Não fuja do diálogo

“Vamos resolvendo por áudio que é melhor!”, respondeu meu amigo à minha sugestão de fazer uma ligação e conversar. Essa história começou com uma mensagem de WhatsApp, uma observação com um tom meio ríspido por parte de uma colega de empresa dele. Vendo como ele ficou alterado e o conflito iminente, sugeri a ligação, mas ele decidiu que responderia com um áudio. Recebeu outro áudio de resposta e enviou outro, depois recebeu mais um e enviou outro, novamente. E assim se passaram 45 minutos, entre ensaio (esperando o próximo áudio e já pensando no que responder!) e execução de acaloradas mensagens entre dois colegas de trabalho.

Quando esta “dança” improdutiva e desajeitada terminou, perguntei novamente:

Cara, porque você não ligou?

E ele respondeu:

-Por que por áudio é mais rápido!

E eu disse:

Mas você ficou 45 minutos trocando mensagens! Podia ter resolvido em 10 minutos de conversa!

Silêncio de constrangimento. Ele viu que eu estava certo e não tinha o que dizer a respeito. Simplesmente desconversou e eu, cumprindo o papel de amigo, parei por ali mesmo. Como terminou a discussão? Não terminou, decidiram que a situação seria revista quando se encontrassem novamente.

Hoje prevalece a crença de que a praticidade das mensagens instantâneas supera qualquer benefício da ligação. Contudo, para questionar essa crença, minha pergunta não é porque as pessoas usam tanto as mensagens – seja por texto ou por áudio – mas por que fogem das ligações? A resposta é simples: nas ligações tem sempre o outro.

As brigas por áudio são cada vez mais comuns e existe uma boa razão para chegarem tão longe: não são um diálogo, são monólogos! Enquanto a pessoa descarrega toda sua raiva e frustração em cima do celular, não há nenhuma interrupção, sequer um olhar indignado que poderia indicar que está indo longe demais.

O feedback na comunicação é crítico. Não só nas palavras, mas na expressão corporal, no olhar, no tom de voz, tudo isso nos mostra o impacto do que estamos dizendo e, em um processo mais natural – um diálogo – ajustamos nossas ações diante desse impacto. Quando não temos acesso à essa informação o outro deixa de importar.

A tecnologia pode ser uma grande aliada, mas estamos usando-a como subterfúgio à nossa covardia, ao medo de sermos contrariados, à fuga do enfrentamento. E assim se deterioram relacionamentos, em argumentos cheios de razão por canais de comunicação sem nenhum indício de que você está indo num caminho que talvez não tenha mais retorno. Se quiser quebrar esse ciclo, ao menor sinal de conflito, use um canal que permita o diálogo.

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Thiago Franco
@thiagofranco.coach

abeeon.com/ thiago-franco
Especialista em liderança e CEO da Turnus, startup de gestão de escalas de trabalho. Atua como coach, professor e consultor, desenvolvendo pessoas para pensar de maneira mais estratégica e se conectar melhor com outras pessoas.