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Risco de recessão global demanda medidas heterodoxas

Por: Arnaldo Francisco Cardoso

Desde o anúncio feito no dia 11 de março sobre a elevação pela OMS (Organização Mundial de Saúde) do status da epidemia do coronavírus para pandemia, agravou-se radicalmente o ambiente econômico internacional que já vivia uma crise com alto nível de instabilidade e aumento dos índices de volatilidade de preços de ativos. Dois dias antes, a queda de 30% no preço do petróleo tipo Brent na abertura das bolsas asiáticas em função de desacordos entre produtores, já havia provocado quedas acentuadas em bolsas pelo mundo.

A demora da OMS em reconhecer o status de pandemia pode ser entendida como convergente com um padrão de comportamento de operadores de mercado e autoridades de governos com o objetivo retardar o reconhecimento da gravidade de crises.

Também um padrão de comportamento foi o que se viu nas primeiras medidas econômicas (cortes de taxas de juros e medidas para aumento de liquidez) anunciadas por governos nacionais e particularmente por seus bancos centrais.

Assim é oportuno resgatar apreciações como a do experiente economista norte-americano Alan Greenspam que presidiu o Federal Reserve Bank de 1987 à 2006, contidas no livro de 2013, O mapa e o território, no qual além de tratar criticamente de riscos e previsões, rememora o contexto em que se deu a maior crise do capitalismo das últimas sete décadas. No período que antecedeu a crise de setembro de 2008, que quase ninguém previu, a macromodelagem fracassou de maneira inequívoca quando mais se precisava dela […]. O sistema de análise altamente sofisticado do Conselho do Federal Reserve (FED) não previu a recessão até o momento em que a crise sobreveio. Tampouco o fez o modelo criado pelo prestigioso Fundo Monetário Internacional […]”.

O corte extraordinário da taxa de juros de 0,5 p.p. no último dia 3 anunciado pelo FED não resultou em alívio e um novo corte mais radical doze dias depois, reduzindo a taxa de juros para a faixa de 0 a 0,25% a.a. foi interpretado como sinal de reconhecimento da intensidade da crise.

Na Europa, no último dia 12, a irrefletida declaração da presidente do BCE Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, ao ser indagada sobre a elevação do spread sobre os títulos do governo italiano, teve efeito desastroso em todo o mercado europeu e, especialmente sobre a bolsa italiana que já sofria com o repentino anúncio no dia anterior, por Donald Trump, do cancelamento unilateral de voos de 26 países da Europa para os EUA.

Ao declarar que “não estamos aqui para reduzir os spreads, não é nosso trabalho” a presidente do BCE recentemente empossada e egressa do FMI, instituição que dirigiu por oito anos, pareceu desprezar o peso que tem declarações de autoridades públicas, particularmente em contextos de crise e incerteza.

Uma série de ações individuais, orientadas por demandas domésticas como as mencionadas, além de denotarem falta de aprendizado com as crises anteriores, explicitaram o atual estado de debilidade de mecanismos multilaterais de consulta e cooperação internacional.

Nessa direção, o economista norte-americano Joseph Stiglitz, laureado em 2001 com o Nobel de Economia, ressalta em seu livro O mundo em queda livre, sobre a crise de 2008, que “essa crise logo se tornou global […] os mercados financeiros internacionais se tornaram intensamente interligados — o que é evidenciado pelo fato de que dois dos três maiores beneficiários do resgate que o governo dos Estados Unidos deu à AIG (maior empresa seguradora dos EUA) eram bancos estrangeiros.”

Apreende-se, portanto, das análises dos dois experientes economistas citados (Greenspam e Stiglitz) que tanto as previsões quanto as modelagens de operação e monitoramento dos mercados se mostraram insuficientes para tornar o sistema financeiro global menos vulnerável a crises e capaz de ações profiláticas.

Se os mercados são cada vez mais interligados e interdependentes e as crises são sistêmicas e de efeitos globais, as medidas para seu enfrentamento não podem ser locais e desarticuladas.

Na última semana uma série de novas ações sinalizaram uma melhor compreensão da gravidade da crise.

O BCE deu início a uma ação defensiva em toda a região do euro voltada a restringir “spreads injustificados”.

O FED, reconhecendo seu peso no mercado financeiro e na economia internacional, propôs acordos de redução de juros em operações de swap com bancos centrais de outros países como Japão, Canadá, Inglaterra, Suíça, Suécia, Coréia do Sul, México, Brasil e com o BCE (Banco Central Europeu) entre outros, com o objetivo de aumentar a liquidez dos mercados, ao oferecer a cada um até US$60 bilhões por período de seis meses ou mais.

Depois de muita relutância, o Banco da Inglaterra cortou no último dia 20 a taxa de juros para 0,1% e anunciou aporte de recursos para compra de títulos. O mais significativo foi o anúncio de medida inédita disponibilizando 38 bilhões de libras para garantia de pagamento de 80% de salários dos trabalhadores do país por período de três meses a ser prorrogado. Somado a um conjunto de outras medidas de estímulo à economia como a suspensão do pagamento do Imposto de Valor Agregado (IVA) os três pacotes anunciados totalizam 418 bilhões de libras.

Pelas medidas apontadas acima percebe-se o reconhecimento de que uma abordagem heterodoxa combinando as tradicionais medidas de política monetária com medidas de política de renda e de oferta será a única forma de conter ou reduzir os impactos de uma recessão global já anunciada.

No Brasil, no dia 18 de março, após o decreto que estabeleceu estado de calamidade pública, um pacote de medidas econômicas contrastando com a posição até então assumida, revelou compreensão da amplitude da crise. Um novo Plano Marshall já foi invocado por um empresário diante da ameaça de paralisação econômica.

O que ainda está por vir revelará o quanto o mundo aprendeu com as crises anteriores e o quanto a presente crise nos legará além de muitas perdas e dor.

Arnaldo Francisco Cardoso é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Alphaville.

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