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Energia, Petróleo, Etanol, Soja e Café. E agora?

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Plantação de Laranja Foto PxHere

Apesar das incertezas, especialistas em agronegócio, energia e óleo avaliam o cenário atual e arriscam palpites para o pós-pandemia

Antes e depois da COVID-19. Como será a volta do consumo, do uso de veículos e do emprego com a retomada do dia a dia? Não há bola de cristal que explique, mas é certo que no caso do Brasil a pandemia do novo coronavírus altera tudo entre antes de março de 2020 e depois dele.

Café, soja, suco de laranja, etanol de cana-de-açúcar e de milho e proteína protéica. Esses são representantes do que sai da terra e se torna em produtos, na cadeia chamada de agronegócio.

Em 2019, essa cadeia representou 21,9% do PIB, que soma tudo de valor produzido pelo Brasil, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Em síntese, significa que a cada R$ 10 gerados por produtos feitos no país, R$ 2,2 saíram do agro.

Para avaliar as tendências do agronegócio na pós-COVID, a Revista Empreende entrevistou Francisco Matturro, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Todos os fundamentos do agronegócio brasileiro são positivos neste 2020 afetado pela pandemia de COVID‑19 é o que afirmou Matturro, durante a entrevista. Ele ainda destacou por que o novo coronavírus não deverá frear o ritmo positivo do agro brasileiro em 2020.

Matturro também é diretor da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

E preside a Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação, a Agrishow, realizada anualmente em Ribeirão Preto (SP) entre o fim de abril e começo de maio

Nesse ano, por conta da pandemia, o evento teve a data suspensa. Mas ainda poderá ser realizado no segundo semestre, segundo o executivo conta nesta entrevista.

Empreende: O Brasil segue grande produtor de grãos neste ano na qual a COVID‑19 afeta o mundo?
Francisco Matturro – Finalizamos em abril a colheita da maior safra de grãos da história do Brasil. São 252 milhões de toneladas. O Brasil é uma fábrica de alimentos. Levando-se em conta que um ser humano consome em média 200 quilos anuais de grãos e carnes, entre outros, o país produz quatro vezes todo o alimento que o brasileiro precisa. Em aves e pecuárias suína e bovina o Brasil também é um grande produtor mundial. Assim como é em sucos de modo geral. Em café já somos os maiores do mundo.

Empreende: Como estão as vendas de grãos e produtos da cadeia do agronegócio?
Francisco Matturro – Os produtos do agro estão no mercado internacional. A pandemia de COVID-19 ajudou produtos como o suco de laranja, cujas exportações cresceram 25% nos últimos meses. Isso decorre do fato de que os consumidores que podem pagar compram mais suco para reforçar a vitamina C.

Empreende: Em sua avaliação, a situação do agronegócio é positiva?
Francisco Matturro – Todos os fundamentos do agro são positivos. Novamente o agro deverá fracionar a economia do Brasil [ou seja, terá peso representativo no PIB brasileiro]. E isso não apenas na produção de grãos e de fibras, mas na agroindústria, que inclui produtos decorrentes da transformação, como óleo, leite, iogurte e queijos). O Brasil tem pelo menos duas safras de grãos por ano. Sendo assim, a cada 120 dias há giro na economia. Por exemplo: o produtor de soja faz a colheita em 120 dias. E se a variedade do grão é super precoce, pode colher em 100 dias. O agro tem payback (retorno) mais rápido.

Empreende: A pandemia de COVID‑19 não afetou o agro?
Francisco Matturro – Não. O mundo continua demandando muitos alimentos como soja. Essa demanda prossegue, mesmo de forma mais equilibrada. A demanda é gigantesca no caso da agroindústria, que integra bases da alimentação de proteínas como carnes, como farelos de soja e de milho e rações. A pandemia não muda isso. Ela aumenta a demanda. O agro entrou na lista de serviços essenciais, quando da decretação da pandemia pelo governo. Isso garantiu o abastecimento das gôndolas dos supermercados. O agro não parou e prepara-se para a chamada safra de inverno, a segunda do ano.

