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De uma hora para outra o Brasil parou e a Economia foi parar na UTI

Para minimizar o avanço do novo coronavírus todos os estados brasileiros adotaram o isolamento horizontal. O que parecia ser a única solução para preservar vidas ocasionou uma crise econômica sem precedentes

Em novembro de 2019, um dos 11 milhões de moradores da cidade de Wuhan, na região central da China, começou a sentir sintomas semelhantes aos de uma gripe: febre, cansaço e tosse seca.

Aparentemente, esse homem de 55 anos, de acordo com informações do governo chinês, foi o chamado paciente zero de uma doença devastadora que, até abril deste ano, já tinha infectado mais de três milhões de pessoas no mundo todo e provocado a morte de mais de 200 mil.

Em menos de três meses, a COVID‑19 – como ficou conhecida a pandemia provocada por um novo tipo de coronavírus – já tinha se espalhado por praticamente todos os países do mundo. Entre eles, o Brasil, onde seis de cada dez cidades já tinham registrado casos de infecção. Uma delas, localizada no noroeste do Estado de São Paulo e a 18 mil quilômetros de Wuhan, foi Ribeirão Preto

O primeiro caso do novo coronavírus no Brasil foi registrado em 26 de fevereiro deste ano, em São Paulo. Desde então, até o final de abril o país já tinha registrado quase 70 mil casos confirmados da doença e cerca de cinco mil mortes.

A principal arma contra o avanço do vírus foi ficar em casa. Todos os estados brasileiros adotaram o isolamento horizontal, uma quarentena sanitária sugerida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como a melhor forma de reduzir o avanço do vírus.

De uma hora para a outra o Brasil literalmente parou. Para combater a disseminação da doença, em poucos dias foram fechadas lojas, restaurantes, shopping centers, salões de beleza, parques e proibidas missas, cultos religiosos e atividades artísticas e esportivas, como shows e o campeonato brasileiro de futebol.

Voos foram cancelados e diversos setores industriais, como vestuário, calçado, construção civil e automotivo tiveram a produção interrompida. E, assim como milhares de brasileiros, a economia do país foi parar na UTI.

Impacto Devastador

Um relatório do Banco Central, divulgado no início de abril, mostra que o tamanho do estrago provocado pela pandemia na economia do país não é – e não será – pequeno: o documento cita projeções do Núcleo de Inteligência da revista inglesa de negócios “The Economist”, que apontam para uma queda de 5,5% do PIB brasileiro em relação ao de 2019.

Antes do vírus, a projeção era de 2% de crescimento em 2020, embora diversos economistas já apontassem números menores, em função, sobretudo, das estripulias políticas do governo Bolsonaro.

Se confirmada a queda do PIB, o Brasil estará em 3º lugar entre os piores desempenhos da economia, em uma relação de 19 países, à frente apenas de Alemanha (‑6,8%) e Itália (‑7%).

Outro levantamento, desta vez feito pelo serviço norte-americano de notícias de economia Bloomberg, mostra que o Brasil foi quem registrou a maior perda de valores dos ativos em bolsas, em uma relação de 18 dos principais países. Nessa lista, a Europa foi considerada como um país.

Até o início de abril, a bolsa brasileira atingiu o pico negativo de 49,7 pontos percentuais, à frente de países como Argentina, Colômbia, Indonésia, África do Sul, México, Austrália, Rússia, Reino Unido e Europa.

Um estudo feito no início de abril mostrou que as notificações existentes podem representar apenas 8% dos casos de COVID-19 no país. O documento mostrou uma realidade aterradora: para cada caso conhecido de infecção pelo novo coronavírus haveria outros 12 não notificados. Participaram do estudo entidades como o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz, Departamento de Engenharia Industrial e Instituto Tecgraf da PUC-Rio, Barcelona Institute for Global Health, Divisão de Pneumologia do InCor, Hospital das Clínicas FMUSP, Universidade de São Paulo, Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

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Imagem: Av. Faria Lima em São Paulo – 24 de março de 2020 – foto: @gabinolasco

Carta a Brasília

De modo geral, comércio e serviços estão entre os setores mais atingidos pelo vírus. Responsáveis por cerca de 70% do PIB (Produto Interno Bruto) e mais de 26 milhões de negócios, de acordo com informações de entidades como o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV) e a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNL), as duas áreas representam cerca de cinco milhões de negócios no Brasil

No final de março, quando os primeiros efeitos da quarentena aos serviços não essenciais começaram a deixar marcas, IDV, CNDL e outras três entidades nacionais enviaram uma carta ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para alertar sobre os efeitos que a quarentena poderia provocar nos negócios, se não houvesse contrapartidas urgentes do governo.

