O que esperar dos Sistemas Financeiros durante e após o coronavírus?

Crise da saúde global suscita questionamentos sobre o sistema financeiro brasileiro, eficiência de medidas emergenciais e relações diplomáticas

Por todo o globo, a COVID-19 tem infectado milhões de pessoas e derrubado economias. Sistemas financeiros sofreram grandes quedas nas bolsas de valores. Durante o mês de março, a Ibovespa, por exemplo, caiu 30% e ativou seis circuit breakers em apenas oito pregões. Esse foi o pior tombo em mais de 20 anos. Quedas histórias também foram registradas em países europeus e nos EUA. Cada choque econômico deixa uma herança de feridas, mas também de mudanças. É inegável que essa nova experiência causada pelo coronavírus trará consequências, mas ainda é cedo para saber exatamente quais. O que analistas acreditam é que este é o momento de instituições e órgãos provarem seu valor por meio de créditos, incentivos e inovação. O Chief Executive Officer (CEO) da Stone, Augusto Lins, vê nesse momento um movimento do empreendedor ajudando o empreendedor. “Eu sei o que os pequenos empreendedores estão passando, porque eu já estive no lugar deles”.

Augusto Lins – CEO Stone – Foto Divulgação


Criada em 2013 visando transformar o mercado de pagamentos no Brasil, a Stone oferece a proposta de digitalizar todas as etapas e simplificar a experiência do pequeno negócio. Na visão de Augusto, as empresas já existentes não tinham inovação, transparência na hora dos pagamentos e atendimento eficaz para solução de problemas dos clientes. O diálogo, que já era realizado com os clientes, foi intensificado durante a pandemia e incerteza econômica. Em seu home office, Augusto relata ter passado entre 30% e 40% do dia conversando com clientes para saber quais soluções práticas e eficazes sanariam as dores deles. “Temos que deixar claro que a travessia não é fácil, mas estamos querendo passar para os nossos clientes que ela tem começo, meio e fim.

Vamos passar por tudo isso, mas temos que nos reinventar”, afirma. Aliás, Augusto não enxerga esse momento como um home office, mas sim um home life, já que as mudanças afetaram todo o cotidiano da sociedade e apresentaram um novo jeito de viver. Após uma primeira semana caótica de isolamento social, Augusto aplicou na sua vida pessoal o empreendedorismo, reformulando o dia, separando um espaço próprio para o trabalho e desenvolvendo tarefas que não fizessem parte do seu cotidiano. “Montei o meu planejamento diário com trabalho e outras atribuições. Usar esse momento para nos reinventar como pessoa, profissional e cidadão, diante desses novos hábitos que estamos sendo obrigados a passar”. Um dos principais propósitos do planejamento é a calma. Com ela, segundo o CEO, você retoma a inteligência e volta a ter boas ideias para solucionar adversidades. Ideias como links de cobrança, que a empresa criou para ajudar os empresários que precisavam receber, mas, por conta do isolamento, estavam impossibilitados. A Stone também investiu R$ 30 milhões em incentivos aos clientes com dificuldades financeiras e R$ 100 milhões em microcrédito para as empresas varejistas, além de isenção de mensalidade, ferramentas de vendas on-line e redução nas taxas de antecipação.

“Temos que deixar claro que a travessia não é fácil, mas estamos querendo passar para os nossos clientes que ela tem começo, meio e fim. Vamos passar por tudo isso, mas temos que nos reinventar” Augusto Lins

“Para aqueles pequenos empresários, criamos uma plataforma em que é possível colocar seus produtos para a venda on-line. Precisamos incentivar o pequeno negócio a ficar vivo, já que eles são os que vão mais sofrer nesse período, pois têm pouco capital de giro e pouca formação de gestão”, comenta Augusto.

Renegociação de Empréstimos

Entre 16 de março e 17 de abril, o primeiro mês da crise, os cinco maiores bancos do país – Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa – emprestaram R$ 265,7 bilhões, segundo levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

As novas operações de crédito somaram R$ 177 bilhões enquanto a soma das parcelas já suspensas de contratos com operações em dia totaliza R$ 22,2 bilhões. De acordo com a Federação, esses valores trazem alívio financeiro imediato para empresas e pessoas físicas, que passaram a ter uma carência entre 60 a 180 dias para pagar suas prestações, conforme o banco e a operação. Além disso, foram feitas renovações de operações no total de R$ 66,5 bilhões. Já as renegociações de 3,8 milhões de contratos somam um saldo devedor total de R$ 230,6 bilhões. De acordo com Isaac Sidney, presidente da Febraban, durante esse período as instituições financeiras, junta‑ mente com o Governo Federal – Banco Central, Tesouro e BNDES – viabilizaram a disponibilização de uma linha emergencial de R$ 40 bilhões voltada para o financiamento das folhas de pagamento das empresas com faturamento anual entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões.