Empreende: Os países asiáticos, caso da China, não podem produzir internamente para suprir suas demandas?
Francisco Matturro – A China não tem mais para onde crescer. Onde possui áreas não disponibiliza de chuvas, quando a média necessária para a agricultura é de 600 milímetros por ano. Enquanto isso, a população cresce, avançando a urbanização. O Brasil, como se diz, é abençoado por Deus e estamos no cinturão tropical do globo. Mesmo o inverno não é rigoroso, em termos de temperatura, nas principais regiões produtoras. Por isso consegue produzir grãos durante todo o ano.

Empreende: Em sua opinião, como o agronegócio seguirá pós‑COVID‑19?
Francisco Matturro – O agro avançará no que chamo de terceira grande revolução. A primeira dessas revoluções foi a produção inicial de grãos pelos imigrantes, a maioria europeia. Eles chegaram com hábitos de países de clima temperado em estados como o Rio Grande do Sul, que tem clima temperado, mas no inverno é tão quanto, por exemplo, Ribeirão Preto. Para adequar isso veio a segunda revolução. Foi o plantio direto, que é a plantação de grãos sobre palha. Não é experimento, mas fruto de resultado científico. Esse plantio permitiu conquistar os solos então pobres do cerrado brasileiro. Nesse sistema, o solo é protegido, fica resfriado, enquanto a semente é germinada. Como resultado, os estados do Centro-Oeste hoje produzem grãos o ano inteiro. E tem a terceira revolução do campo. Ela oferece a integração de lavoura, pecuária e floresta, na sigla ILPF. Essa revolução é formada pela cultura agrícola e pelo plantio de forrageiras, que servirão de alimento para o gado, que fica no próprio local. Tem ainda eucaliptos ou outras madeiras plantadas na mesma área. O gado precisa de sombra enquanto rasteja, mas a lavoura precisa de sol. Sendo assim, o plantio de eucalipto precisa ser feito nos sentidos leste e oeste. De todo modo, o eucalipto é uma poupança para o produtor rural. A cada sete anos, que é o tempo de maturação, ele arranca e vende como matéria-prima para secagem de cereais, como postes ou para a indústria moveleira.
Esse modelo do agro deu tão certo que já está em 15 milhões de hectares agrícolas do Brasil. Não é pouco. Representa 22% dos 69 milhões de hectares do país utilizados por lavouras. E deverá avançar mais pós COVID-19

Empreende: A Agrishow, prevista para ser realizada entre o fim de abril e começo de maio, foi adiada pela pandemia. A feira terá nova data?
Francisco Matturro – Em princípio, a ideia é a de realizar a Agrishow ainda no mês de agosto. Mas irá depender das flexibilizações que o governo estadual promoverá ao longo do tempo. Pode ser que aglomerações como as da feira sejam vetadas. A Agrishow é feira a céu aberto. Não pode ser realizada muito depois de agosto porque entra o período de chuvas.

Empreende: Há outros desafios para a realização da feira?
Francisco Matturro – Teremos de mobilizar 800 expositores novamente e isso exige operação gigantesca. Será preciso, também, checar os orçamentos dessas empresas, se estarão disponibilizados pós COVID-19. Há, ainda, as restrições internacionais de voos, e mesmo as nacionais.

E como fica a eletricidade durante a pandemia?

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foto de Pok Rie Pexels

“Os consumidores devem arcar com maior parte dos custos da crise”- Gláucia Fernandes

Em média conservadora, o consumo de eletricidade caiu 10% em abril, por conta da desativação temporária da indústria e do comércio.
A energia integra um complexo universo com geradores, distribuidores e comercializadores entrelaçados pelos consumidores. A tarefa é árdua, mas a economista Gláucia Fernandes, pesquisadora da FGV Energia, traduz o nó e apresenta suas projeções.

