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Digitalização é palavra-chave para Empresas durante Pandemia

Isolamento social mudou a rotina de trabalho e aumentou a procura de empresas por auxílios, desde empréstimos até novas tecnologias

Home office, Zoom, e‑commerce, EAD, abertura parcial. A pandemia causada pela COVID-19 mudou não apenas nossa maneira de viver, como também de trabalhar. A linguagem utilizada nas reuniões virtuais ganhou novas palavras – e essa foi a menor das mudanças ocorridas.

No Brasil, o isolamento social imposto pelos Governos Federal desde março fez com que comércios tivessem que fechar as portas, casas se transformarem em escritórios, restaurantes se adaptarem para entregar os alimentos nas casas dos clientes e supermercados ganharem filas quilométricas para evitar o contato entre as pessoas. “A realidade é que os tempos são difíceis e o novo cotidiano exige maior adaptação de alguns segmentos”, afirma Marina Mendonça Marinzeck, analista de negócios sênior do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Mas mesmo com as adaptações, algumas áreas seguem com extrema cautela nesse momento. De acordo com um mapeamento realizado pelo Sebrae, a quarentena afetou o entretenimento, turismo, beleza e bem-estar, economia criativa, eventos, moda, logística e transportes e alimentação fora do lar. Para Nelson de Souza, presidente da Desenvolve SP – O Banco do Empreendedor, esse cenário negativo é especialmente assustador para as micro, pequenas e médias empresas, que sofrem os impactos econômicos que acompanham a pandemia de forma ainda mais veloz que as demais.

A instituição financeira do Governo de São Paulo que, por meio de linhas de crédito de longo prazo, fomenta o crescimento planejado das micro, pequenas e médias empresas e dos municípios paulistas, recebeu, entre os meses de março e abril, mais de 13 mil pedidos de financiamento. Para auxiliar os empreendedores foram disponibilizados R$ 475 milhões, além dos R$ 175 milhões do Banco do Povo, que atende ao microempreendedor.

“Desde março estamos com condições especiais de financiamento para que as empresas paulistas consigam honrar seus compromissos mais urgentes e passem por esse momento adverso, mas temporário. As empresas dos setores de turismo, cultura e economia criativa e comércio, que são os que mais sofrem e que apresentaram o maior número de pedidos de financiamento, contam com condições ainda mais diferenciadas de crédito”, explica Nelson.

De acordo com o professor de economia da Escola de Administração de Empresas da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Samy Dana, medidas assertivas como a facilidade de crédito, redução de juros e alongamento de prazos são importantes nesse momento. “Claro que isso depende do perfil do tomador, afinal, nenhum banco deve ser obrigado a emprestar para quem acha que não vai pagar”.

Entretanto, Samy alerta que apesar da facilidade e variedade de créditos nesse momento, é importante não esquecer que o empresário está adquirindo um empréstimo, que possui suas amarras. “As linhas de crédito são boas opções para quem precisa. Obviamente, empresas que conseguem andar sozinhas não devem pegar, pois esse dinheiro não é gratuito, sobretudo quando vem via banco”, explica o professor.

Já o Governo Federal, segundo o especialista, está agindo bem nas ações de ajudar os mais vulneráveis e as empresas, como com o Auxílio Emergencial de R$ 600 para os informais e autônomos. “Acredito que a ajuda deverá ser feita até as pessoas e empresas voltarem a trabalhar”, complementa.

As linhas de crédito são boas opções para quem precisa. Obviamente, empresas que conseguem andar sozinhas não devem pegar, pois esse dinheiro não é gratuito, sobretudo quando vem via banco” (Samy Dana)

Digitalização é palavra-chave para Empresas durante Pandemia - Samy Dana
Samy Dana – Foto Gui-Gomes

Inovar é Preciso

Para Samy, tecnologia é uma das palavras-chave para esse momento de crescente instabilidade socioeconômica. Não apenas nos computadores ou celulares, ela também pode ser usada na criação de uma nova maneira de lidar com os possíveis problemas e solucionar as necessidades. O professor de economia frisa que esse é um momento de refletir, fazer novas estratégias e tornar as empresas mais eficientes. “O mundo será diferente em um cenário pós–coronavírus. Ele será mais remoto e as empresas devem se preparar para isso”. E unir a tecnologia com uma nova maneira de trabalhar é o objetivo de startups como o Olist, que em um mês registrou um aumento de mais de 1.500 lojistas na plataforma.

