Terra, Água, Sol e Tecnologia, Muita Tecnologia

Drone com Tecnologia de varredura de terreno, monitoramento de hidratação do solo. Tira fotos e envia dados para a nuvem – shutterstock

Drones, satélites, sistemas automatizados de plantio, análise de dados. Veja como a agricultura 4.0 já é uma realidade no campo brasileiro

Já vai longe a época em que o produtor rural olhava para o céu em busca de sinais do tempo para decidir o melhor momento para o plantio, para o combate às pragas ou para a colheita. Hoje, muitos sinais continuam vindo do céu, mas não apenas os enviados pela natureza. Cada vez mais, o agricultor conta com informações precisas coletadas e transmitidas por satélites, drones, blocos de dados armazenados em nuvem. É a agricultura 4.0 que está causando uma verdadeira revolução no campo brasileiro.

“As tecnologias permitem a otimização dos insumos e a melhora da produtividade, com análise conjunta de todas as variáveis disponíveis em tempo real. A utilização de Blockchain, por exemplo, permite a rastreabilidade do campo para a mesa.

Outros recursos mostram o campo por cima, com imagens enviadas por satélites cada vez menores e mais baratos. A tecnologia permite monitorar as plantações por meio de aplicativos para smartphone, com relatórios acessados a qualquer momento pelo produtor. Estes recursos, que transformam nossas fazendas em coloridas fi guras geométricas nas telas de computadores, tablets e celulares, modificam rapidamente a produção agropecuária no Brasil”, analisa João Carlos Marchesan, presidente do Conselho de Administração da Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. “As ferramentas atualmente disponíveis e suas adoções estão impactando o campo, mas estamos vendo somente uma pequena parte do iceberg, muito ainda está por vir e impactar mais fortemente a maneira como o campo vai produzir no futuro”, completa Ladislau Martin Neto, pesquisador da Embrapa Instrumentação e co-coordenador do Grupo de Terras Cultiváveis da Aliança Global de Gases do Efeito Estufa na Agropecuária.

“O resultado de uma agricultura mais precisa é uma mesa sem dúvida mais barata, mais sustentável, mais rastreável e mais customizada ao desejo do consumidor, que se encontra na ponta final da cadeia de produção agrícola” – (João Carlos Marchesan Presidente do Conselho de Administração da Abimaq)

Para o engenheiro agrônomo Sérgio Marcus Barbosa, gerente executivo da ESALQTec Incubadora Tecnológica, o Brasil está vivenciando “o maior movimento Agtech do mundo”. Para ele, este fato não se dá apenas pelo número expressivo de empresas de tecnologia para a agricultura presentes no País, mas sim pelo desenvolvimento de diversos ecossistemas tecnológicos voltados ao setor em várias regiões brasileiras. Segundo Sérgio, este movimento teve início há quatro anos, no ecossistema do Vale do Piracicaba, e se espalhou por outros locais, como outros municípios paulistas – Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos, Botucatu, São José dos Campos -, norte e sudoeste do Paraná, Cuiabá e Goiânia, entre outras regiões. “Observamos o envolvimento em harmonia das empresas, universidades, centros de pesquisa, startups, ambientes de inovação, investidores, com políticas públicas direcionadas. É por esta razão que o Brasil está no centro das atenções no âmbito mundial, tanto pela qualidade de soluções, como pelo tamanho do nosso agronegócio”, avalia Sérgio, antes de prever o que vem por aí: “Nos posicionamos com destaque na agricultura 4.0, mas acredito que teremos uma nova fase, a 5.0, baseada nos conceitos da inteligência artificial”.

Robô assistente de fazenda para detectar a erva daninha – shutterstock

Desafio é beneficiar o maior número de Produtores Rurais

Por sua área continental, o Brasil possui uma diversidade imensa de propriedades rurais – em torno de cinco milhões de unidades, de acordo com os dados levantados em 2017 pelo último censo agropecuário do IBGE. Neste cenário, pequenas propriedades e produtores familiares ainda sentem dificuldades em sua capacidade de investimento e de uso de informações das tecnologias disponíveis. Porém, aos poucos, começam a surgir alternativas, muitas delas ligadas ao trabalho desenvolvido pelas cooperativas do setor. “Você só consegue levar impacto positivo das tecnologias digitais para propriedades de todos os portes quando aterrissa todos estes conceitos no campo, quando possibilita o uso pelo produtor. Nós trabalhamos com nossos cooperados em uma plataforma de inteligência que agrega mais de 40 mil propriedades rurais, combinando dados e algoritmos, por meio de imagens de satélite, para fornecer coordenadas de ação. Lá na sua propriedade, o produtor baixa estas informações, baixa um plano de voo, por exemplo, para que o drone execute da melhor maneira uma etapa de pulverização. Isso cria um impacto e isso é possível de ser feito”, explica Fernando Degobbi, diretor presidente da Coopercitrus, cooperativa de produtores rurais que atua em São Paulo, Minas Gerais e Goiás e que conta com uma equipe de mais de 70 pessoas dedicadas aos trabalhos em agricultura de precisão.

“O campo mudou e vai mudar muito mais em um futuro próximo. Para a chamada indústria a céu aberto, mais do que uma opção, é uma necessidade, em tempos de mudanças climáticas, oscilações de mercado, entre outros fatores impactantes no setor produtivo agropecuário” – (Ladislau Martin Neto Pesquisador da Embrapa Instrumentação)

Além de “traduzir” os dados para o produtor, a cooperativa também disponibiliza, a custos reduzidos, equipamentos transitórios para que a tecnologia possa se tornar uma realidade no campo. “Hoje, um drone de pulverização custa entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, então o pequeno e o médio produtor não têm condições de investir em um equipamento destes”, aponta Fernando, que acredita também em um outro caminho para impactar o maior número possível de produtores, que é “desembarcar” as tecnologias. “Você tem, por exemplo, um sistema de piloto automático para executar um plano de plantio com precisão, que é possível ser acoplado no equipamento que o produtor já tem, mesmo um trator de 30 anos, e causar o mesmo impacto, não havendo a necessidade de se investir em um novo veículo, muito mais caro, com esta tecnologia embarcada”, exemplifica.