Foto: Glaucia Fernandes – Divulgação

Empreende: Como deverá ser a retomada do setor de energia (geração, distribuição e comercialização) na pós‑COVID‑19?
Gláucia Fernandes – O confinamento devido ao COVID-19 levou à redução da demanda de energia elétrica, ocasionando uma queda em torno de 15% do montante total consumido. O comércio e a indústria foram os setores mais impactados e sofrerão as consequências futuras da quarentena. Porém, como o setor elétrico é demandado de acordo com a atividade econômica, a retomada da economia implicará num aumento da demanda por energia. De forma geral, a princípio os contratos de longo prazo não tendem a ser afetados. Também, vamos ter um PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) mais baixo, devido à redução da demanda por energia e condições climáticas favoráveis. Além disso, como alguns dos canteiros de obras que atualmente estão com restrição de circulação voltarão à “normalidade”, então deve haver o retorno das atividades de obras.
Por outro lado, como houve atraso desses projetos, vamos ter um atraso na entrada em operação de uma série de empreendimentos de geração, que poderão acabar coincidindo com a retomada da curva de carga.

Empreende: Em sua opinião, como se dará o reequilíbrio econômico-financeiro?
Gláucia Fernandes – O efeito combinado da retomada, ainda que lenta, do consumo de energia, os reposicionamentos tarifários aderentes à evolução dos custos com compra de energia e a utilização do mecanismo de bandeiras tarifárias poderão aumentar as receitas e reduzir os custos financeiros das distribuidoras, implicando em um reequilíbrio econômico‑financeiro.
Quanto ao segmento de distribuição, este é o que mais foi impactado pela crise da pandemia de COVID-19, pelo fato de estar sobrecontratado e ainda com falta de liquidez em caixa. Contudo, esse setor é rentável e dispõe de oportunidades de retorno no futuro.
Com relação ao mercado livre, alguns contratos precisarão ser rediscutidos. Os contratos no mercado livre envolvem as condições de take or pay, ou seja, o consumidor fica encarregado de pagar pela energia contratada. Será preciso haver uma renegociação desses contratos com as comercializadoras em caso de extensão da quarentena.
Neste caso, algumas comercializadoras abrem balcões de negociação em que recebem a energia de volta em percentuais maiores que a flexibilização e tentam distribuir esse volume não consumido pelas flexibilizações de outros meses, podendo incluir também renegociação de valores de energia e prazos de contrato.
Caso não se tenha uma conversa adequada na renegociação dos contratos, uma outra possibilidade é a judicialização.

Empreende: O prejuízo da cadeia energética será compensado pelas iniciativas tomadas pelo governo?
Gláucia Fernandes – Existe um descasamento no fluxo de caixa das distribuidoras. De um lado, o governo não autorizou o corte da energia dos consumidores de baixa renda que deixarem de pagar. Por outro, a energia gerada e distribuída precisa ser paga.
O governo já deu um socorro na MP 950, que trata de empréstimos para as distribuidoras de energia e subsídio para os consumidores de baixa renda por três meses. Parte desse prejuízo, será absorvido pelas distribuidoras. Mas a outra parte vai ser rateada entre toda a cadeia (consumidores do mercado cativo e do mercado livre através do aumento da cota da CDE – Conta de Desenvolvimento Energético). Os consumidores devem arcar com maior parte dos custos da crise.

Empreende: Como se dará isso?
Gláucia Fernandes – O impacto na tarifa vai depender de vários fatores, mas números iniciais, calculados pela associação dos grandes consumidores de energia (Abrace), apontavam uma alta de 20% nas contas de luz, a ser diluída ao longo de alguns anos. O movimento do governo para socorrer as distribuidoras é apenas o início das ações necessárias. Ainda é preciso que sejam tomadas outras medidas para as questões econômicas das empresas no que diz respeito a ativos que deixam de ser utilizados por conta da demanda e impactos com as perdas não técnicas.

