Jacson transformou a própria dor em propósito de vida

Após perder a filha para a sepse aos 18 dias, arquiteto de sistemas Jacson Fressatto criou robô cognitivo que ajuda a salvar 12 vidas diariamente

Há dez anos, uma saga de 18 dias transformou a vida do arquiteto de sistemas paranaense Jacson Fressatto. Foi o tempo em que Laura, sua filha nascida prematura, passou internada na UTI Neonatal de um hospital em Curitiba, antes de morrer devido às complicações da sepse, mais conhecida por infecção generalizada. Do processo de luto, um misto de revolta, angústia e impotência, Jacson foi levado a uma incansável busca por respostas. Fez uma maratona pelos hospitais da cidade, tentando compreender como os processos funcionavam em casos como o de Laura. “No fundo tudo que eu queria era uma resposta para entender o que exatamente tinha acontecido com minha filha”, relata. Mas não foi só isso. Mesmo sabendo que não poderia reverter sua própria história, o amor de pai foi capaz de transformar dor em propósito de vida: evitar que outras pessoas morressem da mesma forma que Laura. “Minha missão hoje é evitar que outros pais passem pela dor que eu passei e sei que a inteligência artificial pode ser nossa aliada para isso”, explica.

Jacson Fressatto – Foto Divulgação

Em sua jornada, Jacson utilizou os conhecimentos no desenvolvimento de tecnologias de data analytics e machine learning, aprimorados em passagens por gigantes como IBM e Volvo, para criar um sistema com uma meta ambiciosa: impactar positivamente a vida de 1 bilhão de pessoas. E assim foi criada a Laura, um robô cognitivo gerenciador de riscos que atua integrado a ambientes de dados, a fim de coletá-los, organizá-los e, por fim, executar cálculos complexos, comparar resultados com faixas probabilísticas e concluir com precisão sobre as condições favoráveis ou não para um evento de risco ocorrer.

Por meio de algoritmos, a inteligência artificial da Laura lê as informações dos pacientes e emite alertas para a equipe assistencial a cada 3,8 segundos, com o objetivo de ajudar a fazer o diagnóstico precoce de deteriorações clínicas, como a sepse.

Hoje o robô Laura está presente como projeto-piloto em 13 hospitais espalhados por Curitiba, Londrina, Rio Negro e Foz do Iguaçu (PR), além de Porto Alegre e Passo Fundo (RS), Florianópolis (SC) e Ipatinga (MG). Desde o início de suas operações, em 2016, o robô já esteve conectado a mais de 2,5 milhões de pacientes. Entre outubro de 2016 e junho de 2019, foram salvas 12 mil vidas, uma média de 12 pessoas por dia, com redução da taxa de mortalidade pela doença em 25%.

Sobre a sepse

Segundo o Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS), a sepse é responsável por 25% da ocupação de leitos em UTIs no Brasil. Os índices de mortalidade por sepse no País chegam a 65% dos casos, enquanto a média mundial é de 40%. Ainda segundo o ILAS, apenas 27% dos médicos conseguem diagnosticar a sepse de maneira precoce.

De acordo com o Ministério da Saúde, a sepse é um conjunto de manifestações graves em todo o organismo produzidas por uma infecção. A doença era conhecida antigamente como septicemia ou infecção no sangue. Hoje é mais conhecida como infecção generalizada. Por vezes, a infecção pode estar localizada em apenas um órgão, como por exemplo, o pulmão, mas provoca em todo o organismo uma resposta com inflamação numa tentativa de combater o agente da infecção. Essa inflamação pode vir a comprometer o funcionamento de vários órgãos do paciente. Esse quadro é conhecido como disfunção ou falência de múltiplos órgãos.

