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Embraer entra em nova fase de expansão global com carteira recorde de US$ 34,5 bilhões

17/08/2026 • 18:24

Embraer entra em nova fase de expansão global com carteira recorde de US$ 34,5 bilhões
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Fabricante brasileira registra o melhor segundo trimestre de sua história em receita, eleva projeções para 2026 e acelera internacionalização com avanço dos E-Jets e do C-390 Millennium em mercados estratégicos.

A Embraer entrou no segundo semestre de 2026 em uma das posições mais fortes de sua história recente. Com carteira de pedidos de US$ 34,5 bilhões, recorde pelo sétimo trimestre consecutivo, crescimento de receita, melhora expressiva das margens e expansão internacional do C-390 Millennium, a fabricante brasileira amplia sua relevância em uma indústria global dominada por poucos grandes grupos.

Os números divulgados em agosto ajudam a dimensionar essa nova fase. No segundo trimestre, a Embraer alcançou receita de US$ 2,2 bilhões, a maior já registrada pela companhia entre abril e junho e 23% superior à do mesmo período de 2025. O EBIT ajustado chegou a US$ 296,9 milhões, com margem de 13,3%, enquanto o lucro líquido ajustado avançou para US$ 218,6 milhões.

O desempenho levou a companhia a elevar suas projeções de rentabilidade e geração de caixa para 2026. Mais importante, porém, é o que acontece por trás dos resultados trimestrais: a Embraer está combinando expansão da aviação comercial, demanda elevada por jatos executivos, crescimento dos serviços e uma transformação de sua divisão de Defesa & Segurança em uma plataforma cada vez mais global.

Carteira recorde de US$ 34,5 bilhões aumenta visibilidade da Embraer

A carteira firme de pedidos — backlog — atingiu US$ 34,5 bilhões ao final do segundo trimestre, avanço de 7% em relação ao trimestre anterior e de 16% na comparação anual. Foi o sétimo recorde trimestral consecutivo.

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O número é particularmente relevante em uma indústria na qual os ciclos de produção são longos. Uma carteira crescente dá à fabricante maior previsibilidade sobre receitas futuras, utilização das linhas industriais, negociação com fornecedores e planejamento de investimentos.

Na Aviação Comercial, o backlog chegou a US$ 15,1 bilhões, crescimento anual de 15%. Um dos destaques foi uma nova encomenda da Azorra para 15 E195-E2, que ajudou a família E2 a ultrapassar a marca de 500 pedidos firmes globalmente. A relação book-to-bill da divisão ficou em 1,8 vez nos 12 meses encerrados em junho — sinal de que a entrada de novos pedidos continua superior ao ritmo de reconhecimento das entregas.

A Aviação Executiva acumulava outros US$ 7,8 bilhões em pedidos, enquanto Serviços & Suporte alcançou recorde de US$ 5,5 bilhões. Mas é em Defesa & Segurança que aparece uma das mudanças estruturais mais importantes: o backlog da divisão saltou 42% em um ano, para US$ 6,1 bilhões.

Somadas, as quatro grandes áreas mostram que a expansão atual não depende de um único produto.

Receita cresce 23% e Embraer melhora margens e geração de caixa

A aceleração dos pedidos já começa a aparecer nos resultados.

A receita consolidada do segundo trimestre alcançou aproximadamente US$ 2,24 bilhões, avanço de 23% em relação aos US$ 1,82 bilhão registrados um ano antes. O EBIT ajustado atingiu US$ 296,9 milhões, equivalente a uma margem de 13,3%.

O lucro líquido ajustado aumentou de US$ 158 milhões para US$ 218,6 milhões, crescimento de cerca de 38%. O lucro atribuível aos acionistas foi de US$ 212,6 milhões.

Outro indicador relevante foi o caixa. O fluxo de caixa livre ajustado, excluindo a Eve, alcançou US$ 401 milhões no trimestre, contra resultado negativo de US$ 162 milhões um ano antes. Parte da melhora veio do desempenho operacional, de recebimentos antecipados relacionados a vendas e de um crédito tributário extraordinário.

A companhia também continuou investindo. Foram US$ 120,8 milhões no segundo trimestre, ou US$ 151 milhões quando considerada a Eve.

