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Cirurgia de hérnia avança com robótica e laparoscopia

Assim como a maioria das especialidades médicas, a área de cirurgia de hérnia inguinal vem passando por constante modernização com auxílio da tecnologia. Um estudo publicado pela Scielo conclui que a correção de hérnia inguinal por cirurgia transabdominal pré-peritoneal (TAPP) robótica é uma técnica viável, segura e reprodutível, com resultados pós-operatórios encorajadores.

Apesar das limitações atuais relacionadas a tempo cirúrgico, custos e curva de aprendizado, os achados se assemelham ao processo histórico de adoção de outras tecnologias minimamente invasivas, que inicialmente enfrentaram resistência, mas se consolidaram após comprovação de benefícios clínicos e custo-efetividade.

A exemplo, o projeto TAPP IA é outra iniciativa voltada ao uso de inteligência artificial (IA) para aprimorar o reparo da hérnia inguinal pela técnica TAPP. Ele foi apresentado no contexto do Congresso Brasileiro de Hérnia e busca integrar ferramentas de IA com o objetivo de tornar a cirurgia laparoscópica TAPP mais fácil, padronizada, segura e acessível.

O Dr. Rodrigo Barbosa, médico, cirurgião do aparelho digestivo e especialista em hérnia da parede abdominal, com atuação focada em cirurgia minimamente invasiva, laparoscopia e cirurgia robótica, afirma que o tratamento cirúrgico das hérnias passou por uma das maiores transformações da história recente da cirurgia.

"Nas últimas duas décadas, saímos de um cenário predominantemente aberto, com incisões maiores e recuperação mais lenta, para técnicas minimamente invasivas que priorizam precisão, menor trauma cirúrgico e melhor qualidade de vida no pós-operatório. A laparoscopia e, mais recentemente, a cirurgia robótica mudaram o paradigma", pontua o médico.

O cirurgião observa que os principais marcos tecnológicos e científicos que transformaram o tratamento cirúrgico das hérnias nesse período foram a padronização do uso de telas sintéticas mais biocompatíveis, o avanço da laparoscopia com visão ampliada e acesso ao plano pré-peritoneal, e o desenvolvimento da cirurgia robótica, que trouxe mais precisão, ergonomia e controle de movimentos.

Segundo o médico especialista, a diferença mais relevante entre a cirurgia aberta de hérnia e procedimentos modernos, como a cirurgia laparoscópica da hérnia e a cirurgia robótica da hérnia abdominal, está diretamente no impacto clínico e funcional para o paciente.

"Em relação às técnicas abertas, a laparoscopia e a robótica permitem incisões menores, melhor visualização das estruturas anatômicas, correção mais precisa da hérnia, menor risco de dor crônica e um retorno às atividades do dia a dia significativamente mais rápido".

O Dr. Rodrigo Barbosa reforça que, para o paciente, os ganhos são menos dor no pós-operatório, menor necessidade de analgésicos, menor risco de infecção da ferida e um retorno muito mais rápido ao trabalho e às atividades cotidianas. Segundo ele, em muitos casos, o paciente retoma sua rotina em poucos dias.

"Isso impacta diretamente a qualidade de vida, a produtividade e o bem-estar do paciente. Estudos clínicos robustos passaram a demonstrar, com evidência científica, que técnicas minimamente invasivas reduzem a dor crônica e permitem recuperação mais rápida, o que consolidou essas abordagens nos grandes centros", enfatiza o especialista.

Prática predominante no Brasil

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH) sobre cirurgias de hérnias abdominais no Sistema Único de Saúde (SUS) revela que a condição atinge entre 20% e 25% dos adultos, o que representa cerca de 28 milhões de brasileiros. As hérnias abdominais podem ocorrer na virilha (inguinal), acima do umbigo (epigástrica), no local de cicatriz de cirurgia anterior (incisional) ou na região do umbigo (umbilical).

De acordo com o relatório, a cirurgia mais realizada no país em 2023 e 2024 foi para o reparo da hérnia inguinal, com 323.045 cirurgias atendidas. O procedimento também é o mais realizado em cada um dos estados e no Distrito Federal. Nos dois anos, o total de cirurgias realizadas pelo SUS de forma minimamente invasiva foi de 4,3 mil, ou 0,62% do total. Somente em 2024 foram realizadas 349,9 mil cirurgias de hérnia da parede abdominal.

O especialista do Instituto Medicina em Foco destaca que, enquanto centros de excelência já incorporaram protocolos modernos, planejamento individualizado e técnicas como a laparoscopia e, em casos selecionados, a cirurgia robótica, grande parte das cirurgias de hérnia no país ainda segue modelos padronizados, com pouca diferenciação entre tipos de hérnia e perfis de pacientes.

"Hérnias inguinais, umbilicais, incisionais ou recidivadas exigem avaliação por especialista em hérnia abdominal e definição individualizada da técnica cirúrgica. Tratar todos os casos como procedimentos simples ignora fatores anatômicos e clínicos, o que contribui para dor crônica, recidiva e recuperação prolongada", analisa o Dr. Rodrigo Barbosa.

Conforme aponta o cirurgião, centros especializados contam com equipes treinadas, alto volume de cirurgias, protocolos bem definidos e acesso à tecnologia adequada, e isso pode se traduzir em melhores resultados e menor taxa de complicações. "Fora desses centros, infelizmente, ainda predomina o acesso limitado à tecnologia, menor treinamento específico e, muitas vezes, a manutenção de técnicas mais antigas", informa.

Para o médico, os principais entraves para técnicas modernas se tornarem mais presentes na prática cotidiana no país são o custo inicial da tecnologia, a necessidade de treinamento especializado e a desigualdade de acesso entre diferentes regiões do país.

Segundo ele, o fato de nem todos os serviços de saúde conseguirem investir em equipamentos e capacitação contínua cria um cenário em que os avanços não chegam de forma homogênea à população.

"A cirurgia de hérnia abdominal é um exemplo de como tecnologia, ciência e capacitação profissional caminham juntas. Cabe aos especialistas e às sociedades médicas difundir conhecimento baseado em evidência científica, promover treinamento e estabelecer diretrizes claras. O desafio atual é garantir que esses avanços sejam acessíveis, seguros e aplicados de forma responsável, sempre com foco no paciente", conclui o Dr. Rodrigo Barbosa.