A ideia da reunião das entidades responsáveis por R$ 7 de cada R$ 10 do PIB brasileiros pode ser resumida em uma pequena frase da carta: “… mensurar os impactos e buscar meios de evitar um colapso das pequenas e médias empresas e dos milhões de empregos que dependem da cadeia varejista”.

Entre as propostas sugeridas, sobretudo a Paulo Guedes, estava a utilização de empréstimos para capital de giro e folha de pagamentos via operadoras de cartões de crédito, como forma de se ter mais agilidade e fugir das altas taxas de juros cobradas pelos bancos.

O documento cita “o aumento expressivo das taxas, com médias superiores a 50% e, alguns casos superiores a 70%, em operações habituais do varejo, tais como capital de giro, conta garantida, antecipação de recebíveis, risco sacado, empréstimos 4131, entre outras operações. ”

A carta também pede ao governo que crie linhas de crédito específicas para o varejo e para o setor de franquias, a serem utilizadas como capital de giro e pagas em 60 meses, com carência de 24 meses para o início dos pagamentos e juros reduzidos. Também foi sugerida a criação de outras linhas de crédito que possam ser acessadas após a crise e utilizadas para a retomada das atividades.

70% É o percentual que os setores de comércio e serviços têm dentro da composição do PIB brasileiro

Por fim, as entidades pediram a Paulo Guedes a liberação dos recursos do Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas, mantido pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para utilização como capital de giro por micro e pequenas empresas que operem no varejo e no setor de franquias.

O empresário Glauco Humai foi um dos signatários da carta enviada ao Banco Central e ao Ministério da Economia. Presidente da Abrasce (Associação Brasileira de Shoppings), ele afirmou que a entidade vem recomendando aos shoppings a negociação com os lojistas de custos como aluguel, por exemplo, como forma de reduzir o impacto da crise.

Nesse caso, em especial, a sugestão é o adiamento da cobrança até que a situação melhore. Para outras despesas, como taxas condominiais e fundo de promoção, a recomendação da Abrasce é a aplicação de descontos de 30% e 40%, no primeiro caso, e a isenção do fundo de promoção. Segundo Humai, esse movimento já trouxe um benefício de R$ 1 bilhão para os lojistas durante a crise.

“O setor de shoppings é conhecido pela sua resiliência. Já passamos por outras crises e essa será mais uma que iremos vencer. Esse momento reforça a importância da operação omnichannel, algo que os shoppings já investem.” (Glauco Humai, presidente da Abrasce)

“O setor de shoppings foi 100% atingido com a crise da COVID-19. Os 577 estabelecimentos localizados nas 222 cidades do Brasil estão fechados, seguindo as determinações dos decretos estaduais e municipais. Estamos em diálogo constante com as autoridades e com as entidades do varejo e dos lojistas e solicitamos ao governo, por exemplo, o adiamento dos impostos que impactam na folha, visando manter o fluxo de caixa dos lojistas. Também estamos negociando com os municípios o adiamento da cobrança do IPTU, enquanto a crise durar, e com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para se negociar os contratos feitos antes da crise. A preocupação é manter o fluxo de caixa. A responsabilidade de todos nesse momento é resolver a crise sanitária, mas não podemos esquecer a economia”, afirmou.

Juntos, os 577 shoppings que fazem parte da Abrasce, geraram, em 2019, 1,1 milhão de empregos, de acordo com informações do relatório “O Setor de Shopping Centers no Brasil – 2019”, produzido pela associação.

