China amplia distância do Brasil com planejamento de longo prazo, avalia CEO da MB Consultoria

Por Marx Alexandre Corrêa Gabriel
A experiência de observar Shanghai do 67º andar de um edifício corporativo levou Marx Alexandre Corrêa Gabriel, CEO da MB Consultoria, a refletir sobre a escala da transformação chinesa e sobre os aprendizados possíveis para o Brasil. No artigo, escrito durante a Missão Ásia 2026, ele sustenta que a ascensão da China não pode ser explicada apenas por números, política industrial ou mão de obra barata, mas por uma combinação de cultura, planejamento e execução.
Segundo Gabriel, a cidade de Shanghai, com 25 milhões de habitantes, expressa uma capacidade de organização que ajuda a entender a trajetória recente do país. “Há coisas que não cabem em relatório, vídeo ou manchete de jornal. Precisam de presença”, afirma.
China combinou tradição, pragmatismo e tecnologia
Para o executivo, a China não pode ser compreendida sem considerar a influência de Confúcio e de valores como caráter, autoridade, legitimidade, disciplina, mérito e responsabilidade diante do coletivo. Na avaliação dele, esses elementos formam uma base cultural que sustenta a coordenação em larga escala.
Gabriel afirma que a meritocracia chinesa não deve ser vista apenas como discurso corporativo, assim como a ideia de coletivo acima do individual não seria apenas um slogan político. Para ele, trata-se de um princípio organizacional que permite decisões coordenadas e consistentes ao longo do tempo.
“A China não escolheu entre tradição e modernidade. Recombinou os dois. Tradição mais pragmatismo mais tecnologia mais visão de longo prazo”, escreve.
Comparação entre Brasil e China expõe diferença de trajetória
O artigo também compara a evolução econômica de Brasil e China nas últimas três décadas. Em 1995, o Brasil tinha um PIB de US$ 769 bilhões, enquanto a China registrava US$ 738 bilhões. Naquele momento, o Brasil estava à frente.
Trinta anos depois, segundo os dados citados por Gabriel, o PIB brasileiro chegou a US$ 2,64 trilhões, enquanto o chinês alcançou US$ 20,85 trilhões. A economia chinesa passou a ser 7,9 vezes maior que a brasileira.
“Não é uma diferença de ritmo. É uma diferença de projeto”, afirma o autor.
No mesmo período, segundo Gabriel, a China tirou 700 milhões de pessoas da pobreza. Ele classifica esse processo como uma transformação social de grande escala em tempo de paz.
O que o Brasil pode aprender sem copiar o modelo chinês
Gabriel ressalta que não defende a cópia do modelo chinês pelo Brasil. Para ele, no entanto, há decisões que independem do sistema político e dizem respeito à capacidade de gestão do Estado e das empresas.
Entre os pontos destacados estão:
- investir de forma consistente em educação;
- construir mobilidade urbana que trate o cidadão com dignidade;
- garantir segurança pública como função básica do Estado;
- criar ambientes regulatórios que permitam inovação empresarial;
- planejar além do ciclo eleitoral.
Na visão do CEO da MB Consultoria, essas não são escolhas ideológicas, mas escolhas de gestão. Ele também afirma que a velocidade de execução depende menos de recursos e mais de cultura e decisão.
Planejamento de longo prazo e inovação
O artigo aponta quatro lições principais para empresas e governos. A primeira é que velocidade de execução é resultado de cultura e decisão. A segunda é que planejamento de longo prazo não impede a velocidade, mas a sustenta. A terceira é que inteligência artificial não deve ser tratada apenas como uma iniciativa de TI, e sim como uma decisão estratégica de liderança. A quarta é que inovar exige abandonar práticas que não cabem no futuro.
“Sem horizonte claro, velocidade é apenas agitação. Com horizonte claro, cada decisão operacional encontra uma direção na qual se encaixar”, escreve Gabriel.
Para o autor, a distância atual entre Brasil e China foi construída por escolhas institucionais, educacionais e estratégicas. Ele conclui que o desenvolvimento brasileiro dependerá de decisões concretas, tanto no setor público quanto no setor privado.
Sobre o autor: Marx Alexandre Corrêa Gabriel é CEO da MB Consultoria há 32 anos, conselheiro de administração certificado pelo IBGC desde 2012, instrutor da MB Executive School e autor de Direto ao Ponto. O artigo foi escrito de Shanghai, China, durante a Missão Ásia 2026.
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