Com o propósito de ajudar varejistas a acelerarem suas vendas, a startup trabalha com as 13 principais marketplaces do Brasil, como Mercado Livre, Americanas, Via Varejo e Amazon, além de montar vitrines virtuais dos produtos dos comerciantes, lhes dando mais visibilidade. “Sabemos que muitos comerciantes não atuam vendendo no on-line e acabam perdendo muitas oportunidades de vendas nesse universo gigantesco de clientes. Neste contexto, nós facilitamos a venda no ambiente on-line ajudando driblar a crise, conectando quem quer vender com quem tem interesse em compra”, explica Tiago Dalvi, CEO do Olist.

Mas mesmo com o trabalho do Olist, depende do comer-ciante apresentar um produto atraente. Por isso, a dica para quem pensa em vender on-line é redobrar a atenção no cadastro das mercadorias. “É primordial que você tenha uma boa foto, um bom título, uma descrição detalhada e um preço competitivo”, reforça Tiago.

Dorival Balbino, presidente da Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto), afirma que a transição para o e-commerce fazia parte do cenário do comércio antes mesmo da pandemia. “A transição impôs um cenário de mudanças profundas com o qual as grandes redes têm muito mais condições de se adaptar e competir do que o pequeno varejista”.

Segundo Dorival, dados de adquirentes de cartões de crédito e débito indicam queda de 53% do comércio no mês de março. “Contudo, é importante notar que dentro dessa média há empresas que não faturaram absolutamente nada. O comércio de bens duráveis, por exemplo, caiu 80% na quarta semana de março”. O presidente também não tem dúvidas de qual será o principal impacto dessa crise: o aumento do desemprego, da pobreza e da desigualdade social. “E para piorar, a previsão é a mais pessimista possível, de uma retomada muito lenta e ainda sem data para acontecer”, lamenta.

Para auxiliar os empreendedores nessa retomada, o Sebrae disponibilizou uma gama ainda maior dos serviços on‑line prestados. Além de intensificar o atendimento remoto, o órgão está oferecendo cursos gratuitos on-line, além de realizar transmissões ao vivo nas redes sociais na tentativa de auxiliar o empreendedor a passar a crise.

Para Ricardo Lemos, CEO (Chief Executive Officer) da Ally, dar dois passos para trás permitiu que a empresa desse três passos para a frente. O Ally foi incubado pelo Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto em 2016 como um software para agências de intercâmbio e escolas internacionais, oferecendo valores das escolas e também ferramentas que conectam as agências, fornecedores e escolas. “Nós sempre quisemos disponibilizar a ferramenta para outros segmentos, mas precisava de uma boa desculpa para parar a pesquisa na área de agências de intercâmbio e escolas e investir nessas outras possibilidades”.

“Sabemos que muitos comerciantes não atuam vendendo no on-line e acabam perdendo muitas oportunidades de vendas nesse universo gigantesco de clientes” (Tiago Dalvi)

Tiago Dalvi, fundador e CEO do Olist. foto: Julia Yazbek-Endeavor Brazil
Tiago Dalvi, fundador e CEO do Olist. foto: Julia Yazbek-Endeavor Brazil

A oportunidade de inovar surgiu a contragosto, quando eles viram em um período de duas semanas a quantidade de voos diminuir, países fechando fronteiras e o número de clientes cair 80%. “Quando vimos isso acontecer, nos perguntamos se valia a pena continuar desenvolvendo algo específico para um mercado incerto. Em três semanas, criamos um produto genérico para pequenas empresas”, completa Ricardo.

E em apenas uma semana de vendas (no momento em que a entrevista foi realizada), o Ally já havia conquistado oito novos clientes, como um escritório de advocacia, uma loja de peças automobilísticas e uma produtora de vídeos. “No fundo, acho que foi positivo. Era algo que já devíamos ter feito há muito tempo e precisávamos desse empurrãozinho”, avalia o executivo.

Novas Maneiras de Trabalhar

De nada serve uma empresa sem funcionários. Mas com as portas fechadas, muitas instituições tiveram que adaptar sua maneira de trabalhar e gerir as equipes à distância.

Entretanto, para Maurício Carvalho, CTO (Chief Techno-logy Officer) da Husky, tentar replicar o ambiente do escri-tório no trabalho remoto é frustrante e desvantajoso. 100% remota desde sua fundação, a Husky baseia seu trabalho na confiança de deixar bons profissionais executarem seus trabalhos. Por ser 100% remota, seus serviços de câmbio, abertura de empresa, emissão de notas fiscais e custos da empresa também são oferecidos para as empresas nessa mesma modalidade.“É melhor estar aberto a novas técni-cas de gestão, medir performance por entregas e adotar a comunicação efetiva de maneira clara e assíncrona. O trabalho remoto precisa dessa adaptação”.