Quem assinou a Carta de Brasília

a) Abrasce (Associação Brasileira de Shoppings) – 577 shoppings no Brasil e 105.592 lojas em operação. Em 2019, faturou R$ 192,8 bilhões;

b) IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo) – reúne as maiores empresas do varejo do país, como Magazine Luíza, Centauro, Renner, Riachuelo, entre outras;

c) ABF (Associação Brasileira de Franchising) – entidade que congrega 1,1 mil marcas e 161 mil postos de venda;

d) CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas) – É formada por mais de 1,5 mil Câmaras de Dirigentes Lojistas do país, que representam cerca de 450 mil empresas, com cerca de um milhão de pontos de vendas;

e) CACB (Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil) – reúne mais de 2,3 mil Associações Comerciais e 2 milhões de empresários;

Franquias

Além de Glauco Humai, quem também assinou a carta enviada ao Banco Central e Ministério da Economia foi o presidente da ABF (Associação Brasileira de Frachising), André Friedheim.

Aliás, franquias e shoppings têm uma ligação bastante forte. Atualmente, o sistema de franchising tem cerca de 40% das lojas satélite dos shoppings centers, desconsiderando as lojas-âncora, segundo dados da ABF.

Por isso, o impacto provocado pelo fechamento dos centros comerciais foi grande. Mas, como lembra Friedheim, atingiu de forma desigual o setor. “O impacto foi grande, não só pelo fechamento dos shoppings, mas também pela quarentena ao comércio de rua. No entanto, o setor de franquias é multissetorial, ou seja, ao mesmo tempo em que tem segmentos que estão sofrendo de forma terrível com o fechamento das lojas, há outros que registram crescimento, como é o caso de supermercados, farmácias, lojas de conveniência e de alimentação”, afirmou.

Ainda não há números a respeito do estrago provocado pela COVID-19 no setor de franquias. No entanto, segundo Friedheim, até o final de maio a ABF deveria concluir uma pesquisa junto aos seus associados para saber exatamente o tamanho do prejuízo no setor e de que forma a pandemia afetou os principais setores da área de franquias do país.

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imagem divulgação

Raio X do setor de Franquias no Brasil

Desempenho do Franchising Brasileiro em 2019 Faturamento: R$ 186,7 bilhões.

Crescimento em relação a 2018: 6,8%

Dimensão: 160.958 un. instaladas no país.

Crescimento em relação a 2018: 4,7%.

Número de redes existentes: 2.918.

Média de unidades por rede: 55,2.

Crescimento em relação a 2018: 1,4%. Empregos gerados: 1.358.139.

Crescimento em relação a 2018: 4,6%.

(Fonte: relatório produzido pela ABF)

Transformação Digital

Para Friedheim, já é possível identificar alguns caminhos que poderão se tornar permanentes na economia nacional, em especial no mercado de franquias.

“Todos os franqueadores estão fazendo algum tipo de transformação digital nas suas empresas e começando a atender os seus clientes de uma maneira diferente, seja através do e-commerce, delivery, Instagram ou telefone. Enfim, não importa a forma, mas descobriu‑se que as vendas podem ser feitas, de maneira eficiente, de outras formas”, disse. “As empresas franqueadoras estão se adaptando a esta nova realidade do consumo e criando novos canais, novos formatos, e muitos deles vieram para ficar.

Outros podem ser até uma solução-tampão, temporária para esse momento de crise, mas vejo muitas empresas adotando novas tecnologias e criando novos modelos de negócios para um novo mercado”, concluiu.

Não foi apenas na relação com o cliente que a digitalização das relações acabou por se tornar a regra: a própria interação franqueador/franqueado também já começa a passar por outras formas de relacionamento.

“Antigamente, eu viajava fisicamente até o meu franqueado para dar consultoria de campo. A crise e o uso de ferramentas de reuniões virtuais mostraram que a gente pode se reunir com muito mais frequência, identificar, atacar e resolver um problema de maneira muito mais rápida de forma virtual. A crise mostrou que essa relação virtual permite que nos encontremos mais vezes e que podemos ser tão ou mais eficientes em relação às reuniões presenciais”, disse.

Um dos sinais já detectados por ele nessas reuniões foi a busca de novos canais de distribuição. “Vejo uma preocupação muito grande dos franqueadores em criar esses novos canais, envolvendo os franqueados naquela omnicanalidade que a gente tanto fala. Talvez agora ela seja colocada em prática e o que antigamente podia ser um conflito entre os franqueadores e franqueados pode proporcionar hoje uma integração maior entre os dois lados”, disse.