Esse conjunto — crescimento de receita, expansão de margem e geração positiva de caixa — é especialmente importante porque fabricar mais aeronaves exige capital de giro, estoques, fornecedores, engenharia e capacidade industrial antes que boa parte da receita seja efetivamente reconhecida.

Embraer eleva projeções para 2026

Depois do desempenho do primeiro semestre, a Embraer revisou para cima duas de suas principais metas financeiras.

A expectativa para a margem EBIT ajustada passou para entre 10% e 10,6%, ante previsão anterior de 8,7% a 9,3%. Para o fluxo de caixa livre ajustado, excluindo a Eve, a companhia passou a projetar US$ 400 milhões ou mais, o dobro do piso anterior de US$ 200 milhões.

A receita anual permanece projetada na faixa de US$ 8,2 bilhões a US$ 8,5 bilhões, segundo a orientação atualizada da companhia.

Em produção, a meta divulgada para 2026 prevê 80 a 85 entregas na Aviação Comercial e entre 160 e 170 aeronaves na Aviação Executiva.

O ritmo vem avançando. A Embraer entregou 65 aeronaves somente no segundo trimestre, seu melhor resultado para o período em 16 anos. No primeiro semestre foram 109 aviões, aproximadamente 20% acima das 91 unidades entregues nos primeiros seis meses de 2025.

Aviação Comercial ganha espaço entre Airbus e Boeing

Na Aviação Comercial, a Embraer ocupa uma posição peculiar na indústria.

A empresa não disputa diretamente todo o mercado de grandes aeronaves de corredor único dominado por Airbus e Boeing. Sua principal força está no segmento de jatos de até 150 assentos, em que a família E-Jets se tornou uma alternativa relevante para companhias que precisam combinar capacidade, frequência e custos operacionais.

No segundo trimestre, a divisão comercial registrou US$ 625 milhões em receita, crescimento anual de 8%.

O posicionamento ganha importância à medida que companhias aéreas procuram adequar capacidade à demanda de rotas secundárias e regionais, alimentar grandes hubs e aumentar frequências sem necessariamente utilizar aeronaves maiores.

A Embraer afirma já ter entregue mais de 9 mil aeronaves desde sua fundação. Atualmente, um avião produzido pela companhia decola, em média, a cada dez segundos em algum lugar do mundo, transportando mais de 150 milhões de passageiros anualmente.

Isso coloca a fabricante brasileira em uma posição diferente da simples classificação como competidora menor de Airbus e Boeing: ela construiu um nicho global de alta complexidade tecnológica no qual possui escala, histórico operacional e uma extensa base instalada.

C-390 Millennium transforma Defesa em novo vetor global

Se os E-Jets são fundamentais para a escala industrial da Embraer, o C-390 Millennium está se tornando uma das peças centrais de sua internacionalização.

A receita de Defesa & Segurança avançou 38% no segundo trimestre, para US$ 304 milhões. A margem bruta passou de 19,5% para 20,6%, enquanto a margem EBIT ajustada subiu de 9,2% para 11,9%.

A expansão ocorre enquanto o C-390 conquista forças aéreas em diferentes regiões. Brasil, Portugal e Hungria já colocaram aeronaves da família em operação. O programa também foi selecionado por países como Coreia do Sul, Holanda, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia.

Em julho, a Embraer entregou o primeiro C-390 à Força Aérea Tcheca apenas 20 meses após a assinatura do contrato. A aeronave pode transportar até 26 toneladas e atingir velocidade de 470 nós, além de executar transporte de tropas e cargas, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e reabastecimento aéreo.

A expansão europeia tem relevância estratégica porque coloca uma aeronave brasileira dentro do processo de modernização das forças armadas de diversos países da Otan.

Emirados Árabes fazem maior pedido internacional do C-390

Outro salto ocorreu no Oriente Médio. Em maio, os Emirados Árabes Unidos fecharam contrato para 10 C-390 firmes e outras 10 opções, a maior encomenda internacional do modelo feita até agora por um único país. Foi também a primeira seleção do C-390 no Oriente Médio.

O acordo ajudou a elevar em 42% o backlog de Defesa & Segurança e prevê ainda o desenvolvimento de capacidades locais de manutenção, reparo e revisão em parceria com uma empresa dos Emirados.

A estratégia mostra como a disputa no setor de defesa vai além da venda da aeronave. Contratos de treinamento, manutenção, peças, suporte e cooperação industrial podem produzir receitas durante décadas.

