Vida a.c. e d.c.: Antes e Depois do Coronavírus


Isolamento imposto pelo coronavírus afeta não apenas nossa maneira de viver, como também influencia mudanças em comportamentos e valores da sociedade

Clóvis de Barros Filho- Divulgacão

Aqueles que estão lendo ouvirão muitas vezes que o mundo vai mudar, que não será o mesmo depois da pandemia. É verdade, o mundo não será o mesmo, como nunca foi o mesmo desde que existe. Talvez, com a pandemia, ele apenas mude de maneiras mais nítidas que em outros tempos”. Vivemos em um mundo que passa por constantes evoluções e mudanças. Então por que as transformações que vivemos nesse momento de uma pandemia nos assustam? O que causou essa mudança na reação das pessoas em frente à mudança? Indaga o professor e palestrante Clóvis de Barros Filho

São noites mal dormidas, aumento do apetite, discussões com familiares, crises de ansiedade e depressão, dificuldades em se concentrar no trabalho. Seria tudo isso causado apenas pelo medo do coronavírus, ou seria a pandemia o ponto de ruptura de um antigo estilo de vida? Clóvis enxerga nesse momento, “muito atípico e particular”, uma oportunidade de se distanciar, avaliar e colocar em xeque quais eram os grandes valores que moviam a vida até então.

“É possível, através dessa nova experiência, identificar um dispêndio de energia exagerado para manter um padrão de consumo que talvez seja entendido nesse momento como exagerado, ou fútil ou indevido. No lugar da ratificação dos valores, haja talvez uma retificação dos valores”, analisa o professor doutor e livre docente pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

Para o professor doutor, a cobrança que muitos se fazem nesse momento é incorreta, pois os critérios e padrões usados para comparar a produtividade– ou falta dela – é de tempos vividos até antes à pandemia.

“É claro que a vida avaliada a partir desses critérios parecerá uma vida menos intensa, menos profícua, menos rentável, menos eficiente. Como estamos condicionados a superação e a bater metas, evidentemente qualquer redução parece um fracasso. Enquanto não tivermos condição e lucidez para avaliar a nova vida a partir de novas réguas, certamente sofreremos”, reflete.

Já o outro lado dessa impensada moeda é a valorização de experiências. Momentos de conhecimento de si, dos próprios afetos, aprendizados, inclinações e sensações podem se tornar prioridade em uma nova sociedade. “A oportunidade também de ter experiências que seriam impensáveis em época de labor normal e que são, eu diria, muito mais ligadas ao ócio que ao negócio, que enriquecem a alma ao invés do bolso”, diz.

Clóvis, por exemplo, se viu durante o período de isolamento social reforçando convicções como o gosto pela simplicidade. Para o homem de 53 anos, os últimos meses lhe confirmaram que os desejos mais nobres devem ser pelas coisas simples, intensificando uma tendência própria de desapego pelo que é de distinção e status.


“Enquanto não tivermos condição e lucidez para avaliar a nova vida a partir de novas réguas, certamente sofreremos” – Clóvis Barros Filho

Com a tendência de desprendimento pelo luxo, ele pôde se ver também disposto a ganhar menos, aceitar uma vida mais singela e “menos escravizada pelas ambições econômicas”. Além disso, esse período lhe apresentou uma nova paixão: a narrativa oral. O comunicador lançou o podcast Inédita Pamonha como um projeto pessoal durante a quarentena, mas a data de encerramento já não existe mais. “Gostei tanto que não tem prazo para acabar, curti e pretendo continuar fazendo”, confessa.

Apesar de Clóvis ter lançado uma maneira própria de se comunicar, informando e alegrando o público, quando o assunto são as mídias tradicionais, ele reconhece o sentimento entristecedor no cotidiano informativo. Porém, reforça a importância do conhecimento em um momento tão delicado.

“O conhecimento a um país, um coletivo e a gravidade da situação que atinge pessoas que pertencem a esse mesmo coletivo quase determina um poder cívico de informação no sentido de saber o que está acontecendo com pessoas que participam do mesmo tecido social que nós, que estão sofrendo, morrendo”, afirma.