Reinvenção e Racionalidade

De acordo com Friedheim, a pandemia acelerou um processo de reinvenção das empresas, que vai além do aumento dos investimentos em ferramentas e soluções digitais. A pandemia, segundo ele, vai tornar as empresas mais profissionais, fazer que busquem o máximo de eficiência, cortando o supérfluo e “aquela gordurinha que passava meio que ao largo”.

Para o presidente da ABF, tanto franqueadores como franqueados estão olhando com mais atenção para a questão dos custos e do aumento da eficiência. Segundo Friedheim, esse deverá ser um dos principais aprendizados da crise: com a COVID-19, as empresas tiveram de se tornar mais eficientes, eliminar aqueles pequenos custos que, muitas vezes representam pouco, mas que somados a outros pequenos custos geram uma bola de neve que, ao final, torna‑se difícil de pagar.

Na área do franchising ligada à construção civil, o impacto da pandemia do novo coronavírus em abril já provocou queda nos negócios estimada de 30% a 40%, em relação ao mês de março.

Os números foram apresentados pelo empresário e ex-presidente da ABF, Altino Cristofoletti, e dizem respeito a regiões onde o isolamento é mais restrito. Em locais onde a COVID-19 ainda não entrou, a queda foi de cerca de 20%.

Cristofoletti é sócio-fundador da Casa do Construtor, a maior rede de aluguel de equipamentos de pequeno porte para os mercados de construção civil, limpeza e jardinagem da América Latina. A rede possui atualmente 280 lojas espalhadas pelo Brasil.

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foto: Anna Shvets no Pexels

Para o empresário, dois pontos chamam a atenção quando se fala sobre o impacto da pandemia na economia nacional: o descompasso entre as políticas nacional e estaduais de combate ao vírus e a certeza de que a forma de se trabalhar será diferente após a pandemia

“Entendemos que é uma situação complexa, mas a falta de sintonia entre as esferas de governo traz ruído e insegurança. Cuidar da saúde das pessoas e um olhar cuidadoso para as empresas não são coisas binárias, mas devem ter soluções harmônicas”, afirmou.

Segundo ele, é praticamente impossível que a economia volte a funcionar pós-pandemia sem que o governo injete diversos bilhões de reais no financiamento de soluções para pequenas, médias e grandes empresas, principalmente em setores que estão sendo muito impactados, como a própria construção civil.

Outro ponto destacado pelo empresário são as novas formas de trabalho que deverão surgir pós-COVID-19. Segundo Cristofoletti, a pandemia está impondo não apenas novas formas de relacionamento entre as pessoas, mas também com o trabalho e os negócios.

“Esse tempo acelerado de reacomodação está exigindo de todos uma mudança de mindset. Uma nova forma de pensar e de se relacionar no mundo do trabalho, que está sendo testado nesse momento, como o home office, vai promover mudanças no modus operandi de todos. Também por isso, o Brasil não poderá ficar preso a um arcabouço jurídico e trabalhista do século passado e talvez esteja aí uma grande oportunidade de se rever as relações de trabalho e capital”, completou.

Impacto Econômico no Brasil

Na primeira semana de maio, o sistema Fiesp/Ciesp, divulgou uma pesquisa sobre como a pandemia está atingindo economicamente as indústrias do Brasil.

O documento previu que 92% das indústrias esperam uma redução nas vendas entre abril e junho, principalmente devido à queda e cancelamento de pedidos e problemas de recebimento de clientes. A redução média prevista nas vendas para esse período, de acordo com a pesquisa, é de 55% e seis de cada dez empresas relataram que simplesmente pararam de receber novos pedidos.

457 Foi o número de empresas entrevistadas para a realização da pesquisa Fiesp/Ciesp, realizada entre 9 e 14 de abril de 2020

57% Empresas entrevistadas disseram que a principal medida trabalhista para tênar lidar com os efeitos da crise foi a adoção de férias para a maioria dos funcionários; reduzir salário e jornada de trabalho foi a segunda medida trabalhista mais adotada (53%) e a terceira foram as demissões (37%).

