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Reflexões em tempos de Pandemia: Qual Transformação Digital queremos na Gestão Pública?


Analisar, interpretar, explicar, descrever, discutir, descobrir… enfim, são tantos os verbos que nos guiam no estabelecimento de nossos objetivos de pesquisa nas ciências sociais. Contudo, neste momento tem um verbo que não sai da minha cabeça: refletir. É isso que devemos fazer como acadêmicos que observamos o mundo ao nosso redor e buscamos alinhar teoria e prática. Mas como refletir acerca do mundo em que estamos vivendo hoje, que certamente não será mais o mesmo depois desta pandemia? Como buscar inspiração em teorias acadêmicas que tanto gostamos de debater em sala de aula com nossos alunos?

Com base nessa inquietação, lancei um desafio ao Grupo de Pesquisa em Governo Eletrônico do Coppead/UFRJ: refletir sobre como a pesquisa que cada um está desenvolvendo pode trazer contribuições a este mundo pós pandemia.

Muitos pontos interessantes foram debatidos nas sessões online que o grupo realiza semanalmente. Trocamos textos opinativos brasileiros e do exterior, refletimos sob o ponto de vista de nossas pesquisas e da realidade do país. Resgatamos artigos acadêmicos que possibilitaram fazer pontes entre a teoria e a prática observada. Por fim, sintetizamos algumas destas reflexões.

O ponto de partida (ou quem sabe de chegada?) de nossas reflexões foi a tão falada e desejada “Transformação Digital” – mais especificamente do setor público. Tanto acadêmicos quanto pessoas de mercado concordam que a tal sonhada transformação passa por mudanças culturais, organizacionais e relacionais. As tecnologias acabam sendo o ferramental para que tudo isso ocorra. Assim, se resgatarmos estudos organizacionais clássicos como os de Alfred Chandler (“Estratégia e Estrutura”, 1962), Richard Hall (“Organizações: estruturas, processos e resultados”, 1972), Elton Mayo (“Problemas Humanos de uma Civilização Industrial”, 1933) e Peter F.Drucker (“Tecnologia, Gestão e Sociedade”, 1970), somente para citar alguns, veremos que estas questões não são nada originais. Estrutura, processos, tecnologia, estratégia e pessoas são dimensões que há muito tempo foram apresentadas como prerrogativas para qualquer mudança organizacional.

Dentre muitos desafios enfrentados atualmente na gestão pública brasileira, temos a necessidade de conviver com a troca de gestores. Com os novos mandatos municipal, estadual ou federal, vêm a habitual dança das cadeiras. Por um lado, servidores públicos têm a oportunidade de recriar e ampliar suas redes de relacionamentos e confiança. Por outro lado, observamos uma abundância de projetos inconclusos. Neste cenário, como imaginar uma transformação digital, necessariamente política de Estado, que demanda o estabelecimento de estrutura, processos, tecnologias, estratégias e pessoas para implementação?

Eis que então surge mais uma crise no horizonte. Desta vez, uma das grandes. “Não podemos ficar parados”, pensaram os gestores. “Tira da gaveta aquele projeto e lança do jeito que dá”! As necessidades – e as oportunidades – são as melhores executoras. Entraves antes insuperáveis são ignorados, transformações ocorrem sem resistência. Assim, meros experimentos são colocados em prática. Quando teríamos chance como esta de testar nossa infraestrutura tecnológica, todos (que têm acesso) conectados de suas casas 100% do tempo, por exemplo?

Ao mesmo tempo, viraram rotina os lamentos pelos serviços públicos ainda não-implementados: a identidade digital, que facilitaria o repasse do auxílio emergencial para covid-19; o uso de plataformas virtuais de aprendizagem e a capacitação de professores e suporte de TI, que ajudariam nas aulas online; a assinatura e a certificação digital; o acesso às redes VPN por parte de servidores públicos, que auxiliaria na segurança de dados; entre tantos outros. Nesta altura, já é tarde. O objetivo é focar energias nas variáveis ao alcance das mãos. E das canetas.

Porém, não decidimos ainda que tipo de transformação digital queremos. Se, por um lado, resistimos ao big brother de George Orwell, do livro “1984”, por outro, não definimos níveis aceitáveis de coleta e uso de dados pessoais, e de transparência do processo, por exemplo. Como Harari (FT, March 2020) apropriadamente coloca: precisamos escolher entre uma vigilância totalitária e o empoderamento dos cidadãos. Queremos uma população bem informada e auto motivada para compreender e atuar sobre os seus dados? Ou vamos preferir uma população ignorante, alienada e facilmente manipulada?

A transformação digital no setor público é um processo estruturante e, com certeza, passa por questões não-tecnológicas. Portanto, deve ser uma pauta permanente de reflexão de gestores e cidadãos. Estamos no momento ideal para realizarmos este exercício como sociedade. A janela de oportunidade está aberta e a fase de testes forçados está em curso. Temos tempo para reflexões, temos o contexto nos ajudando a pesar os prós e contras, temos organizações públicas e privadas abertas para a testagem de novas formas de fazermos algo. Dependendo da escolha que fizermos a nossa transformação digital seguirá o seu caminho.

* Marie Anne Macadar é professora de Estratégia e Sistemas de Informação do Coppead/UFRJ

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Por Carine Nascimento | Contextual Comunicação
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