Foi o que fez o produtor de cana-de-açúcar Eduardo Palma, com terras em Paraíso (SP). “Com o plano de plantio automático desenvolvido pela cooperativa e seus equipamentos, conseguimos aumentar o rendimento do trabalho devido à diminuição de quase um terço nas manobras, o que significa ganho no custo da hora/máquina, no custo do combustível, além de proporcionar ganhos também na colheita, ao compartilhar os dados das linhas de plantio georreferenciadas com as colheitadeiras da usina”, relata.

Sistema automatizado de irrigação agrícola – shutterstock

A Evolução da Agricultura através dos Tempos

Agricultura 1.0
A produção agrícola sempre existiu, desde os tempos primórdios, mas antigamente ela era vista como um trabalho de subsistência. Devido aos baixos recursos tecnológicos e à baixa produtividade, ela ficou reconhecida como Agricultura Feita à Mão.

Agricultura 2.0
Uma segunda fase chegou com as máquinas e a ciência por volta da década de 1950. Neste contexto, destacam-se o início da produção em escala, o comércio global e o fornecimento de insumos, entre outros.

Agricultura 3.0
A partir da terceira etapa (entre 1990 e 2010), começou-se a introduzir no mercado a automação e a sustentabilidade. É aí que entra também a coleta de dados que contribuem com a produtividade do campo e ajudam os agricultores a tomarem as melhores decisões.

Agricultura 4.0
O boom da nova era digital veio a partir de 2010. Desde então, a cada dia surgem novas tecnologias e pesquisas que potencializam ainda mais o agronegócio, abrindo inúmeras possibilidades para o futuro.
Fonte: ConectarAgro

Conectividade é o maior entrave para a Expansão

Todos os especialistas ouvidos pela revista Empreende são unânimes em afirmar que o maior entrave para uma expansão maior e mais acelerada da presença da tecnologia no campo é a conectividade. “Apenas 14% das propriedades rurais têm alguma cobertura para internet. Como ampliar para as demais 86% que não dispõem desta tecnologia, condição fundamental para a utilização plena de todas as possibilidades que a tecnologia proporciona?”, questiona João Carlos Marchesan, presidente do Conselho de Administração da Abimaq.

“Cada vez mais veremos uma menor interferência humana em operações com máquinas e equipamentos que exerçam atividades repetitivas, insalubres ou que requeiram precisão. Mas é claro que o conhecimento e a intuição do produtor terão papel fundamental ao propor soluções integradas e fáceis de operacionalizar” – (Sérgio Marcus Barbosa Gerente Executivo da ESALQTec Incubadora Tecnológica)

Parte da solução deste problema pode estar em iniciativas como as desenvolvidas pelo projeto ConectarAgro, apresentado na edição 2019 da Agrishow e que reúne oito empresas: AGCO, Bayer/Climate FieldView, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble. No ano passado, o projeto levou conectividade banda larga 4G para 5,1 milhões de hectares de áreas rurais no Brasil, superando a meta inicialmente estabelecida em 100 mil ha.“

“Até pouco tempo, a conectividade vinha sendo implantada de uma forma proprietária, de uma forma exclusiva, para resolver um problema específico de um único produtor, ou grupo de produtores, criando suas próprias redes. Isso acaba onerando o produtor, pois é complexo, é caro, é uma dor de cabeça operar esta rede, só os maiores suportam. O grande desafio que encontramos foi avançar nestes espaços com o conceito de tecnologia aberta e acessível, e a solução a que chegamos inicialmente usa a faixa de 700 MHz, padrão global que permite um melhor compromisso entre cobertura e capacidade”, explica Gregory Riordan, diretor de tecnologias digitais da CNH Industrial para a América do Sul, uma das empresas integrantes do ConectarAgro.

foto shutterstock

O que já é Realidade no Emprego da Tecnologia no Campo?

• Tratores autônomos, que dispensam motoristas e são guiados por GPS;

• Sistemas de irrigação automatizados, que reduzem o custo, aumentam a média da produção e diminuem os impactos ambientais;

• Sensoriamento remoto, utilizado no monitoramento de equipamentos que cuidam da saúde das plantas, economizam tempo e fornecem análise mais precisa que a fornecida pelo olho humano;

• Reconhecimento biométrico no manejo do gado, que com base em certas características pode dizer como o animal prefere se alimentar, reduzindo desperdícios e gerando mais resultados ao produtor;

• Sensores nas colheitas automatizadas para certificar a umidade ideal do solo, ou então na seleção de frutas que estão maduras o suficiente para a colheita;

• Drones para monitoramento de plantio e de infestações de pragas e doenças em culturas, com dados georreferenciados;

• Robôs programados para remover determinados tipos de ervas daninhas, tomando decisões sobre quais herbicidas, pesticidas, fertilizantes e métodos de rega e poda podem funcionar melhor para cada tipo de cultura;

• Smartphones, possibilitando o rastreamento de padrões climáticos, inventário de equipamentos e suprimentos, gerenciamento de pessoal, controle de equipamentos de agricultura de precisão, entre outras possibilidades.
Fonte: Abimaq

Por Angelo Davanço