O levantamento mostrou ainda um quadro bastante negro em relação à sustentabilidade financeira das indústrias: 63% têm caixa disponível para bancar as suas dívidas só por um mês, 17% têm caixa para até dois meses e 11% para até três meses. Ou seja, de cada dez indústrias paulistas, nove tem dinheiro em caixa para aguentar 90 dias e dessas, seis só conseguem ficar em pé por um mês.

Por isso, 73% das empresas destacaram que vão precisar de crédito para capital de giro nos próximos 3 meses e que 89% desses recursos financiados serão usados para honrar a folha de pagamentos.

Raio X

A pesquisa Fiesp/Ciesp revelou que os efeitos do novo coronavírus foi especialmente devastador para as empresas de pequeno porte: 100% das micro, 94% das pequenas, 90% das médias e 86% das grandes empresas previram queda na vendas; além disso, a redução média esperada nas vendas das microempresas é de 74%, para as pequenas empresas a previsão de queda é de 57%, para as médias, de 51%, e por fim, as grandes têm uma expectativa média de redução de 47% nas vendas;

Aviação

Com o brasileiro em terra, o céu ficou sem os seus maiores pássaros. Com sede em Ribeirão Preto (SP), a VOEPASS Linhas Aéreas – antiga Passaredo – atua desde 1995 e é a mais antiga empresa de aviação brasileira em atividade no país.

Desde o dia 23 de março, as 15 aeronaves da companhia estão paradas, por causa de um período de hibernação decretado pela empresa, que também provocou a suspensão do contrato de cerca de mil colaboradores.

Até que o horizonte esteja mais limpo, não há previsão de a empresa restabelecer as rotas para os atuais 47 destinos onde atua. “O setor da aviação foi um dos primeiros a ser impactado pela paralisação (ou redução acentuada) da atividade econômica. O cenário atual de crise envolve toda a cadeia de turismo, incluindo as viagens corporativas e um conjunto de variáveis simultâneas que colocam em risco as atividades do setor como um todo”, afirmou Eduardo Busch, CEO da VOEPASS.

Segundo o executivo da companhia aérea ribeirão-pretana, não há expectativas de retomada do setor a curto prazo. No entanto, assim como André Friedheim e Altino Cristofoletti, Busch entende que, após o fim da pandemia, o modo de se trabalhar será diferente. “Acreditamos que a retomada será gradativa. A previsão de recuperação econômica dependerá do resultado das ações de contenção da pandemia e de uma redução do nível de incertezas. Acreditamos que passado o período mais crítico e a vida sendo retomada em sua normalidade ocorram realmente algumas mudanças de comportamento na forma de se trabalhar, como por exemplo, necessidade de flexibilização de horários, de processos e da presença física no escritório – que durante este período tem sido uma solução eficaz em diversas empresas”, disse.

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foto: Divulgação – VoePass

32,8% Foi o percentual de queda na demanda por viagens aéreas no mercado doméstico em março deste ano, de acordo com levantamento da Associação Brasileiras das Empresas Aéreas (Abear). É o pior desempenho desde 2009. A Abear reúne as empresas Gol, Latam, MAP, VOEPASS e Two Flex.

Como a pandemia afetou o turismo no Brasil

Participação no PIB: 3,71% (IBGE)

Principais atividades que compõem o setor: hotéis e pousadas; bares e restaurantes; transporte rodoviário; transporte aéreo; outros transportes e serviços auxiliares dos transportes; atividades de agências e organizadores de viagens; aluguel de bens móveis; e atividades recreativas, culturais e desportivas.

Previsão de faturamento em 2020: R$ 165,5 bilhões

Previsão de queda em relação a 2019: 39%Previsão de reequilíbrio do setor: 12 meses a partir do fim do Isolamento.Fonte: FGV (Fundação Getúlio Vargas)

Alimentação

Se o setor da construção civil sentiu razoavelmente os efeitos da pandemia no bolso – mesmo após a decisão do governo federal em considerar a atividade como essencial – imagine quem foi simplesmente proibido de vender fisicamente aos seus clientes, desde os primeiros momentos da crise.

Foi o que aconteceu com o setor de alimentação no país, que foi dormir com filas de clientes para almoçar ou jantar e acordou com um decreto permitindo vendas apenas pelo sistema de entrega. Clientes nas mesas, nem pensar, por causa do potencial de transmissão do vírus provocado pelas aglomerações.