Tecnologia e Inovação são Protagonistas

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Cristiano Kruel – Divulgação

“COVID-19 é um problema inesperado e inédito e o mindset e as ferramentas antigas tendem a ser ineficazes. Somente a inovação é capaz de nos ajudar”. – Cristiano Kruel

E não é apenas na facilidade de informar que a tecnologia comprova sua importância. No cenário atual, ela é representada por voluntários que usam impressoras 3D para criar matérias de proteção para profissionais de saúde, vídeos ensinando pessoas a costurarem suas máscaras e aplicativos de meditação para ajudar no controle das angústias durante a pandemia.

E ainda mais importante, como diz Cristiano Kruel, da StarSe, é o protagonismo que ela exerce no combate à doença. Entre os exemplos do head de inovação estão uma startup canadense chamada Blue Dot, que lançou um dos primeiros alertas da COVID‑19 e a Butterfly IQ, que desenvolveu um dispositivo portátil de ultrasonografia que acelera o número de diagnósticos diversos. “COVID-19 é um problema inesperado e inédito e o mindset e as ferramentas antigas tendem a ser ineficazes. Somente a inovação é capaz de nos ajudar”.

A StartSe é uma escola de (novos) negócios e nos últimos anos, segundo Kruel, a empresa já vinha conversando com empreendedores, empresários, executivos e gestores sobre a necessidade de “reaprender a fazer negócios”. “Antes da crise, todos percebíamos que as mudanças estavam aceleradas, mas o que aconteceu parece ter sido um ‘salto quântico dissimulado’, num instante fomos obrigados a mudar”.

Para Cristiano, quem não sabia que existia uma alternativa, hoje sabe que existe. Quem sabia e não queria mudar, hoje está tentando mudar. Quem sabia e fazia de conta que não sabia, hoje está encurralado. Ele ressalta ainda, que a grande mudança de comportamento das pessoas ainda não foi percebida, mas tende a ser imensa.

Devido ao isolamento social, as compras on-line foram uma boa alternativa para as pessoas manterem o consumo dos produtos que já estavam acostumadas a comprar ou até mesmo consumir novos produtos, especialmente aqueles que se viram obrigados a comprar artigos para escritório demandado pelo trabalho home office. Segundo Kruel, há dois aprendizados para as empresas sobre o e-commerce: “(1) Mais pessoas passaram a adotar esta prática e possivelmente vão manter este hábito pós-crise. (2) Talvez a melhor estratégia não é discutir se você deve ser uma loja física ou loja on-line; o que interessa mesmo é ‘ser obcecado pelo cliente’. Os modelos de negócios que vão perdurar são aqueles que se definem pelo cliente e não pelo formato operacional do negócio. Se definir hoje pelo ‘o que’ você faz é um limitador estratégico e a maneira de lutar contra isso é se definir por “por que” você faz. É sutil, mas isso muda tudo e faz muitas empresas criarem soluções incríveis ”, avalia.

Para Cristiano, a tecnologia também amplia as possibilidades para a sociedade. Um exemplo são as visitas on-line ao Museu do Louvre, que, segundo ele, saltaram de 40.000 para 400.000. “A experiência humana completa nunca será totalmente substituída e, realmente, não tem por quê. Entretanto, as pessoas vão entender os diversos outros benefícios destas outras modalidades”.

Emoções x Dinheiro: quem ganha?

Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social pela PUC de São Paulo, com tese em psicologia econômica, é categórica. “A gente não se deixa levar pelas emoções quando falamos de dinheiro. As emoções que mandam em nós o tempo todo”.

Antes mesmo de existir a razão no ser humano, as emoções e instintos já faziam parte das pessoas, tornando a razão precária e sujeita a cair quando as emoções tomam conta. E quando dinheiro é incluído na equação, ele se transforma em uma extensão da nossa personalidade.

Cada pessoa possui uma personalidade atrelada ao dinheiro, desde os que amam, os que o veem como uma fonte de conflito e até os que o enxergam como algo inalcançável – o que, segundo Vera, é uma realidade para muitos. Portanto, as emoções terão algum peso nessa relação, mesmo que pequeno.

“O dinheiro serve como veículo para expressar. Em especial, podemos citar o poder, segurança, conforto e outros mais que estão associadas a dinheiro. Quando falta, fica mais complicado, porque serve como veículo para frustações, angustias, ansiedade e medo, coisas que acompanham a falta do dinheiro”, explana.

