Indústria de Bens de Consumo passa por Transformações

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foto: Anna Shvets no Pexels

Durante a pandemia, brasileiro troca produtos que leva à mesa, se preocupa mais com higiene e limpeza e valoriza a necessidade de morar bem

A crise mundial provocada pela pandemia do novo coronavírus trouxe uma realidade comum para dentro da casa de cada pessoa: a necessidade de adaptação imediata a um novo modo de trabalho e de convivência social e a reflexão de como serão os hábitos daqui para frente, com forte impacto sobre toda a cadeia de produção e circulação de bens de consumo, como alimentos, itens de higiene e limpeza, vestuário, veículos e imóveis.

Necessidade básica de toda a população, o setor alimentício recebe especial atenção em momentos de crise como o que estamos vivendo. Neste cenário, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) criou um comitê de crise em parceria com a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) e a Associação Paulista de Supermercados (APAS) para acompanhar diariamente a situação do abastecimento de alimentos em todo o território nacional. De acordo com a entidade, a logística de abastecimento seguia dentro da normalidade para o mês de abril, assim como os estoques, e não havia, até aquele momento, nenhum risco de falta de alimentos no país.

Em seu monitoramento do mercado brasileiro, a Euromonitor International constatou que os alimentos embalados eram os mais beneficiados no curto prazo no início das medidas restritivas [em março], com os consumidores ficando em casa e substituindo as ocasiões de “comer fora” por comida caseira. Segundo levantamento da Kantar Brasil Insights, produtos como linguiças, embutidos e carne de frango, itens mais básicos, ganharam espaço em meio à crise. Este comportamento reflete fatores como o fim do processo de estocagem inicial de alimentos e a diminuição da renda das famílias, com a crise econômica ficando mais severa. “Sem dúvida, será um período de sacrifícios e adaptações, mas não muito diferente de outras crises que nós, brasileiros, estamos acostumados”, avalia o consultor econômico e financeiro José Rita Moreira, sócio diretor do grupo BLB Brasil.

Na área de higiene, limpeza e cuidados pessoais, logo nos primeiros sinais da COVID-19, o Brasil experimentou uma corrida por produtos como papel higiênico e álcool em gel, o que levou à alta de preços e ao fim dos estoques. Um dos símbolos da crise sanitária mundial, o álcool em gel apresentou um crescimento de 260% em volume de vendas em fevereiro de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior, chegando a aproximadamente 100 toneladas consumidas, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Este crescimento refletiu apenas parte da corrida pelo produto no mercado brasileiro, considerando 26 de fevereiro o dia em que o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil

Para dar conta da demanda e normalizar a oferta, a ABIHPEC adotou iniciativas junto aos governos para a simplificação dos processos de produção. Antes da crise pandêmica, o Brasil era importador de carbômeros (espessantes utilizados para conferir textura de gel no produto) para a produção do álcool em gel, o que também impactava no acesso da população ao produto. No entanto, segundo a entidade, toda a cadeia produtiva reagiu de forma rápida para o enfrentamento à crise sanitária, desenvolvendo espessantes alternativos. Com isso, o ingrediente passou a ter maior produção nacional e sua disponibilidade aumentou, favorecendo a regulação entre oferta e demanda.

Com as pessoas ficando mais tempo em casa, a preocupação com os cuidados pessoais também sofreu impacto. Segundo balanço divulgado pela Unilever, umas das maiores empresas de produtos de higiene do mundo, as quarentenas em diversos países diminuíram em até 25% a procura por produtos como xampus, condicionadores, desodorantes, cremes hidratantes, lâminas e espumas de barbear.

Por outro lado, com mais gente preparando suas próprias refeições e fazendo a faxina em casa, houve aumento na procura por produtos de limpeza em geral, com alta nas vendas de 10% para detergentes, desinfetantes, desengordurantes e alvejantes, segundo a Unilever.

As fases de consumo durante os primeiros meses do novo coronavírus no Brasil

A partir do anúncio das medidas de restrição em todo o país, o comportamento de consumo do brasileiro, que impacta toda a cadeia de produção e distribuição, pode ser dividido em três fases:

1. As duas primeiras semanas foram marcadas pelo momento em que se sentiu o impacto maior do fechamento do comércio, em que os consumidores priorizaram os itens de alimentação, medicação, higiene pessoal e limpeza em suas compras;

2. A partir da terceira semana, com as pessoas mais ambientadas com o distanciamento e o home office, começaram as buscas por artigos de saúde e bem-estar, como os itens para a prática esportiva em casa;

3. Depois dessas fases, o consumidor passa a se apropriar do comércio eletrônico, adquirindo confiança nas novas ferramentas e mudando os hábitos de compra.

