Brian Requarth lança um olhar estrangeiro para o mercado em ascensão das startups no Brasil

Mesmo em um período conturbado para economia mundial, em especial o Brasil, o ecossistema das startups bateu recorde em aquisições e passou 80% do volume de subsídio registrados – números contabilizados até novembro de 2020. Contudo, mesmo com cifras animadoras, muitos empreendedores não tiveram o mesmo êxito. Para minimizar os riscos e compartilhar conhecimento aprendido, Brian Requarth, fundador do Viva Real, uma plataforma de aluguel e comprar/venda de imóveis – que posteriormente foi agregada ao Grupo Zap e vendida, em 2020, para OLX por R$ 2,9 bilhões -, reuniu um grupo seleto de mentores dispostos a ajudar empreendedores a superarem mais rapidamente os desafios enfrentados em suas startups.  Desse modo, nasceu o projeto Latitud.

A Empreende conversou com o empreendedor, que está na Califórnia (EUA), para esmiuçar detalhes da iniciativa, além de tecer projeções positivas para o ramo de startup no Brasil.

 Um insight no meio do caos

Com intuito de prestar auxilio e dividir sua expertise, Brian estabeleceu um canal direto com empreendedores, durante a pandemia. O americano relata que esse processo se deu de forma orgânica. “A ideia de formar a rede Latitud surgiu depois de receber muitas ligações de empreendedores brasileiros, especialmente aqueles que atuam no mercado latino americano falando das dificuldades encontradas e como estavam sendo afetados. Ao conversar com essas pessoas percebi um fator comum: todos tinham as mesmas perguntas”, frisa, e salienta que as respostas, para esses questionamentos, poderiam servir de aprendizado para outros empreendedores, que estavam vivendo o mesmo desafio – passar por uma pandemia e mudança de paradigma econômico e social. “Para tornar essa troca mais eficiente, organizamos um grupo virtual de especialistas, em diversos ramos, dispostos a compartilhar seus conhecimentos e prestar apoio”, conta.

A discussão de ideias, para fomentar conhecimento na área, tornou-se um projeto de cunho, antes de mais nada, educativo. Entre os fundadores, além de Brian, o time conta com a participação de Gina Gotthilf, ex-VP de marketing da Duolingo, e Yuri Danilchenko, ambos dotados de cases de sucesso no ramo da tecnologia.

Inicialmente, 100 startups foram selecionadas para participar da programação organizada pelos mentores, no mês de outubro de 2020. Entre as atividades realizadas estavam a apresentação de startups participantes e seus heads, que dividiram seus gargalos e anseios profissionais para um grupo de 100 investidores. “Doamos nosso tempo para ajudar empreendedores a conhecer seus desafios e estabelecer objetivos concretos, que podem gerar melhorias para o mercado, especialmente no ramo das startups no Brasil”, conta.

Brian Requarth

“Assim como outros empreendedores, quando estamos no início da empresa nos sentimos sozinhos. Como eu sou estrangeiro isso ainda era mais complicado pois eu não tinha muitos amigos no país. Como forma de superar esse sentimento, todo mês eu me reunia com outros empreendedores, que também estavam começando, como o Thomaz Srougi do Dr. Consulta e o David Vélez do Nubank, para compartilharmos nossos desafios e isso foi muito valioso para mim porque eu tinha muitas dúvidas. Quando estamos abertos a novas experiências e aprendizados, podemos notar ações e lacunas que precisam ser preenchidas.” relembra.

Sem fronteiras para o conhecimento

Segundo o idealizador, a Latitud atua em três frentes. São elas: aprendizado conjunto, como meio de fomentar o mercado de startups e novos profissionais que estão sendo requeridos; segundo pilar, disponibilidade de oferecer mentoria de qualidade para desenvolvimentos de projetos saudáveis no quesito financeiro e, por último, mas não menos importante, o time de pessoas muito talentosas que contribuem para o desenvolvimento da Latitud. “Pra mim, essas são as três frentes de maior importância na nossa comunidade”, orgulha-se ao detalhar os pilares que serviram de base para a construção, como gosta de dizer, do seu novo propósito de vida.

