Por *Déborah Luzzi
Desde 2020, o crime no Brasil não apresentou uma queda significativa. O que ocorreu, na verdade, foi uma mudança de estratégia. Longe das ruas, dos riscos físicos e das armas, o crime migrou para um território mais seguro e lucrativo: o digital.
Com um simples celular, um número novo e uma história convincente, criminosos têm aplicado golpes com facilidade impressionante. E, ao contrário do que se imagina, essa nova onda de crimes não depende de tecnologias avançadas ou hackers sofisticados. As fraudes digitais exploram o emocional, a pressa e a fluidez de sistemas desenhados para não fazer perguntas.
O crime fez as contas — e elas fecharam
No mundo físico, o crime exige deslocamento, enfrenta riscos, confrontos e possibilidade real de prisão. No mundo digital, as barreiras caem. Golpistas não precisam se expor, nem sequer sair de casa. A chance de punição é mínima e os lucros, muitas vezes, imediatos.
Sob uma ótica racional — que também se aplica ao crime — a escolha é evidente: por que arriscar um assalto à mão armada se é possível aplicar dezenas de golpes em poucos minutos, com apenas alguns cliques?
Sistema ingênuo, por design
Ao contrário do que muitos acreditam, a maioria das fraudes digitais não depende de habilidades técnicas complexas. Funcionam com mensagens mal escritas, histórias genéricas e pressão emocional. Isso porque os sistemas são ágeis demais para permitir reflexão, desconfiar ou impedir transações suspeitas. A fluidez, vendida como comodidade, virou um facilitador do golpe.
“Tudo é rastreável” — mas isso basta?
Embora as tecnologias para rastrear IPs, dispositivos e movimentações financeiras estejam amplamente disponíveis, sua aplicação costuma ocorrer apenas após o prejuízo. Enquanto isso, o criminoso já desapareceu com o dinheiro. O sistema reage, mas o crime age antes — e isso transforma a prevenção em encenação.
A falsa dicotomia entre segurança e usabilidade
Criou-se a ideia de que segurança compromete a fluidez do sistema. No entanto, especialistas em tecnologia sabem que é possível criar atritos seletivos, mecanismos inteligentes de bloqueio e proteção eficaz para os usuários mais vulneráveis. O problema não é técnico. É cultural. Exige esforço, revisão de prioridades e mudanças estruturais — e isso, para muitos, ainda é desconfortável.
Privacidade como argumento — ou como escudo?
Apesar da crescente valorização da privacidade, o Brasil ainda convive com exposições massivas de dados pessoais em diários oficiais, bancos de concursos e sistemas públicos frágeis. Usar o discurso da privacidade para não combater golpes em massa, muitas vezes repetitivos e previsíveis, é proteger o sistema às custas do cidadão.
Quem paga a conta?
As perdas causadas por fraudes digitais são silenciosas e pulverizadas. Não atingem diretamente bancos, plataformas ou operadoras. Recai sobre aposentados, famílias e pessoas comuns. Por serem danos individuais, não geram crise nem mobilização. O sistema absorve os impactos — desde que recaíam sempre sobre o elo mais fraco.
A omissão como escolha
Diante de padrões já identificados, dados disponíveis e soluções viáveis, a pergunta inevitável é: por que nada muda de forma estrutural? A resposta pode estar na conveniência. Permanecer como está ainda é, para muitos agentes do sistema, mais barato do que assumir os custos da transformação.
O crime mudou de endereço. O sistema vai continuar inerte?
O crime se digitalizou. Tornou-se escalável, organizado e seguro para quem o pratica. Tratar fraudes como eventos isolados, em 2026, não é mais plausível. É preciso encarar uma realidade incômoda: o sistema não é apenas vítima da criminalidade moderna — ele é, muitas vezes, cúmplice pela omissão.
A pergunta final permanece, urgente e necessária: até quando o sistema vai preferir o conforto à responsabilidade?
*Déborah Luzzi é jornalista especializada, diretora e editora da Revista Empreende. É formada em Engenharia da Computação, com foco em tecnologia e empreendedorismo.