Fonte: Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX)

Novos hábitos de consumo

Medida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a Intenção de Consumo das Famílias (IFC) caiu 2,5% entre março e abril. Com o recuo, o indicador foi para 95,6 pontos, em uma escala de zero a 200 pontos, o menor nível [naquele momento] desde novembro de 2019.

De acordo com a pesquisa, todos os níveis de consumo apresentaram queda nos dois primeiros meses de coronavírus no país: nível de consumo atual (-2,4%); perspectiva de consumo (-5,5%) e momento para a compra de bens duráveis (‑5,9%). Os dados levantados pela pesquisa refletem a situação comum em muitos lares brasileiros. “Como evitamos sair de casa durante a quarentena, diminuímos as idas ao supermercado, mas quando é preciso, compramos um volume maior, uma quantidade suficiente para um mês ou mais”, diz Andréia Moreno, jornalista de 45 anos, sobre a rotina de compras dela, do marido e do casal de filhos, de 11 e 6 anos. Mas, mesmo com um volume maior de produtos na hora de passar no caixa, a variedade diminuiu. “Neste momento, não compramos nada além do necessário em alimentos e produtos de higiene”, garante.

Antes mesmo da crise sanitária e econômica, a moderação na hora de consumir já fazia parte da rotina da família do professor Vitor Gabriel Coelho Ribeiro, de 35 anos. Ele e a esposa Monica já tinham o hábito de abastecer a despensa somente conforme a necessidade, mas agora, a precaução se tornou ainda maior. “Diminuímos muito as saídas de casa e só compramos o que é realmente necessário. O único item que acrescentamos em nossa lista foi o álcool em gel, embora seja algo raro de se encontrar em qualquer mercado”, afirma Vitor, pai de uma menina de 1 ano e 10 meses.

Para José Rita, o comportamento das famílias de Andréia e Vitor refletem o atual cenário de incertezas gerado pela pandemia. “O consumidor tem que se reinventar, preocupando-se em gastar somente o necessário, pois tem dúvidas sobre o processo de retomada, com respeito ao ambiente econômico e de empregos e quanto tempo levará para se estabilizar”, avalia o economista.

O que esperar do comportamento do consumidor?

Independentemente do setor, denominadores comuns importantes devem impulsionar o comportamento do consumidor no Brasil nos próximos meses, de acordo com a Euromonitor International:

• Gargalos nas cadeias de produção e distribuição: Forças de trabalho reduzidas podem criar ou piorar cenários pré-quarentena;

• A concentração de vendas em alguns setores no primeiro e segundo trimestres de 2020 pode não ser mantida durante todo o ano: O nível de estoque de produtos é inédito para a indústria brasileira e os fabricantes não estavam preparados para gerenciar a produção inesperada;

• Teste de resistência para o varejo: As estruturas omnichannel se tornaram mais importantes do que nunca e serão consistentemente testadas em um cenário em que lojas não essenciais devem passar por períodos fechados;

• Reestruturação de ocasiões de consumo: Enquanto há novas ocasiões que impulsionam a demanda por produtos como streaming e videogame, outros, como restaurantes, hotéis e entretenimento, estão sendo prejudicados por oportunidades perdidas;

• Coisas mais importantes primeiro: A priorização de itens essenciais pode compensar os sinais tímidos de recuperação que muitos setores tentavam realizar após a crise econômica de 2014‑2018 ‑ resultado de gastos governamentais insustentáveis, instabilidade política e falha do modelo econômico.

(Fonte: Euromonitor International)

Setor têxti l aproveita momento para se reestruturar

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Edmundo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) – divulgação

O setor de produção têxtil, de confecção e da indústria química, mercado que no Brasil possui mais de 25 mil empresas e emprega cerca de 1,5 milhão de pessoas, também está sentindo os efeitos da crise do novo coronavírus.

Segundo pesquisa feita pelo Instituto Senai de Tecnologia Têxtil e de Confecção, a maioria das empresas (51,6%) sofreu os efeitos da pandemia no fechamento da produção. Para outras (24,2%), o maior impacto foi observado no fornecimento de produtos a clientes, enquanto 6,5% foram afetadas no abastecimento de materiais e insumos. Do total de entrevistados, 49,2% tiveram seus pedidos reduzidos; para 47,5%, as datas de entrega foram postergadas. As informações são da Agência Brasil.

A pesquisa aponta, ainda, que 20% das empresas do setor não souberam informar como será seu modelo produtivo depois da pandemia. As restantes apostam na valorização dos produtos nacionais e na compra em mercados locais, além da automação da produção e implementação de tecnologias 4.0 para conseguir trabalhar remotamente

Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), que representa as principais redes de varejo de moda do país, neste momento, o foco do setor está na preservação do emprego e renda, buscando caminhos alternativos e seguros para a economia voltar a operar normalmente.

