Resiliência! Nos Conflitos e na Carreira

Por *Danilo Talanskas

Poucos conhecem a impressionante história de Tsutomu Yamaguchi. Morador de Hiroshima, como por milagre sobreviveu à explosão da primeira bomba atômica em 6 de agosto de 1945, apesar de não estar longe do centro do choque. No dia seguinte, tomou um trem para Nagasaki, para passar pela experiência da explosão da segunda bomba atômica no dia 9 de agosto… e sobreviver! (1)

Yamaguchi é tido como a única pessoa a sobreviver a duas bombas atômicas. Faleceu aos 93 anos em janeiro de 2010, tendo passado a vida como um ativista da paz, pregando que se as pessoas fossem amáveis umas com as outras o mundo seria melhor. Se tornou um exemplo tocante e maravilhoso de resiliência ao ódio.

Winston Churchill assumiu o cargo de primeiro-ministro em 10 de maio de 1940, em meio a uma Europa Ocidental quase toda sob domínio nazista e as Ilhas Britânicas se tornando a única fonte de resistência ao poderio alemão. Em meio ao temor de toda a população de uma iminente invasão alemã, em 13 de maio Churchill declarou:

“Perguntam-nos qual é a nossa política. Eu respondo. Fazer a guerra, por mar, terra e ar, com toda a nossa energia e com todas as forças que Deus nos der; fazer a guerra contra uma monstruosa tirania … Perguntam-nos qual é o nosso objetivo. Posso responder com uma só palavra: vitória. Vitória a todo o custo, vitória a despeito do terror, vitória por mais longo e difícil que seja o caminho…Tenho certeza de que nossa causa não fracassará. Neste momento, sinto-me autorizado a exigir a ajuda de todos e digo-lhes: “Venham, vamos juntos em frente, com nossa unida firmeza. “”(2)

Churchill tornou-se a grande inspiração para a resiliência da população britânica, resistindo aos bombardeios de civis, principalmente em Londres. É extremamente difícil de se enxergar a luz da vitória dentro da escuridão do poço das adversidades.

Entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 1945, a cidade de Dresden, na Alemanha, sofreu bombardeios surpresa das forças aéreas britânica e americana. Foram 1.300 aviões bombardeiros pesados lançando 3.900 toneladas de bombas incendiárias, dizimando 39 quilômetros quadrados do centro da cidade e matando perto de 25.000 civis.(3) Dresden reergueu-se das cinzas tornando-se novamente em poucos anos uma linda metrópole cultural, numa demonstração de resiliência de toda a população no reerguimento das quedas provocadas por pesadas adversidades.

Vimos três exemplos de resiliência coletiva à frente de tragédias inesperadas.

A capacidade de exercer resiliência é de vital importância em nossas carreiras. É o contraponto dos holofotes e dos momentos de sucesso, pois nestes não precisamos desta habilidade, ao contrário, abrimo-nos para os louros da vitória.

Nosso dicionário Aurélio, junto com a definição química relativa a metais, dá o significado mais simples e direto da palavra resiliência: “resistência ao choque”. Em nossas experiências o conceito vem sempre acompanhado do sabor amargo das dificuldades e frustrações pelas quais passamos em nossas carreiras. São momentos que queremos esquecer, mas que voltam às nossas mentes como as grandes oportunidades de aprendizado que tivemos.

Como o termo é geralmente usado de maneira bastante vaga, para a aplicação prática da resiliência gostaria de identificar três tipos de situações em que utilizamos esta habilidade com muita intensidade.