Em agosto veio outro avanço: a Colômbia contratou dois KC-390, tornando-se o primeiro país latino-americano além do Brasil a adquirir a plataforma e o 13º país a selecioná-la globalmente. O pacote inclui equipamentos de missão, serviços, suporte e um programa de compensação industrial.

A sequência de contratos reduz gradualmente um dos maiores obstáculos enfrentados por novos programas militares: a falta de escala internacional.

Quanto maior a frota global, mais atraente tende a ficar o ecossistema de treinamento, manutenção, peças e interoperabilidade — e maior pode ser o incentivo para novos governos adotarem a mesma plataforma.

Serviços e aviação executiva completam estratégia de diversificação

A expansão não se restringe às duas divisões mais visíveis. A Aviação Executiva faturou US$ 725 milhões no segundo trimestre, alta anual de 32%, impulsionada por maior volume e melhor mix de produtos. Serviços & Suporte cresceu 24%, para US$ 565 milhões.

Serviços têm uma característica particularmente atraente para fabricantes aeronáuticos: receitas associadas à frota instalada continuam sendo geradas durante grande parte da vida útil dos aviões.

O backlog de Serviços & Suporte de US$ 5,5 bilhões, portanto, ajuda a tornar a composição de receitas da Embraer menos dependente exclusivamente do calendário de novas entregas.

Embraer começa a disputar influência, não apenas mercado

A nova fase da Embraer não significa que a companhia tenha alcançado a escala de Airbus ou Boeing. As gigantes continuam muito maiores em faturamento, capacidade industrial e carteira de aeronaves comerciais.

A mudança está em outro ponto. A fabricante brasileira passou a construir posições competitivas difíceis de replicar em segmentos específicos: jatos comerciais de menor capacidade, aeronaves executivas, serviços aeronáuticos e transporte militar multimissão.

O C-390 é talvez o melhor exemplo dessa transformação. Cada novo país que adota a aeronave amplia não apenas o backlog, mas a credibilidade internacional do programa. A presença crescente entre membros da Otan, a entrada no Oriente Médio e agora a expansão latino-americana tornam o produto progressivamente mais global. Ao mesmo tempo, os E-Jets oferecem uma base comercial já consolidada e uma carteira que continua crescendo.

Perspectivas: carteira recorde aumenta desafio de produção

O cenário, contudo, não está livre de riscos. Uma carteira de US$ 34,5 bilhões representa oportunidade, mas também pressão operacional. Para converter pedidos em receita, a Embraer precisa elevar produção sem comprometer qualidade, administrar fornecedores globais e evitar gargalos de componentes em uma indústria que ainda enfrenta restrições de cadeia produtiva.

Há também riscos cambiais, geopolíticos e comerciais, além da natureza cíclica da aviação. Por outro lado, o crescimento simultâneo de quatro negócios — comercial, executivo, defesa e serviços — reduz a dependência de apenas um mercado.

A relação book-to-bill de 2,6 vezes em Defesa, 1,8 vez na Aviação Comercial, 1,3 vez em Serviços e 1,1 vez na Aviação Executiva mostra que a demanda acumulada continua robusta.

Embraer chega ao segundo semestre de 2026 em posição estratégica

Os resultados mais recentes sugerem que 2026 pode representar mais do que outro ano de crescimento para a Embraer.

A combinação de US$ 34,5 bilhões em pedidos, receita trimestral recorde, margem EBIT de 13,3%, US$ 401 milhões de fluxo de caixa livre ajustado no trimestre e expansão internacional do C-390 indica uma empresa com maior escala e capacidade de transformar engenharia brasileira em contratos globais.

O próximo desafio será executar essa carteira. Se conseguir acelerar entregas, sustentar margens e continuar transformando o C-390 em uma plataforma adotada por novas forças aéreas, a Embraer poderá sair deste ciclo não apenas maior financeiramente, mas com uma posição estruturalmente mais relevante no tabuleiro aeroespacial mundial.

Em uma indústria na qual escala, tecnologia e décadas de relacionamento com clientes funcionam como enormes barreiras à entrada, esse talvez seja o aspecto mais importante do atual momento da companhia: a Embraer está deixando de ser apenas uma fabricante brasileira de alcance global para consolidar-se como um dos poucos grupos capazes de disputar mercados estratégicos da aviação mundial em múltiplas frentes.