Papel da Liderança na Gestão de Crises

Bem-vindo ao “novo normal”

Provocada pela pandemia, estamos presenciando a maior crise econômica mundial desde a Grande Depressão de 1929, quando os ativos financeiros das empresas e pessoas praticamente derreteram.


Os analistas de plantão afirmam que o futuro “não será mais como antigamente” e estaremos assistindo ao que eles chamam de “novo normal”, algo que deverá suceder a 4ª Revolução Industrial. E mais que nunca é tão oportuna a célebre frase de Jack Welch, ex‑CEO da GE: “Quando o ritmo de mudança de uma empresa for ultrapassado pelo ritmo de mudança fora dela, o fim está próximo”.


A crise, mais cedo ou mais tarde vai passar e ninguém (pessoas e empresas) será mais o mesmo depois dela.

Posicionamento do Líder

No atual cenário não existe solução pronta. Além do básico e imprescindível que é ficar de olho no fluxo de caixa, um importante fator para a empresa sair menos arranhada desse momento caótico e surreal, com muita pressão, medo, insegurança e estresse, é a otimização da interação entre líderes, colaboradores, clientes, fornecedores e demais “stakeholders”.

Várias dicotomias (aparentemente antagônicas, mas que podem coexistir dependendo do “timing” da empresa) se descortinarão na mente do líder: Digitalização x humanização, simplicidade x complexidade, inovação x conservadorismo e muitas outras.

Se Jim Collins (Stanford University) tivesse escrito hoje seu célebre best-seller, “Empresas Feitas para Vencer”, ed. HSM, certamente mudaria o título para “Empresas Feitas para Durar”.

Traduzindo, o ambiente atual exige dos líderes pensamento estratégico com visão de longo prazo, o que não é muito comum na maioria do perfil dos gestores brasileiros, fato confirmado por pesquisa da FGV Management junto aos seus ex-alunos de MBAs.

Pensamento Visionário e Estratégico

Essas são as principais habilidades necessárias do líder para o enfrentamento da crise e do novo posicionamento após a mesma.Grandes líderes visionários como Lincoln, Roosevelt, Churchill e Mandela não apenas reagiram fortemente às ameaças que confrontavam, mas também olharam para além do horizonte sombrio

A crise não traz oportunidades e sim mudanças que permitem às organizações e pessoas criarem oportunidades. Ou seja, devemos mudar o foco da rotina do hoje para “o que queremos ser amanhã”, sempre com o propósito de aumentar a competitividade e a longevidade da empresa.

Estratégias Sugeridas para o Líder

a) Inteligência Emocional e “SWOT”: Precedendo todas, o Equilíbrio Emocional é fundamental para o líder “ler” bem o cenário atual e suas implicações atuais e futuras, com o objetivo de sair da crise com a empresa mais forte e mais resiliente que antes. A boa notícia é que a Inteligência Emocional pode ser desenvolvida ou melhorada. Essa leitura deve ser feita simultaneamente com a matriz “SWOT” (forças e fraquezas, oportunidades e ameaças) da empresa para melhor posicioná-la no ambiente de negócios.

b) Conexão: Aumentar a conexão com os colaboradores procurando identificar suas reações, lembrando que “uma corrente é tão forte como seu elo mais fraco”. O feedback assume papel importante nessa conexão.

c) Antenado: Atenção total ao mundo dos negócios através do “benchmarking” e ao comportamento do consumidor, que está mudando exponencialmente, especialmente a geração “Millennials”, que deve ter atenção especial. O compartilhamento de informações cresce exponencialmente e com ele o processo de desenvolvimento de mudanças e de inovações, regra de ouro das empresas do Vale do Silício.

d) Orientação para pessoas: Ram Charan, um dos gurus mundiais preferidos dos empresários, afirma: “Você sabe se um líder é de fato orientado para pessoas olhando sua agenda e vendo quanto tempo ele investe em conversar com pessoas (liderados e clientes) e não apenas em processos e metas”

e) Visão de oportunidades: Muitas empresas líderes nos seus segmentos praticamente sumiram porque suas lideranças não entenderam a nova dinâmica dos negócios. Exemplos: Kodak, Nokia, Olivetti, Sears, dentre muitas que sofreram de “miopia de mercado”. Ao passo que, em plena crise de 2008, os fundadores das startups Uber e Airbnb perceberam a grande oportunidade de mercado que se descortinava com a utilização, a preços mais competitivos, da capacidade ociosa dos automóveis e das residências. Sem investimento em ativos fixos, hoje possuem a maior frota de automóveis e a maior oferta de quartos do mundo.

