Todos ao mesmo tempo

Um mendigo me pediu uma moeda no farol. Não disse para que e, neste momento com a crise da COVID-19, acho que nem precisa. Estendi a mão com a moeda para que ele a pegasse, já pronto para desejar “Boa sorte!”, como sempre faço. Mas ele não pegou a moeda. Estendeu a mão aberta embaixo da minha para que eu a soltasse sem o risco de tocá-lo. O “Boa sorte!” travou na minha garganta e apenas acenei com a cabeça. “Ele está com nojo de mim?”, pensei. Não, medo, porque não sabe o que pode acontecer.

Se você teve vários prejuízos e não sabe o que fazer, não se sinta sozinho, incerteza é o tom em que todos vivemos hoje. Além do problema em si, ela abre espaço para vários sentimentos perigosos: medo, raiva, ansiedade, pânico e outros que minam nossa capacidade de pensar claramente. Faz diferença tocar minha mão se a moeda que ele pegou já estava nela? Provavelmente não, mas naquele momento ele não sabia exatamente o que fazer, só sabia que precisava sobreviver. Quando ativamos o “modo de sobrevivência” nosso cérebro cria um foco bem mais estreito, limitando-se à ameaça imediata. Nos ajuda a resolver o que é mais urgente, mas ao mesmo tempo nos torna mais reativos, impulsivos e contraproducentes. Nesse estado a razão não prevalece.

Para tomar decisões mais complexas precisamos de toda a carga cognitiva bloqueada pelo “modo de sobrevivência”. Mais do que nunca, as habilidades de desarmar esse modo são vitais e você não deve hesitar em usar aquilo que funciona para você. Meditação, exercícios, leitura, café, não importa o método, o importante é conseguir se manter calmo e tomar as decisões mais assertivas dentro do possível. O que há de comum entre todas as soluções? Elas são ações. É muito improvável que você se acalme simplesmente pensando a respeito; na verdade, é mais provável que sua traiçoeira imaginação te afunde criando em sua mente o pior cenário possível.

Ao invés de “Quando a vida volta ao normal?” ou “Vou recuperar o que perdi?” tente “Quando a certeza se sustentou por muito tempo?”. Provavelmente vai chegar na mesma conclusão que o escritor Walt Whitman: O futuro não é mais incerto do que o presente. Aceite o que não é possível fazer neste momento e foque onde seu poder de influência – suas ações – alcançam e trazem algum resultado significativo: ajude alguém, lave as mãos, tenha paciência. Todos já fomos atingidos pelo infortúnio; a novidade é sermos todos ao mesmo tempo.

Acompanhe aqui mais artigos do colunista Thiago Franco


Artigo: Todos ao mesmo tempo - Por Thiago Franco

Thiago Franco
@thiagofranco.coach

abeeon.com/ thiago-franco
Especialista em liderança e CEO da Turnus, startup de gestão de escalas de trabalho. Atua como coach, professor e consultor, desenvolvendo pessoas para pensar de maneira mais estratégica e se conectar melhor com outras pessoas.