Empreende: Especialistas dizem que na pós‑COVID‑19 muito será mudado na economia, do consumo – que não terá mesmo ritmo – a readequações (avanço da tecnologia, desemprego, efetivação de home offices e de aulas on-line) que irão interferir também no mercado de energia. Como a sra. avalia isso?
Gláucia Fernandes – O setor energia vai retornar aos mesmos patamares de antes, uma vez que está associado à saúde financeira e econômica de um país.A queda do consumo de energia não é uma tendência, estamos passando por um período circunstancial de redução do consumo de energia. Assim, quando a economia voltar a crescer, a curva de crescimento de carga voltará a se normalizar.Por outro lado, o distanciamento social das pessoas pode trazer a mudança de alguns paradigmas, principalmente pelas mudanças do tecido social e pela ampliação dos trabalhos de home office. A ampliação do trabalho remoto pode aumentar o consumo doméstico e, por consequência, também beneficiar a elevação da geração de energia solar. Podemos ter um aumento da geração distribuída justamente por conta da pandemia.

Empreende: Fontes geradoras, como eólicas e fotovoltaicas, que cresceram muito nos últimos anos no Brasil, em detrimento de outras, como a da biomassa, deverão voltar a ganhar atratividade de investimentos? Qual sua avaliação?
Gláucia Fernandes – Avançar com uma transformação baseada em energia renovável é uma oportunidade para cumprir as metas climáticas internacionais, ao mesmo tempo em que promove crescimento econômico.Até o momento [final de abril], não houve impacto significativo nos parques em construção nem na cadeia de suprimentos eólicos e solares, com exceção de atrasos nas obras.Além disso, houve a proposta emergencial do BNDES, que permite às empresas negociarem diretamente com o banco a suspensão temporária por prazo de até seis meses de amortizações de empréstimos contratados junto ao banco, o que ajuda a manter a boa percepção sobre o futuro da expansão das fontes alternativas no país. A manutenção dos investimentos é uma boa alternativa para o setor elétrico estar preparado para a retomada do consumo de energia, após os impactos do COVID-19.Numa fase pós-pandemia, podemos ter um cenário mais favorável para a geração distribuída, na medida em que esse isolamento possa indicar que se trata de uma boa opção para geração de energia pela descentralização de pessoas e inclusive da própria geração de energia em zonas rurais.A energia solar é uma tendência atual por conseguir gerar energia de forma mais econômica, além de outras vantagens, como vantagens locacionais e de escalabilidade dos empreendimentos.Isso traz autossuficiência na geração, segurança no suprimento, e pode inclusive trazer uma economia de energia.

Empreende: De que maneira o setor energético poderá se reequilibrar?
Gláucia Fernandes – É momento de se pensar no day after, em como acelerar a economia e o setor elétrico após o fim da pandemia. É momento de se ter um plano estratégico e consistente. Precisamos criar mecanismos conjuntos, envolvendo todos os elos da cadeia (distribuidoras, geradoras, transmissoras, comercializadoras e operadoras de geração solar distribuída, Aneel, MME e outros órgãos do governo), para que possam ajudar o setor produtivo a se reequilibrar. Neste momento é importante manter a disciplina de capital, fazer o acompanhamento da evolução da crise, e dar ainda mais suporte aos clientes, como reforço aos atendimentos nos canais digitais. Também, é importante dar apoio à cadeia de fornecedores, principalmente de pequeno porte.

Óleo e Etanol

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magem: Kristina Kasputienė por Pixabay.com

O Brasil está no auge da produção de óleo e de gás natural nas bacias da camada pré-sal. E as players em produção mundial se voltavam para entrar em leilões de exploração em bacias a serem leiloadas pelo Governo. Isso ficou para depois

O mercado mundial de petróleo entrou em colapso por conta de dois fatores: o avanço da pandemia de COVID-19, a partir de março, e a ruptura entre a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) e a Rússia.

