Juliano Salgado, o Cineasta por trás do Sucesso de Bilheteria Mundial

foto Juliano Ribeiro Salgado

Descubra a trajetória do diretor do documentário “O Sal da Terra”,indicado ao Oscar de melhor na categoria

Dono de um olhar curioso e atento aos problemas, especialmente no Brasil, e capaz de transformá-los em ferramentas de conscientização, o cineasta Juliano Ribeiro Salgado, de 45 anos, consagrado por dirigir o documentário “O Sal da Terra” (2014), voltou ao Brasil para se dedicar a abordar problemáticas que, segundo ele, devem ser expostas o quanto antes, para que seja possível engajar uma melhora no país. “Estava morando em Berlim, na Alemanha, mas, em 2016, senti a necessidade de voltar às minhas origens. Acredito que o papel do cineasta é apontar questões relevantes para todos”, diz. “Meu trabalho está focado em assuntos relacionados à Amazônia, identidade e questões sociais e políticas”, completa.

A paixão pelas artes visuais de Juliano pode ser atrelada, de forma direta ou indireta, ao convívio com o oficio de seu pai, Sebastião Salgado, conhecido por registrar, com maestria, imagens importantes relacionadas a problemas reais do Brasil e do mundo. “O trabalho dele é muito forte e toca as pessoas, e eu convivi com isso desde muito novo”, conta.

Nascido em Paris, na França, Juliano passou sua infância vivendo em um país desenvolvido, mas ciente das suas raízes. “Na nossa casa, falávamos português, nossos costumes e comidas eram baseados no Brasil. Entretanto, não tínhamos vivência direta”, diz. Ele explica que seus pais tiveram seus passaportes confiscados, durante o período da ditadura militar, o que impossibilitava o regresso ao país. Com quatro anos de idade, o cineasta conheceu, pela primeira vez, o Brasil, quando sua avó veio buscar seus irmãos e ele para passar férias. “Passei três meses visitando familiares em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, convivendo com meus primos e brincando na rua”, relembra. Por ser muito novo, segundo ele, não notou a diferença, especialmente social, entre os dois países. “Vi o Brasil com olhos de uma criança curiosa”, afirma.

Começo da Carreira

Antes de galgar seu espaço no meio cinematográfico, Juliano se formou em Direito e Economia, na Université Paris1 – Pantheon Sorbone. “Ao concluir o curso, percebi que não queria passar os meus dias trancados em um escritório”, conta. Porém, ele reconhece a importância de ambas as graduações como ferramentas de mudança.

Certo de sua decisão, o diretor optou, com 22 anos, por trabalhar como repórter em um canal de televisão francês, onde era responsável por coberturas de diversos acontecimentos mundiais. “Desenvolvi matérias em locais de conflitos e em meio a guerras civis, como, no caso, da Iugoslávia e alguns países africanos, como Angola, Somália, África do Sul, Senegal e outros”, relata.

Juliano Salgado,Sebastião Salgado e Wim Wenders

Juliano conta que, para ele, as reportagens não duravam o tempo suficiente para conseguir se aprofundar naquelas histórias. “Eram relativamente curtas. Desejava me aprofundar mais na temática e dissecar os problemas com mais atenção”, diz. “Me interessei por cinema, pois poderia me aprofundar mais nos assuntos que julgava serem de maior relevância. Entretanto, necessitava de uma formação mais específica e que me desse mais base para desenvolver o trabalho que almejava”, destaca.

Para alcançar seu objetivo, Juliano se formou em Cinema pela London Film School. “Passei dois anos estudando e três trabalhando em diversos setores que compunham uma produção cinematográfica: câmera, montador, maquinista, o que proporcionou um maior entendimento do que era a produção de um filme”, diz. “Cinema é um objeto complexo. Apesar de ser uma obra de caráter artístico, precisa ter um planejamento e estudo detalhados da temática e do público que se quer alcançar”, explica.

O seu primeiro trabalho como diretor foi em um documentário exibido no canal francês, o Association Relative à la Télévision Européenne (ARTE). De acordo com Juliano, a obra foi pensada e produzida respeitando todos os envolvidos e tratando o assunto com ética e de forma fidedigna.