O primeiro tipo de resiliência nos arremete aos exemplos citados acima e que desenvolvemos ao enfrentar (sempre do ponto de vista profissional) algo grave ou desastroso, mas inesperado. Pode ser a perda do emprego, uma acusação injusta com sérias consequências, chegar às portas da insolvência ou falência, uma enfermidade grave ou tragédia pessoal que tenha um forte impacto no trabalho. Outras situações semelhantes completam a lista. Chamo este tipo de “resiliência ao choque”

Esta categoria de resiliência é desenvolvida antes do fato grave e vem através do sistema de apoio familiar, de fortes âncoras espirituais ou filosóficas e de um claro objetivo de vida que não seja apenas o sucesso profissional. Destas perspectivas virão os alicerces da resiliência para estes momentos. A principal visão nestas ocasiões é que, assim como as cidades citadas se reergueram das cinzas, assim também nós podemos reconstruir as “nossas Dresdens”.

Ao contrário do que muitos pensam, a resiliência é uma atitude necessária não só para grandes infortúnios, mas também para a rotina de nossas carreiras. Vem aí então o segundo tipo de resiliência.

Há situações de alta pressão nas quais a causa raiz é originada por nós mesmos. São aquelas em que nossas qualificações, habilidades, ou mesmo comportamentos pessoais não estão à altura dos requisitos necessárias para a posição que ocupamos, causando assim grandes frustrações.

Há incontáveis exemplos, mas cito aqui alguns: a falta da formação acadêmica necessária, a dificuldade em aprender uma nova língua, a carência de habilidade de nos adaptarmos a mudanças constantes, uma personalidade que dificulta muito o trabalho em equipe, o hábito de ser uma pessoa sempre muito crítica, permitir que frustrações da vida pessoal interfiram na qualidade do trabalho, a qualidade de nosso trabalho estar abaixo das expectativas. A lista pode ser enorme.

O primeiro grande passo é reconhecer quando as pressões são causadas por nós mesmos e desenvolver o que eu chamo de “resiliência ativa”. Significa o esforço consciente e constante, com objetivos claros e programados para cobrir o “gap” de qualificações necessárias para a posição que ocupamos. A substituição da frustração pelo sentimento de vitória é muito recompensadora.

O terceiro tipo de resiliência é aquela que desenvolvemos em razão de fatores externos à nossa influência. Esta eu chamo de “resiliência reativa”. Se aplica a situações como a troca de chefe, ou até mesmo a falta de “química” neste relacionamento, junção ou compra de empresas que provoquem grandes transformações, reestruturações vindas das mais diversas razões e que afetam a nossa carreira, novas tecnologias que podem tornar nossas habilidades obsoletas. A pandemia que marcou os anos de 2020 e 2021 é outro exemplo de fator externo extremamente impactante.

Com as mudanças tão rápidas e drásticas, este tipo de resiliência deve se tornar nossa segunda natureza, pois as constantes mudanças no ambiente de negócios, mercados, tecnologias, dos fatores econômicos e políticos, aumentam drasticamente a volatilidade de nossas carreiras.

Como uma ponderação final ao observar todas estas situações, me vem à mente a letra de um hino que diz:

“Prolongue os bons momentos,

Que estão a se escoar

Desfrute o sol radiante

A noite vai chegar! ” (4)

Com certeza devemos celebrar cada dia de sol de nossas carreiras, ao mesmo tempo que nos preparamos, pois, algumas noites decerto nos esperam!

(1) “O Último Trem de Hiroshima” , Charles Pellegrino, Editora Leya, 2010

(2) “Churchill – Uma Vida “- Volume 2, Martin Guilbert, Editora Casa da Palavra, 2016

(3) Bombardeio de Dresden – Wikipédia

(4) “Prolongue os Bons Momentos”, letra e música de Robert B. Baird (1855-1916)

Danilo Talanskas. Foto divulgação

*Danilo Talanskas foi o CEO de três multinacionais: GE Healthcare, Rockwell Automation e Elevadores Otis. Em paralelo à sua carreira como executivo, atuou como palestrante e professor em cursos de pós-graduação nas áreas de Estratégia, Ética e Negócios Internacionais. Nos últimos anos fez parte de conselhos de administração, conselhos consultivos e assessora empresas. É formado em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com MBA pela Universidade de Brigham Young (EUA) e é mestre em Administração pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Atualmente assessora a Fernandez Mera Negócios Imobiliários Ltda.

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