Inicialmente, no início de março, a Arábia Saudita, via Opep, articulava uma redução da produção para manter os preços da commodity mais altos. Não deu certo. Os russos não concordaram, alegando que um corte deles beneficiaria outros produtores mundo afora – especialmente os norte-americanos.

Os sauditas, que sozinhos representam 10% de todo petróleo produzido no mundo, decidiram, em movimento inesperado, em retaliação, ampliar a produção, inundando o mercado com óleo barato. Diante isso, a oferta explodiu enquanto a demanda global pelo óleo e derivados descia ladeira abaixo. Os preços do petróleo derreteram. Essa é a primeira parte da crise.

A segunda, tem a ver com a pandemia. Em abril, a comercialização de gasolina e de óleo diesel no Brasil teve forte retração nos postos brasileiros, em percentuais entre 20% e 30% menores que em períodos normais.

Assim, o estrago mundial da produção foi sentenciado e a pergunta que não se cala é: quando deverá voltar à normalidade no curto prazo na pós-COVID-19?

Para responder a essa e a outras perguntas, a Revista Empreende entrevistou Marcelo Gauto, especialista em petróleo, gás e energia.

Ele avalia o também muito afetado mercado de etanol. E opina sobre como ficarão os veículos elétricos, que começavam a ganhar espaço no Brasil. Autor de livros técnicos sobre o setor de petróleo e gás, Gauto faz questão de destacar: Fazer previsões é exercer “a arte da adivinhação.”

Empreende: Como deve ficar o mercado mundial de petróleo?
Marcelo Gauto – A pandemia de COVID-19 é quem irá ditar o ritmo da recuperação. Há, também, a questão geopolítica entre Arábia Saudita e Rússia, com certas incertezas a respeito dos interesses de cada agente na reorganização dos mercados. Isso tudo gera muita volatilidade.

Empreende: A readequação terá conduções distintas nos países?
Marcelo Gauto – Sim, a demanda por petróleo e derivados terá de ser ajustada à realidade de mercado de cada país, não há uma receita pronta universal, cada um deles adotará medidas específicas e pertinentes à sua realidade. Não há vacina para o novo coronavírus e não se sabe o tempo que será preciso esperar por ela.

Empreende: Significa que a oferta de petróleo seguirá em alta?
Marcelo Gauto – Sim, haverá sobreoferta de capacidade de produção de petróleo e derivados por algum tempo, já que o consumo estará menor.A tendência é de que os preços do óleo e dos combustíveis sigam abaixo dos valores da pré-crise. A retração no consumo de petróleo irá se refletir lá na ponta, na bomba dos postos.Sairemos mais pobres desse afundamento econômico mundial [pela COVID‑19] e isso vai se refletir num menor consumo de combustíveis no curto prazo.

Empreende: Com isso tudo, como deve ficar a produção brasileira de petróleo?
Marcelo Gauto – De modo geral, vai diminuir, pelo menos enquanto durar a pandemia. Os estoques mundiais estão cheios, a oferta abundante e os preços baixos. Diante dos preços atuais [de fim de abril], a viabilidade de produção precisa ser avaliada caso a caso. Na camada pré-sal, por exemplo, há poços nos quais o barril é produzido a um custo perto dos US$ 10, portanto, inviáveis economicamente. Mas existem outros que, por características técnicas, são mais caros, ou ainda, por serem mais antigos, têm custo de produção acima de US$ 30 por barril.

Empreende: Entre outras decisões para conter a crise, a Petrobras decidiu cortar a produção. Qual o impacto disso?
Marcelo Gauto – Parar a produção é uma decisão difícil, requer uma análise técnica detalhada sobre a economicidade de cada ativo em operação. O corte anunciado pela Petrobras, de aproximadamente 200 mil barris por dia, equivale a pouco menos de 10% de sua produção diária. São campos mais antigos, alguns dos quais já estavam, inclusive, em processo de desinvestimento. É preciso colocar na balança os custos fixos, de hibernação da unidade, o fluxo de caixa, os contratos com os compradores do óleo, entre outros fatores, até que se decida quais unidades irão parar. No atual cenário, qualquer ativo de produção que represente perda de receita será revisto.