Contudo, o documentarista percebeu, depois de perder um prêmio em um Festival em Toronto, no Canadá, que esses preceitos, tão zelados por ele, não eram capazes de levar o público às salas de cinema. “A relação com o público não acontece só por meio da ética, mas, sim, pela dramaturgia. Quando fiquei ciente desse fato, estipulei que os meus trabalhos teriam esses fundamentos”, pontua.

A força de uma Obra

Juliano é reconhecido mundialmente por dirigir o documentário “O Sal da Terra”, de 2014, que, segundo ele, retrata a trajetória de sua família. Em meio às fotografias icônicas, e outras nem tanto, de Sebastião Salgado, é possível entender a relação da família e como todos, de alguma maneira, eram impactados com as cenas, muitas vezes, de total horror, retratadas por Sebastião. “Durante as filmagens, o vi contando suas experiências, aquelas que o faziam se ausentar durante a minha infância. Naquele momento, entendi a maneira como voltava de suas viagens, e o que o deixava tão arrasado e abalado”, lembra.

A concepção do filme surgiu após Juliano acompanhar uma parte do projeto Gênesis, com os índios da tribo Zo’é, no noroeste do Estado do Pará. “Quando voltamos, trouxe comigo algumas imagens que tinha editado e mostrei para Tião. Ele viu, de fato, como eu o enxergava. Se viu pelos meus olhos. Foi algo muito emocionante”, relata, e salienta que a experiência também serviu para ajudar a estreitar os laços entre os dois.

Foto Lelia W. Salgado

“Me interessei por cinema, pois poderia me aprofundar mais nos assuntos que julgava serem de maior relevância. Entretanto, o trabalho de repórter não possibilitava. Senti a necessidade de uma formação mais específica e que desse mais impacto”.

Entretanto, Juliano conta que seria impossível dirigir o documentário e fazer as entrevistas com o seu pai, por mais que a relação dos dois estivesse caminhando para uma possível melhora. “Precisava de uma pessoa neutra para filmar suas experiências e lembranças. Precisava de alguém que se relacionasse com o Tião e permitisse que ele se abrisse”, compartilha. Juliano contou, então, com a ajuda do alemão Wim Wenders, que dirigiu a película em conjunto. “Não ia conseguir separar a relação pai-filho, por isso, Wim teve um papel tão importante na concepção do filme. Ele foi escolhido para que eu enxergasse meu pai pelos olhos de outra pessoa”, salienta.

Ao longo de cinco anos, entre pré e pós-produção, Juliano conta que houve alguns embates com o diretor alemão para terminar e entregar um documentário de qualidade. “A princípio, foi muito complicado trabalhar com ele. Estávamos travando uma briga de ego. Wim não aceitava muito bem as minhas decisões; sem falar na diferença de idade”, diz. “Após um ano de edição, conseguimos chegar a um resultado muito bacana para ambos”, completa.

Reconhecimento da Obra

Juliano orgulha-se do documentário, mas revela que faria uma mudança em especial. “Esqueci-me de colocar uma sequência de imagens do Rodrigo, meu irmão, no final do filme”, diz. Juliano conta que seu irmão mais novo tem síndrome de Down e tem um papel importantíssimo dentro da família. “Ele fez com que todos mudássemos a nossa forma de conviver e nos comunicar, além de ter uma enorme capacidade de demonstrar emoções”, fala com carinho.

“Meu trabalho está focado em assuntos relacionados à Amazônia, identidade e questões sociais e políticas”.

Com aceitação e recorde de bilheteria para o ramo de documentários, o filme conquistou o seu espaço entre grandes premiações: foi indicado ao Oscar na categoria Documentário (2015), Prêmio Júri na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, na França (2014), e César como melhor documentário. “Esses prêmios trouxeram mais respaldo do público em relação ao meu trabalho”, conta. Quando o filme foi exibido, pela primeira vez, no Festival do Rio, Sebastião e Lélia, mãe de Juliano, tiveram a oportunidade de assistir ao trabalho desenvolvido pelo cineasta. “Os dois ficaram muito emocionados com o resultado do filme”, finaliza.

Por Camila Rodrigues