f) Criação de “Comitê de Crise”: Com colaboradores de vários perfis e hierarquia, devendo ser coordenado pessoalmente pelo líder principal da empresa e reunido com intensa regularidade.

g) Energização e Comunicação: Nesse cenário de incertezas cabe ao líder não apenas ter energia positiva como também transmiti-la intensamente aos seus liderados. A positividade do líder deve ser maior que toda negatividade do cenário. A comunicação assertiva, ampla e transparente gera um ambiente de segurança junto aos colaboradores, contribuindo para “elevar o moral do time”.

h) Celebração: Muito comum no Brasil é o fato dos gestores preocuparem-se obsessivamente com a cobrança dos seus subordinados, relegando a celebração para um plano secundário, esquecendo-se que uma das maiores expectativas dos colaboradores é o reconhecimento do seu desempenho, especialmente quando atingem objetivos e metas. Esta atitude forma times pró-ativos e motivados.

i) Trabalho remoto: Opção que foi inevitável durante a crise, o “home office” veio para ficar devido aos seus inúmeros benefícios. Empresas como a XP Investimentos (uma das maiores corretoras de investimento do Brasil) e muitas outras de vários setores da Economia afirmam que essa mudança provocada pelo isolamento vai se tornar prática permanente, já realizando estudos para reduzir substancialmente suas áreas de escritório físico, gerando importante economia e aumento de produtividade tanto para a empresa como para seus colaboradores. Mesmo antes da atual crise as empresas norte-americanas já se utilizavam em grande escala da prática do trabalho remoto.

j) Transformação Digital e Inovação: A crise atual é o empurrão definitivo para as empresas que ainda não se preocuparam com suas transformações digitais, optando pelos vários modelos existentes, desde o e-commerce total até o “Omnichannel”, que é a fusão entre o formato digital e o físico. Certamente existem setores em que a “experiência de compra” possa ser a preferida pelo cliente, mas mesmo neste caso a experiência pode ser enriquecida com o reforço digital pré e pós‑venda, contribuindo para maior fidelização do cliente. Empresas inovadoras que já atuavam fortemente no formato digital estão colhendo os frutos mesmo no atual cenário de recessão da Economia. Como é o caso da Amazon, que faturou no primeiro trimestre deste ano US$ 80 bilhões voltando a integrar o seleto grupo das empresas que valem mais de um trilhão de dólares, ao lado da Alphabet (grupo Google), Apple e Microsoft. Jeff Bezzos, fundador da Amazon, dá a receita para o sucesso da empresa e que serve como importante dica para os líderes: “Nós inovamos começando pelo cliente, trabalhando de trás para a frente. Essa é a pedra fundamental da empresa. Inovação não é sobre tecnologia, é sobre servir melhor. Tecnologia é o meio, não o fim”.

Desafio do Líder

O líder tem o grande desafio de comandar a adaptação e transformação da empresa para sobreviver e se diferenciar no “novo normal”. Com a certeza de que tudo vai passar e que o futuro da empresa vai depender da rapidez e lucidez de sua leitura das transformações ocorridas que vieram para ficar, e como inserir sua empresa com êxito nesse novo contexto


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Papel da Liderança na Gestão de Crises - Por Leopoldo Andretto

Prof. Leopoldo Andretto
@leoandretto
abeeon.com/andretto

Graduado e pós graduado pela FGV, com cursos de especialização na Universidade da Califórnia, San Diego, que possui 16 Prêmios Nobel (dois em Economia), onde é palestrante convidado e coordenador dos cursos de Gestão Estratégica e Inovação para executivos do Brasil. Foi coordenador dos MBAs da FGV Management, sendo atualmente consultor empresarial nas áreas de Estratégia e Gestão de Inovação.