Outro ponto de grande valia, segundo Brian, é a possibilidade de pensar e interagir globalmente. “Você pode conhecer pessoas fantásticas sem sair de casa. Isso me fascina. A tecnologia está quebrando barreiras. Na Latitud somos em 8 pessoas de diferentes lugares (Estados Unidos, Uruguai, Colômbia, México, Peru e Brasil), e todos estamos correndo atrás do mesmo propósito”, comenta. “Antes era impossível fazer uma reunião se todas as pessoas não estivessem presentes no mesmo espaço físico. Hoje, tudo mudou, podemos fazer um vídeo conferência e compartilhar ensinamentos a quilômetros de distância – e isso é fruto de um empreendedor e investidor, que acreditaram que isso era possível e devia ser feito”, alegra-se.

De acordo com Brian, um fator preponderante, além de ser um diferencial, visto o momento que estamos passando, é o fato da Latitud não se preocupar com giro de capital dos empreendimentos. “Temos privilégio de não nos preocuparmos com o modelo de negócio a curto prazo, ou seja, que demanda retorno em menos tempo. Acreditamos que, primeiro, é preciso proporcionar um ambiente e ferramentas para o negócio crescer, para, só depois, colher os bons frutos”, comenta e salienta que essa é uma filosofia de vida e que norteia suas escolhas quando atua como investidor anjo. “Nos últimos cinco anos, estou atuando nesse ramo de investimento. Porém, tenho mais liquidez nos 7 meses passados. Mesmo em meio a pandemia fiz 30 investimentos porque tenho confiança nos projetos que estão sendo construídos”, relata sua experiência.

Startup no brasil: visão de um empreendedor

 “Há 10 anos quando comecei a empreender no país, o ecossistema de startups era bem diferente e carente de profissionais. Melhorou muito. A melhora também pode ser vista na qualidade de empreendedores e investidores, que estão por trás de grandes projetos”, comenta. Contudo, mesmo detendo um cenário favorável, Brian destaca que o maior desafio que o país precisa transpor não é o financeiro. “Há dinheiro para investir. O que não tem, ao meu ver, é a habilidade requerida para fazer investimentos inteligentes. Existem muitos projetos legais e grandes sonhadores, que pensam de forma global”. Brian destaca a mudança nos hábitos dos consumidores e vê, essa alteração, como uma potente força motriz para o desenvolvimento no ramo consumo. Mas, lamenta que essa mudança de comportamento tenha sido acompanhada de um problema de saúde mundial. “As pessoas estão com receio de ir até aos supermercados e pensando nisso, muita gente já adequou o seu modo operante de trabalho, como, no caso do Ifood ou Rappi, que mudaram seus negócios – tornando melhores e adaptáveis”, complementa.

O que é necessário, de acordo com Brian, para o Brasil ter esse despertar é investir em pessoas que estão dispostas a alimentar esse modelo de negócio – as startups. “Eu sei reconhecer bem as oportunidades porque eu vivi na pele o que é construir uma startup de sucesso. Por isso, hoje também sou investidor de startups e acredito que é muito importante retribuir os meus ganhos nos locais que me proporcionaram ganhar dinheiro. Pensar e agir dessa maneira, alimenta um círculo virtuoso onde ajuda a desenvolver um ecossistema saudável e evoluído para todos” analisa.

“Quando somamos, em relação a território demográfico, o Brasil e a América Latina são maiores que a Índia, mas a Índia recebe pelo menos o dobro de investimentos em startups. Estamos falando de países capazes de fomentar o mercado em diferentes setores. Eu vejo uma discrepância em relação ao investimento e em acreditar no potencial das pessoas envolvidas”, fala. “Meu desejo é ver esse ecossistema amadurecer, onde mais empreendedores correm atrás de grandes ideias, mais investimentos acontecem e pessoas de sucessos reinvestem no ecossistema. Porque quando eu tive investimento de vários anjos, não foi apenas o dinheiro que ajudou tanto, foi o conhecimento daquelas pessoas que abriram portas e mudou completamente a minha trajetória” finaliza Brian.

A rede Latitud conta com um programa de mentoria gratuita para 100 empreendedores de startup early stage com duração de quatro semanas. A cada dois meses novas inscrições são abertas. Para mais informações consulte o site Latitud.

Por Camila Firmino

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