A proibição atingiu em cheio os negócios do grupo Bloomin’ Brands, detentor das marcas Outback Steakhouse e Abbraccio que, desde março, mantém fechados os 115 restaurantes das duas marcas.

De acordo com o presidente do grupo no Brasil, Pierre Berenstein, a nova situação provocada pela pandemia tem feito com que todos os esforços sejam direcionados para o delivery. O projeto de entregas, que já havia sido iniciado em agosto do ano passado – e que tinha um plano de expansão previsto para ser aplicado em dez meses – saiu do papel em dez dias.

“E, para isso ser possível, foi necessário o fim da burocracia. Propusemos uma abertura na comunicação entre os funcionários, independentemente de hierarquia e foi tudo um sucesso. Nós estamos levando uma experiência de altíssima qualidade para dentro da casa dos nossos consumidores”, afirmou.

“A principal lição que podemos tirar dessa pandemia é que estamos aproveitando esse momento para reaprender como nos reconectar com o consumidor, manter o link com a sociedade e com as pessoas. Descobrimos que digitalizar não quer dizer afastar.” (Pierre Berenstein, presidente da Bloomin’ Brands no Brasil)

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Pierre Berenstein, presidente da Bloomin’ Brands no Brasi – foto divulgação

Segundo Berenstein, um dos pontos que o delivery fez questão de manter, no caso do Outback, foi fazer com que os clientes continuem tendo acesso a um dos símbolos da marca, entregue ao cliente com uma espécie de manual para a sua produção dentro das normas adotadas nos restaurantes.

“A gente sabe o quanto os clientes do Outback amam o nosso pãozinho australiano, que é dado como boas-vindas nos nossos restaurantes antes da refeição, e nós fizemos questão de manter isso no nosso delivery. Estamos enviando como cortesia, em todos os pedidos, o famoso pão e a manteiga, explicando como aquecê-lo para deixar igual ao do restaurante. Além disso, para o cliente ter a verdadeira experiência Outback em casa, enviamos uma carta com instruções, sugerindo que ele acesse o aplicativo Spotify e busque pela playlist “Outback Brasil”, que tem todas as músicas que tocam no salão das lojas”, disse.

Berenstein é um dos poucos executivos que relativizam o espaço que o delivery irá ocupar, pós-pandemia, nas receitas de empresas como as que preside. “Eu acho que algumas coisas vão mudar depois que este período passar. Quando pensamos em receita e faturamento, talvez a porcentagem de delivery aumente no pós-crise. Hoje, por causa do momento em que vivemos, o delivery ganha uma aceleração enorme, mas não significa que não conseguiremos retomar as atividades com força. Isso porque o delivery não concorre com os restaurantes”, afirmou.

Na avaliação do CEO da Bloomin’ Brands, o que parece estar fora de dúvida é que a forma de trabalhar vai mudar, pelo menos no seu setor. Segundo ele, os clientes vão valorizar ainda mais o momento de consumo e passar a exigir mais das empresas. “Se hoje nós já estamos atentos às necessidades do consumidor, vamos ficar ainda mais, porque a experiência será priorizada em todas as frentes, seja para quem vem até o restaurante ou para quem pede de casa. O que vai importar para o novo consumidor é ter uma boa experiência, independentemente de onde ele esteja. É importante pensar nos detalhes, embalagem, apresentação e, claro, qualidade”, concluiu.

Vestuário

Na última semana de março, a consultora técnica do Instituto Senai de Tecnologia Têxtil e de Confecção, Michelle Souza, coordenou um estudo destinado a avaliar de que forma os efeitos do novo coronavírus impactaram na indústria têxtil.

Os resultados foram preocupantes, mesmo levando-se em conta que a pesquisa envolveu apenas 62 representantes da cadeia produtiva dos setores de moda, têxtil e de confecção. Entre outros números, o trabalho conduzido por ela mostrou, por exemplo, que 70% das empresas consultadas estavam com a produção parada e que 66% não trabalham com o mercado externo.

Mas, o dado mais inquietante é o que mostra que sete em cada dez empresas (70%) disseram não estar preparadas financeiramente para situações inesperadas, como foi o caso da pandemia do novo coronavírus. Além disso, uma em cada cinco (20%) não tem a menor ideia de como será o seu modelo produtivo após a COVID-19.