Para o futuro, a entidade também aposta em uma mudança nos hábitos de consumo. “As marcas estão se reestruturando durante a pandemia para melhorar a experiência do consumidor no e-commerce e esta é uma das lições para o varejo de moda: ampliar a atuação no comércio eletrônico, com maior disponibilidade de produtos e melhores condições de entrega e troca”, finaliza Edmundo.

Indústria da construção civil aposta na valorização do ‘morar bem’

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Ricardo Telles, Diretor Presidente da PERPLAN – divulgação

Antes da pandemia de COVID-19, a jornalista Andréia Moreno e o marido planejavam comprar um imóvel. “Agora, vamos ter que adiar esta aquisição até que a situação econômica volte ao normal”. Mas, no que depender da indústria da construção civil, o sonho de Andréia e família pode não demorar muito para ser realizado. “Percebemos que o interessado em adquirir imóveis deixou de ir a plantões de vendas durante a pandemia, porém notamos um aumento das consultas de comercialização de imóveis pela internet”, avalia Odair Garcia Senra, presidente do SindusCon‑SP (Sindicato da Construção).

“O que fizemos neste momento foi buscar o consumidor por meio das mídias e do marketing digital. Lançamos campanhas promocionais que podemos chamar de ‘ações de tiro rápido’. São oportunidades de negócio, principalmente, para quem já vinha negociando conosco”, destaca Ricardo Telles, diretor presidente da Perplan Urbanização e Empreendimentos.

Outra aposta do setor é que, durante a pandemia, o consumidor passou a valorizar mais a necessidade de se morar bem. “No isolamento social, um imóvel que proporcione conforto ao seu usuário passou a ser tão importante quanto, por exemplo, a internet. O imóvel adquiriu este valor intrínseco. E não tenho dúvida de que, quando passar a pandemia, quem puder mudar de residência e ir para um imóvel maior, por exemplo, irá fazê-lo”, avalia Odair. “Tenho a convicção que comprar um imóvel sempre será um desejo ao longo da vida das pessoas. Não importa o momento da vida que elas estejam, sempre estarão procurando algum imóvel diferente do que têm hoje, seja pelo excelente investimento que sempre foi e será, ou pelas mudanças em seus ciclos de vida”, completa Ricardo.

Caminhões e máquinas agrícolas compensam produção de veículos em queda

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou que a produção nacional de veículos automotores em abril teve queda de 99,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O número é o pior da história da indústria automobilística nacional desde 1957, quando os dados começaram a ser computados. De acordo com a entidade, os resultados foram consequência direta da pandemia da COVID-19.

Com quase todas as fábricas paradas ao longo do mês de março, apenas 1.847 veículos foram produzidos, entre automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, um tombo de 99% sobre o mês anterior e de 99,4% sobre abril do ano passado.

De acordo com a entidade, com as medidas de distan-ciamento social, 63 fábricas do setor interromperam as atividades até o início de abril, afetando 123 mil trabalhadores em dez estados. “O momento é de priorizar a saúde da população, e todas as nossas associadas deram sua contribuição no combate ao Coronavírus, seja reparando respiradores, seja produzindo e doando máscaras, ou mesmo cedendo suas frotas para as mais diversas finalidades. Mas também é hora de uma conscientização de todas as esferas do governo, bancos e sociedade para criar mecanismos que permitam à cadeia automotiva atravessar esse período de retração com a preservação das empresas e dos empregos”, alerta o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes.

Caminhões e máquinas agrícolas

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Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil & CEO América Latina da companhia – divulgação

As vendas de caminhões apresentaram pouca oscilação quanto a fevereiro deste ano. Em março, manteve-se o mesmo desempenho, de cerca de 6,4 mil unidades emplacadas. “As empresas de transporte e os caminhoneiros autônomos não deixaram de trabalhar a fim de garantir o abastecimento de alimentos, medicamentos e outros itens essenciais para as famílias, hospitais e unidades de saúde. Além disso, seguem fazendo o transporte de cargas e produtos da nossa indústria e de outros setores da economia”, aponta Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil & CEO América Latina da companhia.

As máquinas agrícolas observaram um saldo positivo para março, já que a maioria das fábricas funcionou até o começo de abril, e as vendas estavam aquecidas em função da época de colheitas. Na comparação com o mês anterior, as vendas avançaram 46%, as exportações, 19% e a produção, 15%.

As fabricantes de máquinas agrícolas garantem ter estoque para atender os produtores rurais, atividade considerada essencial, com ou sem crise na saúde. “Quando o pico da pandemia passar e as coisas começarem a voltar a um novo normal, o setor de transporte certamente será um dos primeiros a puxar a retomada. A colheita da nova safra de grãos já começou, assim como a de cana-de-açúcar, além de outras atividades do agronegócio. Esperamos que tudo se ajeite na saúde e, claro, também na economia do País”, finaliza Philipp Schiemer..

Por Angelo Davanço