Estima‑se que a medida irá beneficiar até 1,4 milhão de empresas e 12,2 milhões de trabalhadores. Esses recursos, segundo a Federação, serão concedidos à taxa fi xa de 3,75% ao ano, sem quaisquer spreads adicionais para as empresas ou custos para os empregados. Porém, para as pessoas ou empresas que buscam uma renegociação ou financiamento, é preciso cautela. Thaís Cíntia Cárnio, especialista em Banking, afirma que essas possibilidades são um bom começo, mas que os juros ainda chamam a atenção. “É um bom começo, até porque está claro que haverá aumento da inadimplência, e essas medidas podem diminuir esse incremento e fidelizar o cliente. É importante frisar que os juros dos empréstimos bancários ainda são altíssimos. Para que tenhamos um sistema financeiro cooperativo e uma economia saudável eles necessitam baixar e muito”, explica a Thaís, que também é professora de Direito das Relações Econômicas Internacionais, Direito Empresarial e Mercado Financeiro da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

E mesmo com essas novas medidas de financiamentos emergenciais, Thaís acredita que sem a implementação de um programa governamental amplo, sério e contínuo para recuperação das empresas de todos os tamanhos, os números de pedidos de recuperação judicial e falência de empresas crescerão. Mas ela confessa ser uma “realista com viés de alta”, acreditando que serão tomadas mais medidas de saneamento e fomento à economia. “Não porque confio cegamente em nossos representantes, e sim pois a quebradeira generalizada afetaria enormemente a arrecadação de tributos e ampliaria o desemprego, o que seria altamente indesejável para eles e poderia comprometer seus planos de futuro político”. A professora ainda complementa o pensamento frisando que este é um ano de eleições municipais, que poderá ser um bom termômetro do sentimento geral da população. Mas já adianta que a equipe econômica do Governo Federal entendeu rapidamente que não há tempo a perder. Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de Economia, afirma que o caminho do investimento para recuperação econômica é apontado como a melhor alternativa em face de grandes crises, como a que o mundo passa nesse momento.

Olhando para o Brasil, Thaís afirma que este é o momento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social justificar sua existência. “Creio que o caminho mais adequado seja o direcionamento de recursos públicos para variados segmentos econômicos, principalmente para pequenas e médias empresas, que empregam a maior parte dos trabalhadores com carteira assinada e apresentam menor turnover”.

Auxilio Emergencial – Foto Divulgação

Cuidados com os mais afetados

Em abril, o Governo Federal anunciou o Auxílio Emergencial destinado a trabalhadores informais, Microempreendedores Individuais (MEI), autônomos e desempregados. O benefício, no valor de R$ 600, será pago até junho para até duas pessoas da mesma família – as famílias em que a mulher seja a única responsável pelas despesas da casa, o valor pago mensalmente será de R$ 1.200. De acordo com a Caixa, desde o dia 9 de abril, quando teve início o pagamento do Auxílio Emergencial, até 30 de abril, 50 milhões de pessoas tiveram o benefício creditado pela instituição, totalizando R$ 35,5 bilhões.

Thaís vê as medidas emergenciais para o enfrentamento do estado de calamidade tomadas pelo Governo Federal, como linhas de crédito, flexibilização trabalhista e o Auxílio Emergencial como um passo certo em uma ainda longa caminhada. Para ela, é essencial que o fluxo de medidas de reabilitação econômica continue com muita intensidade ou os efeitos não apenas serão desastrosos, como sentidos ainda neste ano. “A escola liberal, que inspira a equipe de Paulo Guedes, prega o Estado mínimo, e não o Estado indiferente ou ausente. Mesmo nos Estados Unidos, nascido em berço liberal, foi necessária a adoção de várias políticas assistenciais para a regeneração econômica e social pós-crises. Há hora certa para esse tipo de política”, reflete.

Relações com o exterior

Neste atual momento de pandemia, com corridas para insumos, Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e respiradores, muitos se preocupam com as relações entre o Brasil e seus parceiros comerciais. Thaís acredita que, pelo cenário ser mundial, todos estão conscientes de que o problema ultrapassa fronteiras. Portanto, enquanto o Governo Federal realize ações governamentais destinadas ao combate da COVID-19, ela não vê motivos para que as relações sejam afetadas. Mas alerta que esse é um momento de extremo cuidado, especialmente na comunicação entre países. “O que devemos evitar é que pessoas que façam parte do governo, ou sejam próximas dele, façam declarações preconceituosas e
simplistas sobre outras nações e seus governantes, pois isso sim pode causar abalo nas relações internacionais”.

Entre os parceiros comercias está a China, berço do coronavírus e nação responsável por aproximadamente 60% do superávit da balança comercial brasileira em 2019. Com a interrupção de linhas de produção e a diminuição de pessoas em centros de compras por causa do isolamento social, a especialista em Banking prevê um efeito cascata, com menos produção, menos importação de insumos, de matérias-primas e assim por diante. “É muito provável que esse decréscimo afete, principalmente, o agronegócio, pois o Brasil exporta muita soja, carne bovina e de frango, açúcar, dentre outras commodities”.

Decisões racionais durante momentos de pânico

No mercado de capitais, foi possível ver muito pânico diante das incertezas que ainda pairam no ar. Então como tomar decisões racionais sobre dinheiro em um momento de movimentos irracionais? O que evitar em um momento de incerteza? Segundo a professora, não há uma resposta única. O investidor deve basear suas escolhas considerando se precisará ou não dos recursos que pretende aplicar a curto e médio prazo. Caso a resposta seja afirmativa, a melhor alternativa é a renda fixa pois, apesar dos rendimentos não serem expressivos, o risco de perda é mínimo.
“Por outro lado, caso só necessite de capital a longo prazo, é hora de ir às compras no mercado de ações. Há ótimas opções a preços muito atraentes”, sugere.

Agora os investidores que já adquiriram ações antes da crise e sua carteira perdeu valor são aconselhados a não vender os ativos nesse momento, pois essa ação materializaria a perda. Se possível, mantenha as ações até uma mudança de cenário e recuperação dos valores. “Enquanto isso, manter a calma e acreditar que a crise vai passar, mesmo que demore mais do que gostaríamos”, conclui.

Por Isabella Grocelli e Camila Rodrigues