Mas, para Michelle, apesar de ter um impacto evidente no setor, a chegada da pandemia pode ter sido a gota d’água em uma área que já mostrava problemas. “Eu acredito que a pandemia tornou visível uma situação que já existia e isso ficou mais evidente em todo o sistema que a gente tem. O setor ficou muito dependente, por anos, da cadeia produtiva da China. Então, quando a pandemia se tornou uma realidade, houve uma desestabilização geral, porque as fábricas na China foram os primeiros lugares a fechar e isso acabou com o fornecimento do mundo, especialmente no setor de moda”, afirmou.

Mas se os problemas causados pelo novo coronavírus são de conjuntura, a estrutura já apresentava alguns problemas mais antigos. De acordo com a consultora do Senai, a crise deixou bem evidente que as empresas não estavam preparadas para ter o capital de giro para lidar com riscos como o que aconteceu.

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Voluntários fazem mutirão para produzir máscaras no RS – foto: Leonardo Andreoli

“Essa situação deu uma chacoalhada nas empresas, de pensarem em ter um capital de risco para situações parecidas como essa que a gente está vivendo agora. O problema é que como há muitos anos não se passava por uma situação como essa, acho que podemos dizer que houve um pouco de despreparo, imaturidade empresarial”, afirmou.

Formada em engenharia têxtil com especialização em moda e coordenadora do curso de pós-graduação MBI em Indústria Avançada: Confecção 4.0 no Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Senai Cetiqt), ela acha que a relação com a China deverá ser um dos itens a serem repensados, após o fim da crise. “Eu vejo que muitas empresas estão revendo a própria cadeia de suprimentos para não ficar dependentes de um só lugar, que foi o que aconteceu agora”.

Outro ponto que, segundo Michelle, deverá mudar na indústria têxtil, é uma provável transformação do modo de se trabalhar. Segundo ela, é inevitável que o setor invista tanto na automação da produção e na implementação de tecnologias 4.0, que vão exigir que os profissionais se adaptem a essa nova realidade, voltada para a digitalização dos processos de confecção.

98% é o percentual de empresas da área têxtil que afirmam que foram afetadas pelo cancelamento ou adiamento de pedidos, de acordo com um levantamento feito entre 16 e 26 de março pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Para ela, no entanto, isso não significa que parte dos cerca de 1,5 milhão de empregados na cadeia produtiva têxtil, de confecção e da indústria química vão perder os seus empregos. Segundo Michelle, o que deverá ocorrer é a necessidade de os atuais profissionais transformarem o conhecimento que precisam ter. Ou seja, assim como as empresas, os funcionários também terão de se reinventar.

“Vou dar um exemplo. A gente trabalha muito com modelagem manual, mas está havendo um movimento grande de migração para a modelagem digital. Então, o que se percebe é que muda a qualificação da pessoa e, normalmente, quem sabe mexer hoje com o digital ganha até um pouco mais. Então, eu acho que vai haver essa migração da exigência do conhecimento e isso vai valorizar serviço e salário”, concluiu.

E AGORA, PRA ONDE VAI O BRASIL?

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Maílson da Nóbrega economista e ex-Ministro da Fazenda do governo de José Sarney – foto: Divulgação

A Revista Empreende entrevistou o economista e ex‑ministro da Fazenda, durante o período de hiperinflação na década de 1980, Maílson da Nóbrega, para saber o que pode acontecer com o país durante e após a crise causada pela pandemia da COVID-19. Entre as previsões feitas pelo economista estão o estabelecimento de uma relação de dependência menos profunda em relação a China, o surgimento de novos polos internacionais de negócios e, por fim, os riscos de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Empreende: O governo de Jair Bolsonaro talvez tenha sido o que mais questionou o papel do Estado na economia, de todas as administrações que o país teve praticamente desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, a ocorrência da pandemia do novo coronavírus e os seus impactos na economia deixaram claro que dificilmente sairemos da crise sem a aplicação de um pacote de medidas muito semelhante ao New Deal americano, da década de 1930. O senhor concorda com isso? É a vingança de Keynes contra Guedes? Como avalia as medidas adotadas pelo ministério da Economia até agora para tentar retardar a retração causada pelas sucessivas quarentenas impostas à economia?