“O setor sucroalcooleiro estará em aflição nesse ano” (Marcelo Gauto)

Empreende: O sr. também acompanha o mercado de etanol. Como avalia a retomada dele no pós‑COVID‑19?
Marcelo Gauto – Neste 2020 e em 2021 haverá queda na demanda por etanol, possivelmente. Podemos ter recuperação rápida, mas não tenho certeza, depende muito de como se comportará o preço do petróleo. Como a expectativa é de um valor mais baixo, o setor de etanol vai sofrer muito com a concorrência da gasolina mais barata. O consumo de etanol vinha em crescimento nos últimos cinco anos, mas deve perder força na atual conjuntura.

Empreende: E o que deve acontecer com a indústria sucroenergética?
Marcelo Gauto – Para 2020 a projeção era de maior produção de etanol pelas usinas no país. Mas isso acabou. O setor sucroalcooleiro estará em aflição nesse ano.Mesmo com vantagem tributária que o etanol tem ante a gasolina, com menor incidência de Pis, Cofins e ICMS, além de não ter a cobrança de CIDE, não será fácil manter a competitividade. Sem apoio do Governo Federal, o setor dificilmente se mantém como está hoje.A gasolina está barata e, nesse cenário, é difícil manter o etanol de pé.O governo federal avaliava [na última semana de abril] propostas do setor para aliviar a crise, como financiamento para estocagem de etanol, adiamento do PIS/Cofins e ampliar a CIDE sobre a gasolina. Está terrível porque as usinas têm que colher a cana-de-açúcar, moer e no máximo estocar etanol. Mas é preciso dinheiro para financiar essa estocagem. No segmento de petróleo, você pode parar os poços, plataformas, mas no de etanol não, se você não colher a safra ela se perde, não há como recuperá-la.

Empreende: Neste ano também entrou em vigor o programa RenovaBio, que valoriza o etanol e o biodiesel como redutor nas emissões de gases poluentes. Com ele, as distribuidoras de combustíveis terão de adquirir créditos de descarbonização no mercado, gerados pelos produtores, ao que venderam de gasolina e diesel. A situação afeta o RenovaBio?
Marcelo Gauto – Fica difícil para o RenovaBio. As distribuidoras até pediram a suspensão [das metas delas de descarbonização]. O programa já vivia fase de muitas dúvidas. Os créditos vendidos serão tributados? Como? Quanto? Este assunto tramita ainda no Congresso. E não se sabe também nem qual será o valor desses créditos.Como a venda de combustíveis reduziu, o caixa das distribuidoras também teve queda. Na prática, você tem que comprar algo que não faz ideia de quanto custará em meio a um cenário de redução de receitas.

Empreende: E nesta conversa toda, como ficam os veículos elétricos?
Marcelo Gauto – Eles integram um nicho de mercado. Quem os compra hoje não pensa em economizar no litro do combustível, mas sim em ter uma experiência com mobilidade a partir de uma fonte de energia mais limpa. Na próxima década, serão pouco significativos na nossa frota, do mercado brasileiro.Existem muitos entraves na adoção massiva dos elétricos, tem a questão da infraestrutura de recarga, que está incipiente, o preço elevado de aquisição do veículo, a durabilidade das baterias, entre outros. E há a tributação, que é fonte de arrecadação dos governos. Os elétricos têm isenções, enquanto a incidência de ICMS, por exemplo, é muito forte na gasolina e no etanol.Se houver muita venda de carro elétrico, cairá a arrecadação. E o Fisco, para ter a conta fechada no final do mês, irá tributar algo associado ao elétrico, tornando-o menos atrativo.

“Teremos períodos de muita volatilidade” (Marcelo Gauto)

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foto: Divulgação – Usina São Martinho – Pradópolis – SP

Por Delcy Mac Cruz

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