Quando falamos do cenário atual, de perdas de empregos, investimentos e projetos, todos estão perdendo algo. E, segundo a psicóloga econômica, graças à aversão à perda, as pessoas acabam abraçando o risco.

“Quando temos a possibilidade de um ganho certo, todo mundo prefere ‘um pássaro na mão do que dois voando’, como diz o ditado popular. Em um cenário de perda certa, ou está com medo, aí vai ter aversão à perda e um apetite por risco maior do que em circunstâncias normais. Ou seja, as pessoas estão dispostas a correr mais riscos”, avalia Vera Rita.

A falta de informações e a incerteza do futuro também podem influenciar decisões equivocadas, como o comportamento de manada. Vera Rita explica que por não saber o que está acontecendo, a pessoa se sente mais desesperada e tenta imitar o que imagina que os outros estão fazendo, desconhecendo a probabilidade dessa ação ser errônea.

Portanto, para tomar uma decisão racional, a doutora afirma que as alternativas devem sempre ser analisadas com mais calma e estar embasada com as emoções e que, caso seja necessário, deve ser buscada a ajuda de um especialista.

“Cuidado com ideias mirabolantes que possam surgir. Se não for cuidadosamente testada antes podem fazer que as pessoas saiam de uma situação ruim, para uma pior. É preciso analisar com cautela todas as opções e ver qual é a mais viável”, alerta.

No ponto de vista de Vera, os vulneráveis são os que mais sofrerão durante a pandemia, “pois são os primeiros a sofrerem as consequências e os últimos a se reerguerem – caso isso aconteça”. Por isso, ela espera que o governo cesse o envio de mensagens contraditórias e monte uma estrutura sólida para ajudar a população mais carente.

“O ideal é que qualquer governo faça política pública a partir de evidências científicas. Não pode ser na base do achismo e no sucesso das redes sociais. O governo precisa tomar decisões assertivas para conter os malefícios dessa pandemia, dando auxílio para as pessoas que mais precisam e que estão desassistidas nesse momento de crise”, afirma Vera.

Um Futuro de Novos Comportamentos

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Foto: ShutterStoc

“Cuidado com ideias mirabolantes que possam surgir. Se não for cuidadosamente testada antes podem fazer que as pessoas saiam de uma situação ruim, para uma pior” – Vera Rita de Mello Ferreira

Assim como Clóvis, a doutora em psicologia econômia Vera Rita prevê que muitos perceberão que podem viver com um consumo menos supérfluo. Ela também diz torcer para que haja uma valorização financeira, já que quem tem uma reserva de emergência, nesse momento, está passando pela crise de um jeito e quem não tem está passando de outro. “Tomara que haja dinheiro depois da crise para que todos consigam se organizar para guardar dinheiro regularmente”.

Além disso, a vivência apenas dentro de casa em isolamento social e a responsabilização por uma série de afazeres domésticos também pode deixar ensinamentos positivos, como uma reavaliação das relações com essas tarefas – possivelmente incentivando uma valorização das pessoas que desenvolvem essas ações. “A pandemia pode deixar marcas, mas não necessariamente ruins. A dificuldade geral é quando tudo isso deixar de ser agudo. É possível que as pessoas deem outros significados a tudo isso, com o intuito de distorcer tudo o que aconteceu” avalia Vera.

Para Clóvis, o futuro próximo será de um grande hibridismo entre os que buscam retomar o que acontecia antes e os que terão enxergado um vislumbre de um novo tipo de vida. “Talvez haja ganho de sabedoria de alguns. Uma existência menos asfixiada, menos submersa ao clamor da eficiência, do lucro e, portanto, uma vida mais acostumada à reflexão sobre si mesmo, sobre o que é de fato valor existencial, do que é bom para si”, reflete.

Já quando falamos das próximas gerações, o professor doutor vê esse momento como uma experiência educativa e preparatória para o futuro. “Eu, por exemplo, nunca vivi nada semelhante. Mas há quem diga que, por situação científica que ignoro, isso pode voltar a acontecer com mais frequência. Os mais jovens terão tido a oportunidade de uma educação para isso e penso que isso é um aspecto muito positivo”, conclui.


“A gente não se deixa levar pelas emoções quando falamos de dinheiro. As emoções que mandam em nós o tempo todo” – Vera Rita de Mello Ferreira

Por Isabella Grocelli e Camila Rodrigues