Já para as empresas que pensam na redução de gastos no quadro de funcionários, Samy alerta que essa ação pode acabar causando um prejuízo ainda maior ao longo do ano. “O ideal é tentar manter o quadro e renegociar o salário usando as opções do Governo Federal. Demitir não só gera um clima ruim na empresa, como também é custoso recon-tratar funcionários”. E para quem se depara com a necessidade de ter profissionais de outras áreas, os trabalhadores autônomos se tornam cada vez mais uma opção viável. Eles representam a possibilidade de ter um especialista para complementar o trabalho realizado pela equipe ou para realizar projetos pontuais com menores custos operacionais.

A Workana é uma das principais plataformas atuais que age como ponte entre autônomos e empresas. Fundada em 2012, ela já teve mais de um milhão de projetos postados e mais de 3 milhões de freelancers cadastrados. E a tendência é que esses números sigam crescendo com a pandemia. De acordo com Daniel Schwebel, country manager da Workana no Brasil, a área de suporte administrativo registrou um crescimento de 10% entre os meses de fevereiro e março de 2020, enquanto TI (tecnologia da informação) e programação teve 3% mais projetos publicados, ou seja, demanda por parte das empresas.

O country manager explica que esse aumento se deve especialmente às adequações que as empresas tiveram que realizar no trabalho remoto, adaptando desde plataformas de trabalho até novas ferramentas de atenção ao cliente, por não estarem atendendo de forma presencial. “E esta demanda maior e temporária de atendimento on-line, como telefone, e-mail e chat on-line pode ser suprida por freelancers”, completa.

Para quem busca uma renda extra nesse período, o trabalho freelancer é uma opção cada vez mais fácil, principalmente com o auxílio de plataformas como a Workana. O primeiro passo para investir no trabalho freelancer, segundo Daniel, é buscar quais são as especialidades e principais qualificações que o profissional possui e estruturar um planejamento daquilo que ele pode oferecer: para quem, quais serviços/produtos, quanto cobrar.

“(Para trabalhar de maneira autônoma) obrigatoriamente a pessoa precisa saber ter autogestão. Isto significa ser organizado com seu tempo, suas tarefas, saber quais são os entregáveis”, alerta Daniel.

O country manager conclui que a tendência nos próximos meses será um fortalecimento das empresas ao perceberem os ganhos do trabalho remoto, além de profunda reflexão de que as relações de trabalho serão diferentes em um mundo pós-coronavírus. “Ainda que o contexto de COVID-19 tenha forçado as empresas a implementarem o home office obrigatoriamente da noite para o dia, acredito também que muitas vezes é assim que as empresas também aprendem, de formas mais duras”.

Direitos e Colaboração
NOME DA FOTO?
foto: ShutterStock

Decio Daidone Junior é advogado, professor, mestre em Direito e Processo do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Com 46 anos, ele afirma que a sociedade já passou por outras crises, mas nenhuma como a que estamos enfrentando. “As crises que passamos foram econômicas e assolaram o país, mas elas foram crescendo então tivemos mais tempo e cautela para saber lidar com elas. Elas não vieram de forma tão abrupta, como essa”.

A crise causada pela COVID-19 chegou no país, segundo Decio, num momento em que a economia estava voltando a retomar força. Após a votação da Reforma da Previdên-cia, foi possível ver um reaquecimento econômico, o que significa que essa nova crise aconteceu “em um momento que as turbinas estavam ligadas”.

Por ter acontecido com a rapidez que aconteceu, muitas empresas não tiveram tempo hábil para se programar, podendo causar frustração de alguns funcionários. Porém, Decio alerta que esse é um momento de conversa, bom-senso e boa fé entre os empregados e as empresas. “Do colaborador, deve vir sempre a verdade e do empregador deve existir a compreen-são e confiança”.

Desde a carga horária trabalhada até uma suspeita da doença, é importante encontrar alternativas que funcionem para ambas partes. Decio exemplifica usando uma experiência própria. Uma colaboradora da sua empresa teve pneumonia durante a pandemia e a orientação é de evitar ao máximo os hospitais. Ela foi afastada pelo próprio empregador, mesmo sem ter apresentado atestado.