Jacson Fressatto criou robô
Robô Laura no Hospital Erasto Gaertner – Foto Divulgação

Entre os grupos com maior risco estão bebês prematuros, como a Laura; crianças abaixo de um ano; idosos acima de 65 anos; pacientes com câncer, AIDS ou que fizeram uso de quimioterapia ou outros medicamentos que afetam as defesas do organismo, pacientes com doenças crônicas como insuficiência cardíaca, insuficiência renal, diabetes; usuários de álcool e drogas e pacientes hospitalizados que utilizam antibióticos, cateteres ou sondas. Mas, segundo o Ministério da Saúde, mesmo havendo grupos considerados de risco, qualquer pessoa pode apresentar quadros de sepse. Infecções que apresentem febre, taquicardia, respiração mais rápida, fraqueza intensa, tontura, diminuição da quantidade de urina, falta de ar e sonolência excessiva devem ser investigadas para um possível diagnóstico da doença.

‘Vi na força da minha filha a vontade de querer impactar 1 bilhão de vidas’

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Enquanto trabalhava no desenvolvimento do robô Laura, Jacson Fressatto teve outros dois filhos, o Léo e a Maya. Hoje é convidado para apresentar palestras em todo o Brasil sobre a tecnologia que criou e sua história de superação. Confira a conversa que a revista Empreende teve com ele:

Empreende – Como foi vivenciar um momento de dor e transformá-lo em um projeto para salvar vidas?

Jacson Fressatto – Ver minha filha recém-nascida precisar de um cateter na aorta para receber nutrientes foi o momento mais difícil da minha vida. Foram 18 dias de muita angústia e muito medo, mas, apesar da fragilidade aparente nos seus 28 centímetros e 440 gramas, a Laura foi uma verdadeira guerreira, mostrou muita vida mesmo naquelas condições. Quando eu a perdi, senti uma dor profunda, mas vi na força da minha filha a vontade de querer impactar 1 bilhão de vidas com tecnologia eficiente e acessível. Ela é a responsável por hoje conseguirmos voltar para casa sabendo que ajudamos a salvar 12 vidas todos os dias.  

Empreende – Como os médicos têm recebido a ajuda das informações levantadas pelo robô?

Jacson Fressatto – Cada vez mais os hospitais estão entendendo que é preciso inovar para gerar melhorias. Todas as equipes médicas e assistenciais dos hospitais inovadores que acreditaram no potencial da Laura são grandes parceiras. A Laura não chegou para substituir o trabalho desses profissionais, mas para otimizar os processos internos, tornar a assistência ainda mais segura e eficiente, o que é bom para a instituição de saúde e para o paciente. A parceria do setor médico tem sido fundamental externa e internamente. Nossa equipe tem um diretor médico. O Hugo Morales é infectologista, mestre em Medicina Interna e responsável pelo Serviço de Infectologia e Medicina Hospitalar do Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba. A experiência dele tem sido muito importante para os resultados da Laura.

Empreende – Você acredita que a saúde é uma das áreas mais beneficiadas pela inteligência artificial?

Jacson Fressatto – A inteligência artificial tem potencial para beneficiar diferentes setores da sociedade, mas na saúde estamos falando diretamente de vidas. Ela tem a capacidade de avaliar a complexidade que é o organismo humano para predizer prognósticos do paciente. A inteligência artificial empodera a equipe assistencial ajudando a fazer atendimentos mais rápidos, assertivos e seguros. Quando falamos de vidas e, principalmente em quadros como o de sepse, quanto mais rápido o tratamento, menor é o risco de morte. É importante lembrar que a inteligência artificial não precisa ser uma tecnologia exclusiva para hospitais de grande porte. Usando nosso exemplo, desde o início construímos a Laura pensando em torná-la acessível. Hospitais de todos os portes podem ter essa tecnologia de ponta, mesmo os que não têm prontuário eletrônico. Sabemos que essa é uma ferramenta importante, mas a realidade da saúde brasileira é muito diversa e nossa equipe procura conhecer o contexto de cada instituição para definir o melhor caminho a seguir.

Por Angelo Davanço