Maílson da Nóbrega – Você tem certa razão. Um governo partidário do estado mínimo se revelou o mais intervencionista da história. Não creio que Keynes tenha se vingado de Paulo Guedes. Em situações como essa, o Estado cresce em tamanho e atuação, pois somente ele tem a força para mobilizar vastos recursos e capacidade operacional para salvar vidas, manter o máximo possível a renda dos segmentos menos favorecidos, preservar empregos e manter as empresas funcionando muito próximo do normal, evitando a desorganização que dificultaria a recuperação que virá quando a pandemia acabar. As medidas do governo se assemelham às adotadas em outros países, principalmente nos mais ricos. Em resumo, o governo demorou, mas terminou agindo na direção correta.

Empreende: A COVID‑19 mostrou um mundo e um Brasil despreparados para enfrentar os efeitos de uma crise que afetasse as economias de forma tão intensa. No caso do Brasil, que lições podemos tirar da pandemia? Em sua opinião, o que muda no país após o fim da doença?

Creio que o Brasil, a exemplo do que ocorrerá em outras partes do mundo, vai se preparar melhor para uma nova pandemia, que fatalmente ocorrerá. A crise intensificou a percepção da gravidade da desigualdade em todo o mundo e revelou a inconveniente dependência do suprimento de produtos médicos pela Ásia, particularmente a China. Muito provavelmente, o Brasil e outros países buscarão produzir esses bens internamente, ainda que ao custo de menor eficiência e produtividade. Nessa mesma linha, haverá uma reconfiguração das redes mundiais de suprimento, excessivamente centradas na China e em outros países asiáticos. Se o Brasil se preparar para essa nova realidade, poderá ganhar com investimentos de multinacionais interessadas em diversificar suas fontes de suprimento de partes, peças, componentes e até de produtos finais (caso, por exemplo, de celulares e outros aparelhos eletrônicos).

Empreende: O economista do IDP, José Roberto Afonso, defendeu a tese de que Estados e municípios não tenham a rolagem de suas dívidas suspensa, em função da pandemia. Em vez disso, ele sugere que os pagamentos sejam feitos em serviços sociais e de saúde. Como avalia essa tese?

Em tese, o Zé Roberto está certo, mas creio que a realidade impôs a solução que está sendo buscada no Congresso. Trata-se de uma emergência. Não dá tempo para que se espere para tipificar e pagar por serviços sociais e de saúde.

Empreende: Depois da saída dos ministros Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro, em um intervalo de duas semanas, já se especula que o até agora homem‑forte do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, também está com o cargo em risco. Caso isso aconteça em meio ao cenário de pandemia que efeitos pode causar na economia do país?

Por ora, não vejo Paulo Guedes ameaçado de perder o cargo. Já chega, para Bolsonaro, o desgaste da demissão de Sérgio Moro. Ele viu a repercussão nos mercados e os efeitos negativos em sua popularidade. Se demitir Guedes, a crise de confiança será gigantesca e dificilmente conseguirá encontrar um substituto à altura. Não se pode, contudo, descartar esse risco. Passada a pandemia, ficará o estrago na economia, que poderá encolher 4% a 6% ou mais. O desemprego pode saltar para 15%, agregando mais quatro a cinco milhões de trabalhadores sem emprego. Bolsonaro pensa essencialmente na reeleição e por isso pode querer um plano que gere milhões de empregos, ainda que com financiamento do Tesouro. Guedes, naturalmente e com razão, deve opor‑se a essa aventura. O confronto pode levá-lo à demissão. Também pode ser que Bolsonaro se contente com a má sorte de presidir o Brasil na maior crise econômica de sua história, renuncie ao projeto de reeleição e fique com o Guedes até o fim de seu governo. A ver.

Empreende: Se fosse ministro da Economia do Brasil, que medidas teria tomado e que a atual equipe econômica ainda não fez?

Dificilmente teria mais a fazer do que já saiu e vai sair de medidas, caso do auxílio aos governos estaduais e municipais. Talvez tenha faltado uma garantia do Tesouro para evitar o empoçamento, nos bancos, dos recursos liberados para a concessão de crédito, resultante das medidas do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central, mas parece que as operações começaram a fluir.

Por José Manuel Lourenço