Universitário Barão de Mauá, mesma universidade onde Rafael cursou Ciência da Computação, e Felipe entrou, em 2006, no recém-criado curso de Informática Biomédica da Universidade de São Paulo (USP).

Ainda na faculdade, os três amigos criaram uma agência de tecnologia voltada ao atendimento de grandes agências de publicidade de São Paulo. Foi a primeira experiência na trajetória empreendedora do trio. Em 2009, já formado, Felipe percebeu que, quando se observava o mercado de tecnologia aplicada à saúde, o que se viam eram players focados em soluções para grandes hospitais, grandes operadoras de saúde, grandes laboratórios. “O médico individualizado, em sua clínica, em seu consultório, que é uma das engrenagens principais do mercado de saúde, simplesmente não era atendido. Vimos ali uma oportunidade de atuação em um mercado muito grande e muito forte”, explica Felipe. Para se ter uma ideia do potencial deste mercado, a pesquisa Demografia Médica no Brasil 2018 apontou a atuação de 450 mil médicos em todo o Brasil, com previsão de atingir meio milhão de profissionais em 2020, chegando à taxa de 2,5 médicos por cada grupo de mil habitantes, índice similar ao de países desenvolvidos, como Estados Unidos e Canadá.

A partir desta ideia inicial, os sócios fundadores da iClinic passaram, em 2012, a fazer testes de produtos. “Naquela época, 70% dos médicos ainda usavam papel para seus registros, e 30% usavam alguma solução bem antiga, aquele modelo de software tradicional de caixinha, em que você compra o CD, paga um custo de aquisição muito alto e depois disso não tem um suporte adequado. Vimos uma oportunidade de atender este público de uma maneira diferente. Depois de muito olhar, de muito estudar, ver coisas lá fora, ver para onde o mercado de tecnologia estava indo, com tecnologia SAS, software como serviço, resolvemos iniciar a iClinic, com a missão de ajudar a descomplicar a saúde no Brasil, empoderando o médico em sua carreira”, diz Felipe. “A gente quer dar mais autonomia ao médico, trazendo gestão para o seu dia a dia. A tecnologia para nós é um meio. No final, queremos entregar mais independência, mais autonomia e mais gestão ao cotidiano do médico”, completa.

Mentoria Internacional

Como o mercado de software em nuvem ainda era incipiente naquela época, os empreendedores resolveram buscar conhecimento fora do Brasil. “Tínhamos muita informação técnica, mas precisávamos de informação de negócios. A gente tinha um protótipo com potencial, então olhamos para fora, para mercados mais maduros, e nos aplicamos em uma aceleradora holandesa que buscava empresas de tecnologia inovadora, em grandes mercados. Entre 700 empresas em todo o mundo, fomos selecionados para compor um grupo de dez. Passamos seis meses em Amsterdã e outros seis meses no Vale do Silício. Este período foi um divisor de águas, nos fez amadurecer nossa visão e aprender toda a dinâmica do mercado SAS. Voltamos com toda a nossa estratégia lapidada e, em 2014, tivemos o primeiro ano operacional da iClinic”, comenta Felipe.

20 mil
É o número de usuários da plataforma iClinic, distribuídos em todos os estados brasileiros, além de clientes em países africanos de língua portuguesa, como Angola, Moçambique e Cabo Verde. Já há planos de integração do idioma espanhol, para chegar a mercados como México, Colômbia e Chile.

3 planos
São oferecidos atualmente pela iClinic, que podem ser assinados por valores mensais de R$ 79, R$ 99 e R$ 119. Em 2020, a empresa pretende iniciar um modelo de assinatura por pacotes de serviços moldáveis aos negócios dos usuários.

95 pessoas
Integram atualmente a equipe da startup em Ribeirão Preto e em São Paulo. A projeção é encerrar 2020 com um quadro de 150 funcionários.

O negócio começou oferecendo um sistema de agendamento e prontuário eletrônicos, tudo baseado em nuvem. “O médico tem uma rotina muito corrida, estudos mostram que ele trabalha em quatro a cinco lugares diferentes toda semana, então ele precisa ter seu consultório na palma da mão”, diz o empreendedor. Com o tempo, conhecendo mais a rotina dos consultórios e ouvindo ativamente os usuários, foram incluídas ferramentas de gestão na plataforma. “Basicamente, identificamos que o médico tem quatro grandes dores em seu dia a dia. Primeiro, ele tem uma necessidade muito grande de atrair pacientes, para isso criamos um módulo de marketing médico. Ele tem outra dor que é gerenciar o atendimento e os dados clínicos do paciente, o que já fazíamos com o primeiro produto. Depois disso vem uma terceira dor, que é fidelizar e engajar o paciente, e criamos um produto de CRM para ampliar o relacionamento médico/paciente além da consulta, com lembretes automatizados de retornos, por exemplo. E, por fim, a quarta dor, que é a questão de rentabilizar, monetizar o negócio do consultório, da clínica em si, e para isso criamos um produto de gestão financeira, que faz todo o controle de receitas, despesas e fluxo de caixa, além de gerenciar o trâmite entre médico e operadoras de saúde”, explica Felipe, que adianta o que deve vir pelo futuro: “Queremos atuar na vida profissional do médico como um todo, queremos trazer questões ligadas à parte de serviços de finanças, ajudá-lo na forma de pagamentos, proporcionar um sistema integrado ao iClinic para que ele receba de seus pacientes, oferecer crédito para seu fluxo de caixa, oferecer ajuda do ponto de vista de aplicações financeiras, auxiliar com informações para gerenciar melhor seu patrimônio e expandir a parte educacional por meio de conteúdo mais robusto, tanto educação da parte clínica como informações de negócios. Temos esta visão, de educar o médico para ele se enxergar como um empreendedor”.

Por Angelo Davanço