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Um Papo da Hora sobre Tecnologia nas Periferias

Nina da Hora
Nina da Hora – foto: Ricardo Borges

Nascida e criada na Baixada Fluminense, Nina da Hora fala sobre as experiências tecnológicas que envolvem cada vez mais jovens nas periferias brasileiras

Ana Carolina da Hora, a Nina, tem 24 anos e estuda Ciência da Computação, primeiro em uma faculdade pública de Petrópolis (RJ), depois veio a transferência para a PUC do Rio de Janeiro. Nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ela vem de uma família de professoras e gosta de dizer que tem cinco mães: a mãe, propriamente dita, a avó e três tias, todas professoras. “O estudo sempre esteve presente na minha vida, no meu ensino fundamental e médio, eu fui fazendo cursos, fiz cursos de computação gráfica, web design, depois fiz curso técnico de informática, isso me ajudou muito a trabalhar como freelancer, fazendo sites, dando aulas”, relembra.

Ainda durante a primeira faculdade, iniciou um estágio em uma escola particular na zona Sul do Rio de Janeiro. Após um ano, já estava dando aulas no colégio. “Foram três anos sensacionais, pois ajudei a construir uma cultura maker na escola. Fiz um projeto de tecnologia criativa com os alunos, que era pegar os conteúdos das disciplinas e transformar em algum jogo, em algum projeto tecnológico”, explica. Um dos projetos foi na área de literatura. Os alunos do fundamental 2 deveriam ler um livro e, ao final do ano, fazer uma encenação sobre a obra para os pais e professores. O que era para ser mais uma peça teatral no festival escolar, virou muito mais nas mãos de Nina e seus alunos. “Em vez de encenarmos uma peça de forma física, a gente fez uma encenação no Minicraft. Dividi a turma entre ilustradores, cenógrafos, roteiristas. Exploramos uma nova possibilidade permitida pela tecnologia”, aponta.

Nina da Hora
Nina da Hora – divulgação

“Quando os jovens de periferia conseguem ser protagonistas do uso da tecnologia, eles pensam muito em como compartilhar isso com outras pessoas, e isso de fato é que gera a mudança na economia, que ajuda a diminuir um pouco a desigualdade”

Engajada nas coisas ligadas à informática e às comunidades periféricas, Nina da Hora logo começou a participar de organizações cariocas destinadas a democratizar o acesso à tecnologia. Neste movimento, criou o projeto Computação da Hora. “É um trabalho que mantenho até hoje, com o objetivo de ensinar conceitos de computação de forma acessível para a galera, então eu visito escolas públicas, faço oficinas, estou construindo todo o material que as escolas vão poder utilizar de forma gratuita, por conta de parcerias que fui conseguindo”, explica.

Após dois anos de treinamento na Apple, que lhe rendeu uma viagem ao Vale do Silício, Nina trabalhou no desenvolvimento de dois apps. O Sami, já disponível, é focado em ensinar conceitos de programação para os jovens, mostrando principalmente referências de mulheres na Ciência da Computação. “Existe uma faixa etária, dos 8 aos 12 anos, em que as meninas precisam de referências para saberem que área vão seguir, e normalmente elas não encontram referências em exatas, então acham que é um ambiente masculino. E dos 8 aos 12 anos, as mulheres são muito boas na área de exatas, existem pesquisas que provam isso e, de repente, por não terem referências, elas acabam não seguindo”, avalia. Ogunhe, o outro projeto desenvolvido por Nina graças ao treinamento da Apple, é um site interativo que mostra a história das cientistas de origem africana. “Comecei a construir este projeto há três anos e agora ele está caminhando para chegar na rua, com algumas parcerias já feitas”, diz.

“Vivemos num país em que mais de 40% da população não tem acesso à internet de qualidade, então, basta ter acesso à internet para você já estar em um outro nível”

Grupos se Multi plicam nas Periferias Brasileiras

Entre os projetos ligados à tecnologia nascidos na periferia, Nina da Hora cita iniciativas como PerifaCode, Tecnogueto e Minas Programam. “São movimentos iniciados por jovens que estão na periferia, aprenderam tecnologia, são ótimos programadores, ótimos desenvolvedores, sabem muito bem do que estão falando e criaram estes grupos justamente para ensinar para outros jovens como eles e tentar fazer com eles tenham os mesmos acessos que eles tiveram ao longo de suas vidas, de experiências na área de tecnologia”, diz. “São exemplos de como você pode utilizar o conhecimento em prol da própria comunidade e ajudar as pessoas a serem protagonistas e não só ser consumidoras da tecnologia”, finaliza.

Nina da Hora
Nina da Hora – divulgação

Democratização da Tecnologia

Para Nina da Hora, a tecnologia, em um país como o Brasil, acaba reproduzindo o que ocorre em outras esferas da sociedade. “As dificuldades, as desigualdades que vemos no mundo real, estão se transportando para o mundo virtual, e o desafio é entender como fazer para estes dois lados se cruzarem. O meu maior medo é este, de a gente estar construindo dois futuros na tecnologia. A partir do momento em que a gente faz com que pessoas que vivem problemas reais consigam acesso a infraestrutura de qualidade e possam conversar com pessoas que estão vivendo um outro mundo com muito mais acesso, é um lance de você juntar dois lados que vão conseguir resolver os mesmos problemas que, querendo ou não, atingem os dois, mas de formas e intensidades diferentes”, analisa, antes de dar um recado para quem produz tecnologia no País: “Precisamos ter cuidado com as tecnologias que estamos criando, porque é preciso olhar para o nosso time, ver se a equipe que está pesquisando, que está criando, que está desenvolvendo, que está inovando, é uma equipe que tem olhares diferentes, perspectivas diferentes, vem de experiências diferentes, porque se a gente vier do mesmo lugar, não houver diversidade, aí vamos criar mais do mesmo. Não terá inovação de fato e nem a resolução de problemas reais”.

Por Angelo Davanço