Outro exemplo é a antecipação das férias individuais. De acordo com o advogado, o empregador pode antecipar essas férias ainda que o colaborador não tenha trabalhado o tempo necessário para adquiri-la, pagando os valores que são de direito do funcionário.

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“É importante deixar claro que no momento que essas férias são antecipadas, o empregado não poderá usufruir desse tempo com viagens, por exemplo. Ele sofre nesse sentido. Mas é um momento emergencial, excepcionalíssimo, em que todas as partes precisam ceder um pouquinho”. Entretanto, também é essencial que o trabalhador se lem-bre e cobre seus direitos. Segundo a Constituição Federal e a CLT (Consolidação das Leis de Trabalho), o emprega-dor tem a obrigação de manter um ambiente de trabalho salubre – no caso da pandemia, que siga as normas da OMS (Organização Mundial de Saúde), como a ventilação do espaço, distanciamento e fornecimento de máscaras, entre outras condições.

“Importante deixar claro que a CLT diz que nenhum empregado é obrigado a trabalhar em ambiente que lhe coloque a vida em risco. Se estou indo trabalhar em um local em que o empregador não está preocupado, não sou obrigado a colocar minha vida ou integridade em risco”, explica Decio. Já para os funcionários de empresas que adotaram um sistema home office, a atenção é para os instrumentos necessários para o trabalho. “Quando o empregado chega para trabalhar, o que oferece é tempo, capacidade mental e física. Ele não pode trazer instrumentos”.

A sugestão do advogado neste momento é que empregado e empregador façam um acordo para entender o que é necessário, de um notebook até uma cadeira para trabalhar. “O empregado pode afirmar, por exemplo, que a internet dele é lenta e para fazer esse trabalho precisaria aumentar a velocidade. Isso é colocado em um acordo onde ficará bem definido esse custo que a empresa está reembolsando. Por ser de natureza indenizatória, não há nenhum encargo social que o empregador tenha que pagar”.

Caso não haja condições de trabalho e/ou se a pessoa esti-ver trabalhando sob risco eminente, a orientação é bus-car o sindicato para dialogar com a empresa, fazer uma denúncia no Ministério Público do Trabalho ou ajuizar uma ação trabalhista.

“E esta demanda maior e temporária de atendimento on-line, como telefone, e-mail e chat on-line pode ser suprida por freelancers” (Daniel Schwebel)

Novas Medidas Trabalhistas

Durante a pandemia, o governo colocou em vigor as medidas provisórias 927 e 936 com o objetivo principal, segundo Decio, de manutenção do salário e do emprego, evitando que o número de desempregados aumentasse ainda mais – até fevereiro de 2020, o número era de 12,3 milhões de pessoas – além de ajudar os empresários a sobreviverem.

Um dos principais pontos da MP 936 é a redução e suspensão salarial. A redução de salário só pode acontecer se o empregado continuar trabalhando, mas com diminuição proporcional da jornada, sem alteração no valor da hora trabalhada. Se, por exemplo, o empregado que trabalhava 8 horas por dia passa a cumprir jornada de 4 horas, ele receberá metade do salário. Em nenhuma hipótese a redução pode deixar o empregado com salário menor que o mínimo (R$ 1.045).

Já na suspensão do contrato, o empregado fica sem trabalhar por até 60 dias e deixa de receber salário. Durante esse tempo, receberá ajuda do governo e, em alguns casos, também da empresa. O limite da redução de salário, da suspensão e o valor do benefício oferecido pelo governo dependem de quanto o trabalhador ganha.

Todavia, Decio explana que as MPs trazem um limite máximo de atuação e que ainda não se sabe como as empresas estarão para receber os trabalhadores depois desse período. Para o advogado, apenas após essa fase que será possível apurar se as medidas foram eficazes ou se adiaram um problema.

“O objetivo é de preservação do emprego, mas será que o empregador já estará recebendo dinheiro para voltar a pagar o salário cheio? E pode ser ainda pior para o empre-sário, pois quando o empregado volta, seja suspensão ou redução salarial, ele volta com estabilidade de 2, 3 meses. Quer dizer, o empregador vai receber ele de volta e ter que garantir o salário integral, mas não sabemos se ele terá condições”.

“As crises que passamos foram econômicas e assolaram o país, mas elas foram crescendo então tivemos mais tempo e cautela para saber lidar com elas. Elas não vieram de forma tão abrupta, como essa.” (Decio Daidone Junior)

Por Isabella Grocelli – Revista Empreende