Uma Doce Lição de Empreendedorismo

Cleusa Maria da Silva – divulgação

Cleusa Maria da Silva, da Sodiê Doces, lembra como deixou a vida de boia-fria para criar a maior franquia especializada em bolos artesanais do País

Aos 53 anos, a empresária Cleusa Maria da Silva comanda uma marca que produz 400 toneladas de bolos por mês, com 315 lojas espalhadas por 13 Estados do País e o Distrito Federal, além de uma unidade em Orlando, nos Estados Unidos. Com faturamento de R$ 290 milhões em 2018, a projeção para fechamento dos números de 2019 é de crescimento de 7%. Dona da Sodiê Doces, Cleusa e sua família podem, hoje, aproveitar melhor a vida, mas nem sempre foi assim.

De família pobre e numerosa, Cleusa aprendeu desde cedo a ajudar a mãe no interior do Paraná. Limpar a casa e cuidar dos irmãos mais novos não era tarefa fácil para uma garota com apenas sete anos. Aos 12, perdeu o pai em um acidente e foi para Salto, no interior paulista, seguir a sina da família: trabalhar como boia-fria, acompanhando a mãe e outros cinco irmãos. “Foram quatro anos cortando cana, com as mãos inchadas de tantas picadas de abelhas”, relembra.

Já adolescente, foi levada por um tio para São Paulo, para trabalhar como empregada doméstica. Não se adaptou e voltou para Salto, onde conseguiu emprego em uma fábrica de componentes para alto-falantes. A esta altura, já havia reiniciado os estudos, cursando o supletivo. A reviravolta em sua vida ocorreu quando o patrão morreu e ela ficou próxima da viúva, que fazia bolos por encomenda. Um dia, para ajudar a patroa, Cleusa fez seu primeiro bolo. E não parou mais.

Animada com a boa aceitação de quem experimentava suas receitas e com a ajuda da mãe, a empresária abriu seu primeiro negócio, em um imóvel de 20 metros quadrados. Para ela, uma decisão difícil de tomar. “Eu precisava decidir, ter que parar com uma carteira assinada, sair de um emprego e começar um negócio, sem dinheiro, eu estava separada, tinha um fi lho de oito anos. No começo, foi muito complicado, trabalhava o mês todo e, às vezes, no fi nal, eu não tinha dinheiro para pagar a energia que consumia, mas eu sempre pensei em manter o negócio saudável, e tudo o que eu ganhava, investia na própria empresa, não sobrava nada. Eu trabalhei praticamente cinco anos sem folgar um único domingo, trabalhei todos os dias, tinha domingo que eu começava às 7 da manhã e parava às 10 da noite, mas nunca desisti, eu trabalhava, trabalhava e trabalhava”, conta.

Empresária buscou Conhecimento em Livros e Revistas

Cleusa relembra que, há 20 anos, quando começou a estudar sobre negócios e franquias, a informação não era tão fácil de ser acessada. “Sempre gostei de ler, de aprender, então, me acostumei a buscar informação onde quer que ela estivesse. Fiz cursos, comprei vários livros, toda revista com matérias sobre empreendedorismo eu lia. Nos livros e revistas, eu encontrei as informações que precisava e coloquei em prática tudo aquilo que aprendi. Hoje, penso que as informações deveriam chegar mais cedo para as crianças, elas deveriam aprender já na escola questões de empreendedorismo, a ser mais independentes financeiramente e não achar que apenas o governo vai resolver os nossos problemas, pois ele não vai.

Quando a gente entender que a nossa vida está na palma das nossas mãos e cabe a nós dar um direcionamento diferente para nossa existência, isso vai ser bom para todo mundo”, acredita.

Determinação é a Chave para Realizar Sonhos

Para a empresária Cleusa Maria da Silva, a maioria das pessoas desiste de seus sonhos logo nas primeiras dificuldades. “Um sonho só se realiza se você agir, se tiver perseverança, com foco e determinação para vencer”, diz. “Para empreender, primeiro, é preciso entender que não é fácil, depois tem que estar disposto a lutar, a abrir mão do final de semana, de uma roupa nova, é preciso abrir mão de algo menor para conquistar algo maior. Pessoas com determinação estão alguns passos à frente para vencer qualquer dificuldade que o mundo do empreendedorismo nos impõe todos os dias”, completa.

Cleusa Maria da Silva – divulgação

“Nunca tive um bolo de aniversário quando criança, mas hoje vejo a importância que ele tem em uma comemoração. Você nasce, cresce, casa… em qualquer festa, o bolo está lá, simbolizando a alegria da vida”

Novo Nome

Outro momento difícil foi quando descobriu que teria que mudar o nome do negócio. Com as coisas caminhando melhor após 12 anos de atividades e já com 74 lojas franqueadas da marca Sensações Doces, Cleusa descobriu que teria que mudar o nome por conta de um chocolate famoso no mercado. “Eu já havia pago as minhas dívidas iniciais, estava bem financeiramente e, de repente, do dia para a noite, soube que precisaria trocar de marca. Sofri muito com isso, até que, um dia, minha gerente de produção me mostrou uns rabiscos que juntavam os nomes dos meus filhos, Sofia e Diego, e assim surgiu a Sodiê Doces”, relembra.

Temendo perder a confi ança de quem havia apostado em seu negócio, ela assumiu todos os custos da troca de identidade nas lojas. “Para não assustar os franqueados eu assumi toda a dívida, contratei uma grande assessoria, troquei toda a marca, tapete, comunicação visual, tudo por minha conta. Passei mais três anos pagando dívidas para superar esta situação, mas consegui e a coisa começou a fl uir melhor”, comemora.

Hoje, Cleusa se orgulha por ter quebrado um ciclo na família – ela foi a terceira geração a encarar o trabalho pesado de boia-fria no campo. “Não ver mais a minha mãe com o rosto sujo do carvão da cana e poder dar uma casa para ela foram as minhas maiores realizações”, garante.

Dona da maior franquia especializada em bolos artesanais do País, Cleusa diz que, hoje, não vai mais para a cozinha munida de ovos, farinha, leite e outros ingredientes. “Fazer bolo é uma terapia para mim, mas dá muito trabalho, suja muita louça, prefiro comprar”, diverte-se.

Por Angelo Davanço